Eu estava tomando café da manhã e, sem nada melhor passando na TV, como é hábito aos domingos, fui ver os desenhos do Pica-Pau.
Quando a gente vê esses desenhos quando criança, só temos em mente que existe um herói, o Pica-Pau, e seus inimigos, que são malvados e ele precisa combater. Com a vantagem de que todos são torturados e assassinados mil vezes, mas nunca morrem.
Vendo agora, outros detalhes saltam aos olhos:
O bandido fumando, os dois entram em um butecão copo-sujo e pedem uma cachaça, enquanto um sujeito que está no bar está soluçando e cambaleando de tão bêbado. Em outro episódio, o Pica-Pau trabalha como gari e é humilhado por um xerife; quando vai revidar, o xerife mostra o distintivo e bate nele com um cassetete, para registrar quem é que manda ali (lembra algumas pessoas reais?). Em outro, Pica-Pau e o bandido tentam se matar com um machado, uma bomba, uma flecha gigante, uma espingarda, um fosso de crocodilos, um canhão, um serrote, um martelo gigante e outras armas letais. Pica-Pau só se livra do bandido quando o despacha por um elevador, cujo ascensorista é o demônio em pessoa. Tudo para destruir uma apólice – que criança nenhuma sabe o que significa.
A turma do politicamente correto arrepiaria ao ver tudo isso em um desenho animado infantil, né?
Eu só digo uma coisa: eu própria e outras várias gerações assistimos (e assistirão, inclusive meus filhos) a tudo isso em Pica-Pau, e também no Popeye, Tom e Jerry, Piu-Piu e Frajola, Pernalonga, e em desenhos mais “modernos” como He-man, Caverna do Dragão etc. Até em Ursinhos Carinhosos era bem capaz de haver umas maldades.
E daí? Além de não terem formado assassinos em massa, ou fumantes e alcoólatras compulsivos, esses desenhos podem ter nos ajudado a perceber como é tênue a linha que separa os bandidos dos mocinhos, neste mundo que se presta a tudo, menos ao maniqueísmo.
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Acho arriscado dizer que *não* formaram assassinos em massa. Mas eu adorava (e adoro). Porém, é mais a fase a antiga do Pica-Pau em que há ultraviolência estereotipada (chamado por aqui de Pica-Pau maluco), nas versões mais modernos isso foi pasteurizado.
Woody Woodpecker concorria com outro fanfarrão nas sessões de cinema: Pernalonga (Bugs Bunny). A diferença entre os dois é que, o Pica-Pau (o maluco) não precisava ser provocado primeiro, ele era ele mesmo o agente do caos.
Aqui tem uma boa revisão sobre a possível influência da violência dos desenhos no comportamento de crianças e jovens.
[]s,
Roberto Takata
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O “aqui” era um link esquecido? 🙂
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Hmm, não apareceu? Vamos ver se agora vai: http://migre.me/5pixs
[]s,
Roberto Takata
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Obrigada pela dica 😉
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E o que me diz do Pica-Pau “roubando gasolina, hein?” Ou aquele Pica-Pau absolutamente biruta que deixa o policial perdido “siga aquela carroça, siga aquele chinesinho”? Adoro principalmente essa fase!
Se não me engano o nosso querido passarinho biruta foi criado para ser um coadjuvante atrapalhado do Andy Panda – esse sim, o mocinho comportado e que se mete em inocentes confusões – e acabou roubando a cena, como sempre acontece com essas personagens “desajustadas” ( com o Pato Donald foi parecido: começou como coadjuvante do Mickey).
É um tema polêmico esse dos desenhos animados. Faz um tempinho que eu fui a um congresso de pedagogia e o tema de uma das palestras era a influência dos programas de TV na educação – e colocaram na roda os desenhos animados, inclusive essas animações japonesas. Claro que não há um consenso, embora admita-se que as imagens podem influenciar as crianças. Se estas crianças e jovens fazem a transposição do que veem nas telas ( e aqui incluo os jogos eletrônicos) para a chamada “vida real” precisamos verificar onde estão as instâncias mediadoras – família e escola, apenas para citar as mais presentes. Talvez este seja o grande diferencial “de ontem” e “de hoje”: tais instâncias eram mais presentes – igreja, vizinhos, família numerosa – e atualmente as crianças vivem em um ambiente mais…como diria, “presas”, um ambiente em que as relações sociais estão um tanto modificadas se comparadas há 20, 30 anos.
Posso dizer: eu cresci assistindo os desenhos do Pica-Pau, do Patolino ( outro maluco desajustado), lendo as HQ´s do Pato Donald e do Tio Patinhas ( repleto de estereótipos culturais sobretudo à África e América Latina), além do Homem-Aranha. Graças ao Tio Patinhas descobri muito antes de iniciar os estudos de História e Geografia quem eram os Incas, egípcios, persas e onde esses povos se localizavam no mapa. E com o Homem-Aranha descobri como a imprensa – no caso J.J.Jameson – pode ser manipuladora e distorcer alguns fatos. Tive minha instância mediadora na figura dos meus pais – e de alguns professores. É o que faz falta para muitos atualmente.
Portanto condenar os desenhos animados e jogos eletrônicos e tratá-los como forma de “incentivo à violência” é um caminho muito fácil. Por isso vida longa ao Pica-Pau biruta, ao Pato Donald, Patolino e às piadas do Costinha! 😛
E se me dá licença, Cris, vou ali ver o psi,psisque, eu vou ver o doutor! 😀 bj
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Acho que vc tocou no ponto principal: os desenhos (e filmes, e livros e videogames) sozinhos não fazem a criação de uma criança. As várias mediações com que ela interage, em casa, na escola e no apresentador da TV, atuam juntas. bjos
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Eu tinha ojeriza ao desenho do Popey… Achava meio que ultra-nacionalista, principalmente os episódios em que ele lutava contra os japoneses malvados e kamikazis… quando fiquei maiorzinha e descobri o que eram kamikazis e o que foi Pearl Habor e tudo aquilo que a gnt estua na quarta/quinta serie sobre a segunda guerra mundial comecei a entender que aquilo era um tipo de propaganda dogmática militar… daí minha infância acabou.. Comecei a procurar sentido ideológico e propagandista em tudo… E acho que é bem por isso que eu não consigo sair da universidade hahaha…
Outro dia, conversando com um conhecido sobre os “novos desenhos infantis”…não aqueles divertidinhos que SÓ PODEM ter sido feito para adultos, não… aqueles meio chatos tipo Ben10 e Titans mutants leage. Pensando sobre qual é a imagem do Super Heróis ontem e hoje para uma criança de 5, 6, 7 anos que antes, diante do superhomem via refletido sua figura paterna (seja pai, padrasto, tio, avô… e mãe, por que não?)… agora diante de um superherói que salva o mundo no intervalo do colégio se vê refletido nesse super heróis e autosuficiente dos pais…. PREMATURAMENTE. Cai o mito do Pai-herói e os pré adolescentes tentaram superar o mito antes da hora… e bla bla bla vamos acabar em Freud… pra variar…
só sei de uma coisa… é necessário muito cuidado com que se deixa uma criança assistindo.
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Mas eu acho que se dá importância demais a isso… É só uma das influências e deve ser a menor. Muito mais importante é o que a criança aprende com os pais, irmãos e colegas de escola… Este vídeo pra mim diz muito mais do que os desenhos a que a criança assiste: http://www.youtube.com/watch?v=r2JV0bITQFA
(A propósito, virei comunista já na pré-adolescência, mesmo tendo adorado Popeye e O Resgate do Soldado Ryan)
bjos!
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lá em casa tem vídeos do picapau antigos (incluindo esse do pandinha e esse do barbeiro que vc colocou fotos, e o do ladrão de gasolina que alguém mais citou) prá Teresa conhecer os costumes de outra época 😉
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Boa! 😀
Eu tenho todos os DVDs do Chaves e do Chapolin!
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quando ela crescer mais ou pouquinho, vou querer emprestado 😉
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Com prazer 😀
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Kika, segue sugestão de um texto ótimo da Rayssa sobre o pica-pau, suas várias facetas e seu aspecto politicamente (in)correto. Acho a análise dela muito interessante e concordo.
http://presencadapeste.blogspot.com/2011/02/vinganca-travestismo-e-auto-ironia-em.html
Abraço!
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Ótimo texto mesmo!!!! bjos
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