O prédio que é toda uma cidade (e o fim da qualidade de vida)

Foto do Joel Silva na primeira página da Folha de 18/2/2012 mostra saída de carros de São Paulo para "descansar" no feriado.

Foto do Joel Silva na primeira página da Folha de 18/2/2012 mostra saída de carros de São Paulo para “descansar” no feriado.

Quando meus pais se mudaram para aquele prédio, eu tinha 6 anos de idade. Era o ano de 1991 e havia, em Belo Horizonte, uma frota total de apenas 479.805 veículos.

O prédio não tem área de lazer, playground, essas coisas. Bom, mas tinha a garagem. E os vizinhos quase não tinham carros. Então todas as crianças e adolescentes do prédio se reuniam lá embaixo para jogar corta-três (uma espécie de vôlei em roda). Também era comum eu descer para brincar com minha cachorrinha lá embaixo. E também foi naquele espaço livre enoooorme que aprendi a andar de bicicleta.

Agora, em 2013, há 1.577.491 veículos em Belo Horizonte, segundo o Denatran. Estou falando que, em 22 anos, a frota de veículos da cidade mais do que triplicou, cresceu 229%. (A população da cidade, no mesmo período, foi de 2,02 milhões para 2,479 milhões, segundo o IBGE. Ou seja, cresceu só 22,7%).

Embora a cidade não tenha se expandido tanto assim, geograficamente, para acompanhar esse crescimento moderado de sua população, as ruas foram ficando abarrotadas de carros. Em outras palavras, embora o prédio dos meus pais continue com oito andares e mesmo número médio de moradores (ou talvez até tenha diminuído a quantidade de moradores, já que as famílias se reduziram bastante nos últimos anos), todas as vagas passaram a ser ocupadas e os espaços para manobra dos carros passaram a ser milimétricos e disputados. Que dirá o espaço para as bicicletas e bolas das crianças que por ali passarem…

Metaforicamente, é como dizer que o prédio perdeu uma área de lazer, um verdadeiro playground, e ainda agregou estresse aos moradores, em busca de vagas para seus dois ou três carros por família.

O prédio é toda a Beagá. Que, em pouco mais de 20 anos, perdeu sua qualidade de vida. Seu playground dando lugar a carros. Os passarinhos cedendo às buzinas.

Dá para expandir a analogia para São Paulo e Rio, que, como informou o escritor Carlos Emerson Junior, tem o terceiro pior trânsito do MUNDO, perdendo apenas para Moscou e Istambul.

Bora andar mais a pé, gente? 😀

 

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