Por que tirar mais dinheiro dos ricos – e não dos pobres

Alexandria Ocasio-Cortez

Texto escrito por José de Souza Castro:

As pessoas ricas no Brasil pagam pouco imposto, pois a alíquota máxima é de apenas 27,5% sobre a renda, excluindo os dividendos, que são isentos. Apesar disso, há alguns dias, Jair Bolsonaro pensou em reduzir a alíquota dos ricos para 25%, e recuou. Enquanto isso, nos Estados Unidos, uma jovem de 29 anos, Alexandria Ocasio-Cortez, chegou à Câmara dos Deputados, pelo Partido Democrata, com uma proposta “insana”: aumentar a alíquota para até 80%.

A direita ligada ao Partido Republicano caiu de pau. Em defesa dela saiu Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia e colunista do jornal “The New York Times”. Seu artigo, intitulado “Tirar dinheiro dos ricos – o lado econômico”,  foi traduzido por Paulo Migliacci e publicado dia 8 de janeiro pela Folha/UOL. Assinantes podem ler AQUI.

Faço um resumo:

Entre os que não acreditam que a proposta seja uma loucura, supõe Krugman, está Paul Diamond, economista ganhador do Prêmio Nobel e possivelmente o maior especialista mundial em finanças públicas. Num trabalho feito com Emmanuel Saez, um dos maiores especialistas dos Estados Unidos em desigualdade, Diamond estimou que a alíquota ideal de imposto de renda para as pessoas de mais alta renda seria de 73%.

Se fosse implementada nos Estados Unidos, não seria uma loucura. E nem uma novidade. Essa alíquota vigorou por 35 anos depois da Segunda Guerra Mundial, “um período que inclui o momento de maior crescimento econômico em nossa história”, lembra Krugman.

Quando Barack Obama governava, uma renomada especialista em macroeconomia, Christina Romer, então presidente do conselho de assessores econômicos da Casa Branca, calculou que a alíquota ideal seria superior a 80%.

Os economistas que defendem a proposta têm como base duas proposições: a da utilidade marginal decrescente e a dos mercados competitivos. A primeira toma por base o senso comum: US$ 1 mil a mais, para uma família com renda de US$ 20 mil ao ano, fará grande diferença em suas vidas. Mas os mesmos mil dólares adicionais mal serão percebidos por um sujeito que ganhe US$ 1 milhão por ano.

O que isso implica para a política econômica, acrescenta Krugman, é que não deveríamos nos incomodar com os efeitos de uma política econômica sobre os muito ricos. Uma política que torne os ricos um pouco mais pobres afetará apenas um punhado de pessoas, e mal afetará sua satisfação com suas vidas, já que elas continuarão capazes de comprar o que quer que desejem.

Desse modo, a política tributária com relação aos ricos não deveria levar em conta os interesses dos ricos, em si, e sim se preocupar com a maneira pela qual os incentivos causam mudança no comportamento dos ricos, e o que essas mudanças significam para o resto da população.

Quanto à segunda proposição, o importante – vou saltar aqui a explicação técnica – ao tributar os ricos, a única coisa que deve nos importar é a arrecadação que isso gera. A alíquota ideal de imposto para as pessoas de renda muito alta é aquela que permite o máximo de arrecadação.

“E isso é algo que podemos calcular”, diz Krugman, “se tivermos provas da reação da renda pré-impostos dos ricos às alíquotas tributárias. Como eu disse, Diamond e Saez estimam a alíquota ideal em 73%, e Romer em mais de 80% – o que bate com aquilo que Ocasio-Cortez vem dizendo. Um aparte: e se levarmos em conta a realidade de que os mercados não são perfeitamente competitivos e existe muito poder monopolista em ação? A resposta é que isso quase certamente ajuda a defender alíquotas ainda mais altas, porque presumivelmente as pessoas ricas extraem boa parte das vantagens desses monopólios.”

Na opinião do autor, Ocasio-Cortez, longe de se mostrar insana, está perfeitamente alinhada a pesquisas econômicas sérias. Seus críticos, por outro lado, têm ideias de política pública verdadeiramente insanas – e a política tributária tem posição central nessa loucura.

“Os republicanos, você precisa entender, advogam quase universalmente que os ricos paguem alíquotas baixas de imposto, com base na suposição de que cortes de impostos para as pessoas de alta renda terão imensos efeitos benéficos sobre a economia. Essa suposição tem por base as pesquisas de… basicamente ninguém, porque as provas concretas contrariam esmagadoramente essas ideias”, ironiza Krugman. “E por que os cofres do partido exigem adesão à insensatez econômica, este prefere ‘economistas’ que são obviamente fraudulentos e não conseguem nem forjar números efetivos.”

Tudo isso é muito bom. Diverte. Mas não há nada a esperar de Bolsonaro e de sua equipe econômica e dos partidos que os defendem, para que deixem de tentar tirar mais dinheiro dos pobres e passem a tirar dos ricos.

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Um governo interino que age como se não o fosse

Texto escrito por José de Souza Castro:

A Petrobras acena que até o fim deste ano mais da metade do petróleo extraído no Brasil virá dos campos do pré-sal. Em junho, conforme a empresa informou nesta semana, a produção nessa área chegou a 1,24 milhão de barris de óleo equivalente (petróleo + gás natural), ou seja, 40% do óleo produzido no país. As multinacionais do petróleo cobiçam o pré-sal brasileiro e contam com a boa vontade do governo interino de Michel Temer – que tem agido com a desenvoltura de quem não é simples interino.

Coletiva com a Imprensa da Presidência da CNI, Robson braga de Andrade. Foto Miguel Ângelo

O presidente da CNI, Robson Braga de Andrade. Foto de Miguel Ângelo

Pior: um governo fraco e, por isso, sujeito às pressões. Quanto mais ricos os grupos de pressão, mais as possibilidades de serem atendidos. Talvez até exagerem nessa percepção, como fez recentemente o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Robson Andrade.

Os mineiros o conhecem bem. Eu mesmo tive a oportunidade de fazer-lhe um perfil com base em informações do ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas, Stefan Salej, no livro “O Enigma Salej”. No mínimo, foi apontado como traidor – o que o aproxima de Michel Temer, com quem se reuniu no dia 8 de julho com mais uma centena de empresários do Comitê de Líderes da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI).

Na saída, Robson defendeu, em entrevista, mudanças duras na Previdência Social e nas leis trabalhistas. “No Brasil”, disse o presidente da CNI, “temos 44 horas de trabalho semanal. As centrais sindicais tentam passar esse número para 40. A França, que tem 36, passou para a possibilidade de até 80 horas de trabalho semanal”. Além do retrocesso das 80 horas semanais, citou números errados para justificar o injustificável.

Há 15 anos, a editora Sextante, do Rio, publicou o livro “A Economia do Ócio”, do filósofo italiano Domenico de Masi. Trecho: Continuar lendo

Nada admirável mundo novo (ou: como até o FMI se preocupa com a desigualdade)

Como hoje é Dia dos Pais, nada melhor do que ter um dos ótimos artigos do meu pai para presentear os leitores do blog neste domingão 🙂 E feliz dia a todos os pais que me leem por aqui (especialmente ao meu poca, claro)! Espero que ganhem presentes, um almoço delicioso cercado pela família, e muitos abraços e beijos 😀


Antepassados

Texto escrito por José de Souza Castro:

Artigo do prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, devia ser lido com atenção pelos estrategistas das campanhas de Aécio Neves e Eduardo Campos. Para que os candidatos passem a dar mais atenção ao tema, se eles querem mesmo se eleger presidente da República de um país em que a riqueza está extremamente mal distribuída, em prejuízo da maioria dos eleitores.

A revelação de que “a desigualdade atrapalha” o crescimento econômico de um país serve também à presidente Dilma Rousseff, para reforçar suas crenças dos tempos de estudante de economia na Universidade Federal de Minas Gerais que a levaram a participar de uma luta que, na época, estava fadada ao insucesso e à prisão e à tortura. E que agora, se não foram esquecidas, têm enfrentado grandes dificuldades para, por iniciativa presidencial, se firmarem nesse nosso injusto sistema político.

Tanto que, em São Paulo, como vimos recentemente, aquele 1% da população com maior renda na capital se tornou ainda mais rica desde o começo do governo Lula.

Ao contrário do que se pensava nos meios frequentados por Aécio Neves – e agora também por Eduardo Campos –, tributar os ricos para ajudar os pobres pode elevar, e não reduzir, o ritmo de crescimento da economia. É o que afirma Krugman, respaldado em provas levantadas por ninguém menos que o Fundo Monetário Internacional (FMI). Uma desigualdade elevada prejudica o crescimento, constatou o FMI, e a redistribuição pode ser boa para a economia.

Conforme Krugman, no começo desta semana, a nova visão sobre desigualdade e crescimento “ganhou o apoio de um novo relatório da agência de classificação de crédito Standard & Poor’s, que sustenta a posição de que uma desigualdade muito forte prejudica o crescimento”.

É algo para se pensar, num mundo cada vez mais desigual. E que, se nada for feito, tende a piorar.

Até agora, quando se fala em desigualdade, o que vem à mente é um reduzido grupo de bilionários cercado por centenas de milhões de miseráveis em todo o mundo. E o cerco tende a aumentar.

Em outro artigo na “Folha de S. Paulo”, Ruy Castro comentou na última sexta-feira a chegada ao mercado do Fire Phone, da Amazon. O aplicativo Firefly permitirá ao usuário escanear um produto e comprá-lo on-line, sem interferência humana e sem ter nem sequer de digitar. Basta fotografar um produto com o Firefly. A foto em 3D é disparada automaticamente para o site da Amazon, capaz de reconhecer 100 milhões de produtos. Se aquele for reconhecido, a compra estará feita. O comprador recebe em casa e paga em seu cartão de crédito.

No futuro, o comprador nem precisará ir a uma loja para fotografar o que lhe interessa. “Mesmo porque, em pouco tempo, esses lugares, reduzidos a reles showrooms, deixarão de existir. Os showrooms do futuro serão só virtuais”, dizem as reportagens lidas por Ruy Castro. A Amazon tem como meta ser “uma loja de tudo”, de forma a dispensar a existência de todas as outras. Conclui o colunista:

“Não vi nos textos nenhuma preocupação com o fato de que o Firefly pode representar a morte do comércio de rua – e, agora, também o de shopping –, o fim do varejo, o desemprego, a falência das cidades e o fim de uma relação entre os seres humanos que começou quando, um dia, um deles trocou um machado de pedra por uma pele de mamute com seu vizinho – e, com isso, os dois inauguraram a civilização.”

Em 1932, no intermédio das duas grandes guerras mundiais, o escritor inglês Aldous Huxley publicou o livro “Admirável Mundo Novo”. Caminhamos agora para outro mundo novo e, se os atuais donos do mundo e os políticos em geral não criarem juízo, será um mundo cheio de ruído e fúria e sem significado algum.

Não teremos, a nos proteger, sequer uma pele de mamute. Mas não faltarão machados.

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Economia maluca

Charge genial do Laerte, publicada na Folha deste sábado.

Texto escrito por José de Souza Castro:

“O Partido Republicano enlouqueceu após processo de décadas, e não sofre nenhuma pressão para demonstrar racionalidade”, escreveu neste fim de semana o economista Paul Krugman, colaborador da “Folha de S. Paulo”. Mas a loucura, inquestionável, não se abate apenas sobre o partido preferido pelos ricos nos Estados Unidos – e pela elite econômica brasileira e no resto do mundo.

Essa é a impressão que fica ao ler o artigo de Gregory Elich, divulgado hoje pelo Sinpermiso. Para quem não sabe, Elich é autor do livro “Strange Liberators: Militarism, Mayhem, and the Pursuit of Profit” e membro do Conselho de Administração do Instituto de Pesquisa Jasenovac e do Conselho Consultivo da Comissão de Verdade Coréia. A íntegra pode ser lida aqui: http://www.sinpermiso.info/textos/index.php?id=4310. Vou resumir.

Um por cento da população dos Estados Unidos embolsa quase 25% da renda nacional e detém 40% da riqueza do país. Mas eles acham que não é o bastante. E veem como oportunidade a crise do sistema financeiro mundial, reforçada, em setembro de 2008, pela falência do banco Lehman Brothers.

Uma oportunidade para formatar o modelo econômico dos Estados Unidos nos moldes do Terceiro Mundo: uma enorme riqueza e grandes privilégios para a minoria rica e desemprego e salários baixos para o resto da população, sobretudo a população negra.

Enquanto isso, o presidente Obama permitiu que não fossem extintos os cortes de impostos pagos pelos ricos, instituídos no governo Bush. Parte desses cortes foi estendida até 2020, resultando numa elevação, em mais 3,3 trilhões de dólares, da dívida nacional. E não bastassem os 3,2 trilhões de custos das guerras herdadas do governo republicano, no Iraque e Afeganistão, o presidente democrata desfechou mais uma guerra, contra a Líbia.

Não é coisa de doido?

Mas os dirigentes e acionistas das grandes corporações multinacionais com sede nos Estados Unidos estão no sétimo céu. A renda anual média dos CEOs – os presidentes executivos das grandes empresas – elevou-se para cerca de 9 milhões de dólares. Essas corporações cortaram 2,9 milhões de empregos em dez anos, até 2009, em território norte-americano (onde o trabalhador ganha em média oito dólares por hora) e criaram 2,4 milhões em outros países, onde pagam bem menos (na Indonésia, por exemplo, 50 centavos de dólar por hora trabalhada).

Isso pode ser ruim para a economia do país? Sem problema: aquelas corporações mantêm em caixa reservas de 1,9 trilhão, a título de seguro contra algum problema. Se mesmo assim, o problema continuar, está aí o governo para resolver. Nessa loucura toda, ninguém dá a mínima para as teorias econômicas de Ford, que pregava pagar bem aos empregados para criar mercado, e muito menos para o economista britânico John Maynard Keynes, autor de “The General Theory of Employment, Interest and Money”, que inspirou o governo Franklin Delano Roosevelt a lançar o New Deal, programa que tirou o país – e o mundo – da Grande Depressão, há nove décadas.

No fundo, todos estão fascinados – a prova definitiva da loucura coletiva – com a queda de braços entre democratas e republicanos. Quem vencer, vai entrar para a história como aquele que conduziu os Estados Unidos à bancarrota.