O homem que enxergava

(Leia antes ESTE post)

escada

Ele respirou fundo e desligou o celular. Tinha acabado de ver uma atualização de status de sua ex-namorada: “em um relacionamento sério”. Maldito Facebook.

Sua primeira reação foi querer deletar a conta naquela rede social estúpida. Pra que ficar se inteirando da vida de pessoas que deveríamos esquecer que existem? Mas preferiu desligar o celular, por via das dúvidas. Penso melhor sobre isso, depois me decido.

Olhou ao redor. O trem estava apinhado de gente, mas bem menos do que no horário de pico. Das vantagens de ter uma jornada de trabalho mais flexível… Ele conseguiu se sentar e resolveu espiar se não havia, de pé, nenhuma pessoa mais velha ou com cara de grávida para quem precisasse ceder seu lugar. Respirou aliviado ao constatar que eram todos marmanjos também.

Passou a olhar para os passageiros que estavam sentados, como ele. Quem seriam aquelas pessoas? Ele gostava de analisar os rostos e tentar adivinhar.

A primeira coisa que notou é que quase todos estavam com o celular na mão, compenetrados. Não sorriam, não tinham nenhuma expressão no rosto, apenas aquela tensão de quem está lendo numa tela pequena e brilhante.

Levou um susto. Ver aquele tanto de pessoas imersas num aparelhinho dava uma sensação estranha. Como se ele estivesse em outro mundo, assistindo, de fora. Como se elas fossem personagens de um filme de ficção científica, e ele estivesse na poltrona do cinema.

Desviou o olhar e viu uma senhora com um livro. Ficou mais aliviado, aquele era um velho conhecido, um objeto milenar e, ao mesmo tempo, precioso e raro, porque quase ninguém o observava mais naqueles vagões.

Tentou ver a capa do livro, percebeu que era um best-seller da moda, algo como “Meu querido John”. Devia ser uma senhora meio frívola e que nunca lia, pensou, quase imediatamente arrependido pelo preconceito que aquele pensamento carregava.

Procurou um novo rosto. Encontrou o de uma moça, jovem como ele, bonita. Ela não estava olhando para o celular, mas tampouco parecia interessada no que acontecia ao seu redor. Estava perdida nos próprios pensamentos, olhando fixamente para um ponto que provavelmente não estava naquela mesma dimensão.

Percebeu que alguma coisa emanava dela, algum sentimento forte, intenso. De repente se deu conta de que era tristeza. Ela estava triste. Teria visto também que seu ex-namorado atualizou o status? Não, certamente era algo muito mais profundo, que não caberia numa rede social.

Ficou abatido com a tristeza daquela moça. E, ao mesmo tempo, sentia uma certa emoção por ter encontrado alguém com um sentimento tão palpável em um mero vagão de trem.

Queria falar com a moça que a tristeza dela não era em vão, que seu sentimento era importante para o mundo, que tinha modificado seu dia e que ela era a pessoa mais viva em toda aquela linha de trem.

Depois de alguns minutos, a moça piscou mais rápido, como que se lembrando de algo, olhou para as placas da estação que se aproximava, e levantou correndo para conseguir sair antes que uma multidão invadisse o vagão.

Num impulso, ele resolveu segui-la, mesmo ainda não sendo sua parada. Não sabia muito bem o que queria fazer, mas não queria perdê-la de vista.

Nas escadas rolantes, segurou seu braço e perguntou, meio sem entender o que queria com aquilo:

– Moça, por que está tão triste?

Ela sorriu, ainda que com um espanto nos olhos, mas respondeu apenas (sem responder nada):

– Obrigada.

E foi embora.

E aí ele se deu conta de que ela agradecia pelo mesmo motivo que ele se sentiu grato ao vê-la no trem: por tê-la lembrado de que, naquela multidão de rostos duros, que mal se dão conta da existência dos outros, ela era a mais viva de todas. E ele, por ter tido a sensibilidade de enxergá-la, também se sentia mais vivo, com todas as tristezas que a vida permite.

Na mesma hora, ligou de novo o celular e deletou a maldita conta do Facebook e todas aquelas atualizações sem sentido.

***

OBS.: Texto ficcional, baseado em um relato real (que li numa atualização do Facebook, vejam só)

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8 comentários sobre “O homem que enxergava

  1. Me identifiquei muito com o texto kkk
    Quantas vezes eu não parei pra olhar as pessoas ao redor no trem e tentar adivinhar quem seriam. Quantas vezes eu vi a tristeza estampada tão claramente mas nunca disse nada (porque seria um maluco e mal-educado…talvez xD).

    Muito bom ^^

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    • Eu também vivo olhando as pessoas ao redor e tentando imaginar quem são…
      Mas acho que deveríamos, sim, perguntar às pessoas ao redor por que estão tristes, com um pouco mais de frequência. Esse conto do post se inspira na história real de um rapaz que fez essa pergunta a uma amiga que estava triste no trem. Ela ficou em dúvida se o gesto dele foi fofo ou bizarro e a questão dividiu opiniões. Eu acho, antes de tudo, de uma extrema sensibilidade.

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