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Das pressões na vida de um bancário

Já faz uma semana que o Felipão soltou sua pérola, mas eu, como ex-funcionária do Banco do Brasil, não poderia deixar de comentar.

Para quem não viu, ele disse o seguinte, no dia se sua posse como novo técnico da Seleção:

— Se o jogador entrar sem pressão nenhuma, pensando que o objetivo é jogar a Copa, não pode ser assim. Fui jogador do interior. Eu era bom. O pessoal dizia que não, mas eu era bom. E tem pressão. Eles têm que saber. Nossos jogadores sabem que seria um dos títulos mais importantes que o Brasil já conquistou. Tem que trabalhar bem esse aspecto. Se não tiver pressão, vai trabalhar no Banco do Brasil, senta no escritório e não faz nada.

A frase deu a maior polêmica entre a classe dos bancários e ele teve que pedir desculpas, inclusive apelando para elogios ao banco, que é rival direto do patrocinador da CBF, o Itaú.

Bom, desculpas aceitas, inclusive porque não sou mais bancária. Mas acho engraçado que as pessoas ainda pensem que vida de bancário é esse luxo todo, mesmo convivendo com as filas intermináveis nas agências, os telefones sempre ocupados e a certeza de que essa é a categoria profissional com mais alcoólatras do país (ou empatada com os médicos).

Talvez seja a hora de as pessoas aprenderem um pouquinho mais sobre a vida num banco.

Grávida sem almoço

Lembro de uma época em que substituí gerentes dos postos de atendimento da agência durante a hora de almoço deles e, por isso, emendei direto, das 11h, às 15h, sem possibilidade de almoçar. Não raro eu chegava atrasada em um dos postos, por causa da cobertura anterior, e a gerente, que estava grávida, estava quase passando mal de vontade de comer, sem poder deixar o lugar sozinho até minha chegada.

Quando eu atendia no “Pessoa Física”, que é onde está a maioria dos clientes, aguentava as pessoas gritando, mesmo sentadas, reclamando da demora no atendimento. Para que isso não ocorresse, eu deixava acumular as pendências para o fim do expediente, para poder liberar a fila o quanto antes. Outro hábito meu era sair correndo pela agência — sim, correndo –, escada acima e abaixo, para pegar as pastas e fazer tudo o que fosse preciso para agilizar.

Primeiro choro

Mas o “Pessoa Física” e as filas quilométricas dos caixas no quinto dia útil eram fichinha perto do atendimento dos mais ricos. Lembro de uma vez em que, às 16h30, um cliente “exclusivo” pediu para entrar, reclamou, e acabei atendendo ele fora do horário. Me arrependi: ele passou os 20 minutos em que esteve na minha frente me descascando, me xingando de todos os nomes, porque o banco isso e o banco aquilo com ele. Não me lembro do teor da conversa, mas já eram 16h30, eu tinha uma pilha de pendências para resolver naquele dia sem falta, tinha ido pra faculdade de manhã e iria para o estágio à noite e comecei a adoecer de ser tratada tão mal. Levantei correndo, pedindo desculpas a ele, e fui me esconder no banheiro, dentro da agência. Foi a primeira vez que chorei por causa de um cliente. Chorei de soluçar, por uns dez minutos seguidos, e não tinha mais coragem de voltar para lá. Encontrei uma colega e pedi que ela fosse por mim, mas ela não podia, então engoli o choro, esperei mais uns 5 minutos e fui, com a esperança de ele já ter ido embora. E ele tinha ido: mas deixou na minha mesa uma balinha e um bilhete se desculpando pelas grosserias.

Segundo choro

A segunda vez que chorei foi na época em que eu fazia renegociação de dívidas. Era um trabalho psicologicamente cansativo, porque eu tinha que ouvir todas as histórias dos dramas familiares que levaram a pessoa a dever ao banco. Ninguém gosta de ter o nome sujo e, por isso, todo mundo faz questão de se justificar. Eram muitas histórias tristes, de doenças graves com tratamentos caros, acidentes, desemprego etc. Sabe-se lá qual o percentual das verdadeiras, mas eram tristes mesmo assim. Eu tinha vontade, muitas vezes, de falar que tudo bem, a dívida estava perdoada, podia ir para casa tranquilo. Mas não podia fazer isso, então me esforçava para, ao menos, tornar a renegociação o mais leve possível, com a menor taxa de juros possível em cada caso, ou eventuais abatimentos. Mas certa vez uma cliente me descascou no telefone, me xingou de tudo que era nome, porque ela dizia que não podia pagar nem da forma que eu havia proposto. Ela ficou meia hora no telefone comigo, já eram quase 18h, meu ponto estava caindo, não havia como melhorar ainda mais para ela, e, no fim, ela disse que iria se matar. Desliguei na hora e fui para o banheiro de novo, lavar o rosto e respirar.

Escândalos e assaltos

E, além das filas e da quantidade de clientes por si só desgastante, havia as danadas das metas. E os erros. E as panes. Sistema travou, cliente emputecia pelo atraso que isso lhe acarretaria. Não quer nem saber se a culpa não é sua. Todo dia tinha gente fazendo escândalo, escândalo mesmo. O mais comum era o escândalo na porta rotatória, na hora de tirar os metais do corpo para passar. Uma vez vi uma mulher ficar tão tresloucada, que começou a tirar a roupa toda, gritando: — VIRAM SÓ? TEM ARMA AQUI? ONDE ESTÁ A ARMA? Eu queria ver alguém dar esse piti quando chegasse um ladrão de verdade.

Ah sim, e eles chegam. Já teve dois assaltos na minha agência, no período em que estive lá. Num deles, uma mulher dessas deu escândalo e acabou convencendo o guarda e entrou com a arma escondida numa bota. Noutra, colocaram uma bomba (não me lembro agora se era de verdade ou não) amarrada no corpo de um dos gerentes, que passou a noite e madrugada sendo ameaçado a troco de quase nada, porque os cofres tinham sido esvaziados no dia.

Doenças

Também já ouvi de um colega que um cliente resolveu escarrar (!!) no chão da fila do caixa, demonstrando seu desprezo pelo atendimento. Mas o cliente tem sempre razão, então não dá pra levantar a voz, reclamar ou criticar. Já trabalhei com ar condicionado quebrado por meses de verão. Já tive que fazer força-tarefa para abrir contas de trocentos funcionários que chegaram de uma vez só, vindos de um banco concorrente.  Já fiz força-tarefa para resolver processos acumulados que se empilhavam na minha mesa por causa de um problema pontual. Já vi colega com LER. Com estresse. Com depressão. Alcoólatra. Endividado.

Eu não gostava de ser bancária, mas, como já registrei por aqui, fiz de tudo para exercer meu trabalho da melhor forma possível, sempre. E fiz muitos amigos lá, que perduram até hoje. E também havia as festas, os butecos, a descontração. Mas pressões havia, e muitas, de todos os lados. De cima, de baixo, dos lados, de fora. Felipão reproduziu apenas o que muita gente pensa da vida de um bancário. Mas vai ser bancário, pra ver!

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

25 comentários em “Das pressões na vida de um bancário Deixe um comentário

  1. Cris, acho que foi nessa época que você começou a sofrer de insônias. Além de trabalhar muito de dia, passava parte da noite tentando resolver os problemas do mundo. Mas escrevia também bons poemas, inspirados certamente nessas suas angústias existenciais. Um dia, quando e se ficar famosa, elas serão publicadas (pois poeta só consegue publicar assim; ou então faz como Carlos Drummond de Andrade, paga do próprio bolso a publicação do livro e depois sai por aí, tentando vendê-los – não a aconselho a fazer isso…)

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    • Eu já tinha insônias desde a época do colégio, no Ensino Médio, quando dormia em média 5h por dia… Mas acho que o banco as agravou, porque eu passava boa parte da noite sonhando com as dívidas dos clientes, com os cálculos que eu tinha que fazer etc. E nem contei tudo aqui neste post, até porque tem coisa que acho antiético sair publicando. Mas já vi muitos problemas lá também.

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  2. Cristina, estava lendo um de seus textos e vi que, estou apaixonada por você! (Mentira! Não é pra tanto.)
    Tenho 18 anos e estou concluindo meu ensino médio, e com ele ficam MUITAS dúvidas do que fazer quando o mesmo terminar. Tenho uma tia emprestada, que é bancária. E uma tia da família, que também é bancária. Ambas têm uma condição boa e não mostram esse lado desgastante que é o banco. Bem, de cara me identifiquei com você, porque você cursa jornalismo. E esse curso é um dos que eu sempre quis fazer. História, jornalismo, marketing, publicidade e design de interiores. Mas sou “pobre” e logo, larguei de mão História. (Por muitos tópicos) Os outros quatro cursos, ficam subindo de ranking em minha cabeça e eu realmente não sei o que escolher. Você deve estar se perguntando: Irado! Mas por que essa garota está me mandando tudo isso?
    O motivo d’eu estar “desabafando” isso tudo é que, começarei como Jovem aprendiz nesta área. E não faço ideia do que vou enfrentar. Mas estou confiante, (ainda mais depois de ler alguns de seus textos) porque sei que darei o meu melhor. E futuramente, me tornarei membra do banco, como minha prima também é! (E que também tem uma condição bacana)

    Enfim, queria mesmo era pedir uma luz á você que já está nessa área e me parece muito clara ao lado ruim do banco. (O que eu gosto, pois as pessoas só falam coisas boas de lá, e eu sempre procuro o lado ruim para ver pra onde estou indo.)
    Ah, e te desejo MUITO, MUITO sucesso na sua área. Que além de linda, deve ser uma delícia de fazer. (Dependendo pra área que escolheu)

    Bom dia! (Já posso dar. São 04:33) Abraços!

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  3. Parei para ler mais um de seus textos, e agora, admito: Estou apaixonada mesmo por você! (Não sou lésbica)

    “O homem que enxergava”

    Estou pensando em muitas coisas para te mandar, mas são tantas, que eu só te deixo meus parabéns e sucesso novamente. Você vai longe!

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    • Obrigada, querida! Estava com insônia? Quando eu tinha 18 anos, também vivia com insônia.
      Você daria uma ótima jornalista, porque, além de ter um texto bom, demonstra ser curiosa e faz uma coisa muito importante: tenta conhecer o lado ruim — que existe em toda profissão –, além do lado bom que todos te contam.
      Olha, eu realmente não gostava do trabalho de bancário, mas por um perfil que eu tenho e pelo sonho que sempre tive em atuar como jornalista. Mas tenho vários amigos bancários, que se formaram em outras áreas, mas preferiram seguir a vida no banco. Uma formada em direito, um formado em matemática, outro em letras… E eles são felizes lá. O bancário passa por todos esses estresses que eu descrevi e acho importante você conhecê-los (e toda a sociedade, que, como o Felipão, às vezes parece achar que bancário nem trabalha). Mas também há vantagens. Se você gosta de lidar com pessoas, é um lugar onde vai ouvir muitas e muitas histórias de vida, dos clientes, e aprender muito. Se gosta de administrar situações complicadas, aprenderá lá a ter jogo de cintura para fazer isso. Se é tímida, certamente vai perder boa parte da timidez lá. Nos meus 4 anos como bancária, aprendi muitas lições para, depois, atuar como jornalista. Ou seja, mesmo que você não siga a carreira no banco, a experiência pode ser importante para sua vida em qualquer outra profissão que for seguir. Você pode passar lá, aprender, dar o melhor de si (faça sempre isso, e irá longe!) e, se perceber que não é o que te faz feliz, pode buscar outro emprego depois, porque não existe isso de uma pessoa com 18 anos ter que escolher o que vai fazer pelo resto da vida.
      Outras vantagens são o respeito pelas leis trabalhistas, que você vai encontrar se estiver indo para um dos dois bancos públicos (BB ou Caixa). Eles são muito certinhos em relação a jornada de trabalho, pagamentos, folgas e feriados etc. Isso não se encontra facilmente por aí, então não é um fator desprezível.
      Enfim, espero ter te ajudado! Volte sempre e fique à vontade para perguntar o que quiser 😉 bjos

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  4. Fiz o último concurso da caixa economica federal em minha cidade, onde a concorrencia é enorme. Por tanto, até atingir uma boa pontuação, que é mesmo assim pouco provável eu ser classificado entre os primeiros.
    Gostaria de saber, quais as maiores dificuldades no inicio da carreira e no fim quando resolveu sair do banco!?
    Obg!

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    • Oi, Anderson! Acho que depende de cada um, dos objetivos de cada um. Como entrei no banco sem ter a pretensão de ser bancária, não tive grandes dificuldades ao sair. Para entrar, os maiores problemas que vi foram a falta de treinamento oferecido. Vc cai na toca dos leões e tem que se virar na hora. Também achei complicado, no começo, porque eu era um pouco tímida para falar com desconhecidos. Mas foi bom atender clientes, porque perdi quase toda a timidez. Boa sorte!

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  5. Boa noite Cris, tudo bem?
    Parabéns pelo texto, eu ADOREI ! O meu maior sonho é ser bancária, mas ultimamente ando ouvindo reclamações de bancários por todo lado, já até pensei em desistir rsrs mas minha paixão é tanta, que vou sim tentar. Na sua opnião, acha que estou iludida? E quero te desejar muita sorte e sucesso. Bjos 🙂

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    • Olá, Jéssica! Acho que vc tem que pesquisar bastante para conhecer a profissão, conversar com quem é bancário, pesar os prós e contras. Mas, se é a carreira que vc quer seguir, VAI FUNDO! O importante é fazer o que gostamos de fazer. Todas as profissões do universo têm defeitos e qualidades, mas as chances de nos darmos bem em uma profissão aumentam quando fazermos aquilo de que realmente gostamos. Boa sorte! 🙂

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  6. Ola! Li seu texto e me identifiquei muito. Sou concursada da Caixa Federal e estou e vias de pedir demissao. O assedio moral tornou-se insuportavel e antes que a depressao me domine, resolvi sair.
    Nao tenho nenhum emprego em vista, apenas desejo recuperar o controle da minha vida e da minha sanidade mental.

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    • Faça isso mesmo, Ana! Se está se sentindo infeliz num emprego, é preciso deixá-lo o quanto antes. Passamos muito tempo de nossas vidas trabalhando, então é preciso que o ambiente de trabalho nos faça bem, pelo bem de nossa saúde. beijos e boa sorte!

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  7. Uau! Ler seu texto me deixou um pouco confusa. Meu objetivo de vida é ser concursada e estou em busca de uma área para focar. Estava me decidindo pela área bancária, mas fiquei em dúvida. Não quero me iludir. Já ouvi dizer que existe o departamento de engenharia no BB e que existe a possibilidade de ser remanejada por cursar Arquitetura e Urbanismo. Pode me dar alguma opinião?

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    • Olá!
      Eu só posso te dizer que demora um pouco para que a pessoa passe para essas gerências específicas dentro do banco, e há concursos internos que contam, entre outros fatores, o tempo de casa da pessoa. Por isso, não é o ideal entrar no banco achando que você vai passar loo para sua área, porque é algo que pode levar um tempo. Mas há várias vantagens também na vida de um bancário. O importante é pesar os prós e contras antes de tomar sua decisão 🙂 Um abraço

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  8. Boa tarde Cristina,

    Estudo há algum tempo para os concursos do BB e CAIXA e realmente desejo ingressar na carreira. Uma pergunta, qual era o relacionamento com seus superiores, em relação aos tipos de metas, assédio e pressão para que elas fossem batidas?

    Boa sorte em sua carreira.

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    • Oi, Cayque! Eu não sofri tanta pressão quanto a metas, mas por causa do tipo de trabalho que exerci na maior parte do tempo em que estive no BB, que era interno, ou específico demais (renegociação de dívidas). Quem sofre mais com isso são os gerentes de contas e demais funcionários que atendem diretamente os clientes, que podem vender produtos (seguro, previdência etc), principalmente os que atendem clientes mais ricos. Ouvi vários casos de assédio e pressão exagerada por conta de metas… Um abraço e boa sorte nos concursos!

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      • Muito obrigado pela prontidão de resposta. Mas, em geral, a posição que o funcionário entra no banco (escriturário), e que faz o atendimento aos clientes e tals, já existe uma certa pressão?

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      • Sim, se você for parar no atendimento, vai passar por uma certa pressão quando for preciso bater metas. Mas muitos escriturários trabalham nos setores internos tb, como eu (eu era escriturária). E a pressão maior é sobre os gerentes.

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