Dirigentes do FMI mostram que a política fiscal no Brasil é burra

Texto escrito por José de Souza Castro:

Vivemos num mundo de mudança econômica dramática, constatam Vitor Gaspar e Luc Eyraud num artigo publicado na última quinta-feira (20) pelo Fundo Monetário Internacional que pode ser lido AQUI em inglês. Traduzindo livremente, tento resumir o artigo, que me parece contraditar a política econômica do governo Temer. Os autores não citam o caso do Brasil. Eles devem ter motivos para isso, eu não – e vou colocando minha colher de pau, entre colchetes.

[Vitor Gaspar foi ministro das Finanças de Portugal e desde fevereiro de 2014 dirige o Departamento de Assuntos Orçamentários do FMI. Luc Eyraud é chefe adjunto do Departamento de Assuntos Fiscais da entidade. Sabem do que estão falando].

As condições atuais no mundo requerem novas e mais inovadoras soluções, às quais o FMI chama de “smart fiscal policies”, que são aquelas políticas fiscais inteligentes que facilitam mudanças, utilizam seu potencial de crescimento e protegem as pessoas que mais sofrem.

Ao mesmo tempo, reconhecem os autores, empréstimos excessivos e níveis recordes de dívida pública têm limitado os recursos financeiros disponíveis para o governo. Assim, a política fiscal precisa fazer mais com menos. Por sorte, muitos começam a compreender que o kit de ferramentais fiscais é maior e mais poderoso [do que a equipe econômica do governo Temer imagina].

Cinco princípios orientadores esboçam os contornos dessas políticas fiscais inteligentes que estão descritas no capítulo primeiro do “Fiscal Monitor” de abril de 2017 do FMI. São elas:   Continuar lendo

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Nada admirável mundo novo (ou: como até o FMI se preocupa com a desigualdade)

Como hoje é Dia dos Pais, nada melhor do que ter um dos ótimos artigos do meu pai para presentear os leitores do blog neste domingão 🙂 E feliz dia a todos os pais que me leem por aqui (especialmente ao meu poca, claro)! Espero que ganhem presentes, um almoço delicioso cercado pela família, e muitos abraços e beijos 😀


Antepassados

Texto escrito por José de Souza Castro:

Artigo do prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, devia ser lido com atenção pelos estrategistas das campanhas de Aécio Neves e Eduardo Campos. Para que os candidatos passem a dar mais atenção ao tema, se eles querem mesmo se eleger presidente da República de um país em que a riqueza está extremamente mal distribuída, em prejuízo da maioria dos eleitores.

A revelação de que “a desigualdade atrapalha” o crescimento econômico de um país serve também à presidente Dilma Rousseff, para reforçar suas crenças dos tempos de estudante de economia na Universidade Federal de Minas Gerais que a levaram a participar de uma luta que, na época, estava fadada ao insucesso e à prisão e à tortura. E que agora, se não foram esquecidas, têm enfrentado grandes dificuldades para, por iniciativa presidencial, se firmarem nesse nosso injusto sistema político.

Tanto que, em São Paulo, como vimos recentemente, aquele 1% da população com maior renda na capital se tornou ainda mais rica desde o começo do governo Lula.

Ao contrário do que se pensava nos meios frequentados por Aécio Neves – e agora também por Eduardo Campos –, tributar os ricos para ajudar os pobres pode elevar, e não reduzir, o ritmo de crescimento da economia. É o que afirma Krugman, respaldado em provas levantadas por ninguém menos que o Fundo Monetário Internacional (FMI). Uma desigualdade elevada prejudica o crescimento, constatou o FMI, e a redistribuição pode ser boa para a economia.

Conforme Krugman, no começo desta semana, a nova visão sobre desigualdade e crescimento “ganhou o apoio de um novo relatório da agência de classificação de crédito Standard & Poor’s, que sustenta a posição de que uma desigualdade muito forte prejudica o crescimento”.

É algo para se pensar, num mundo cada vez mais desigual. E que, se nada for feito, tende a piorar.

Até agora, quando se fala em desigualdade, o que vem à mente é um reduzido grupo de bilionários cercado por centenas de milhões de miseráveis em todo o mundo. E o cerco tende a aumentar.

Em outro artigo na “Folha de S. Paulo”, Ruy Castro comentou na última sexta-feira a chegada ao mercado do Fire Phone, da Amazon. O aplicativo Firefly permitirá ao usuário escanear um produto e comprá-lo on-line, sem interferência humana e sem ter nem sequer de digitar. Basta fotografar um produto com o Firefly. A foto em 3D é disparada automaticamente para o site da Amazon, capaz de reconhecer 100 milhões de produtos. Se aquele for reconhecido, a compra estará feita. O comprador recebe em casa e paga em seu cartão de crédito.

No futuro, o comprador nem precisará ir a uma loja para fotografar o que lhe interessa. “Mesmo porque, em pouco tempo, esses lugares, reduzidos a reles showrooms, deixarão de existir. Os showrooms do futuro serão só virtuais”, dizem as reportagens lidas por Ruy Castro. A Amazon tem como meta ser “uma loja de tudo”, de forma a dispensar a existência de todas as outras. Conclui o colunista:

“Não vi nos textos nenhuma preocupação com o fato de que o Firefly pode representar a morte do comércio de rua – e, agora, também o de shopping –, o fim do varejo, o desemprego, a falência das cidades e o fim de uma relação entre os seres humanos que começou quando, um dia, um deles trocou um machado de pedra por uma pele de mamute com seu vizinho – e, com isso, os dois inauguraram a civilização.”

Em 1932, no intermédio das duas grandes guerras mundiais, o escritor inglês Aldous Huxley publicou o livro “Admirável Mundo Novo”. Caminhamos agora para outro mundo novo e, se os atuais donos do mundo e os políticos em geral não criarem juízo, será um mundo cheio de ruído e fúria e sem significado algum.

Não teremos, a nos proteger, sequer uma pele de mamute. Mas não faltarão machados.

Leia também:

Retorno à razão na economia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ora, quem diria, o Brasil de Dilma Rousseff pode dar lições de economia aos europeus, que estão fazendo besteiras. É o que depreendo do “Manifesto para o retorno à razão na economia”, lançado por 100 economistas ligados a universidades famosas, que pode ser lido na íntegra em inglês AQUI. Tomei conhecimento do manifesto ao ler o artigo de Clóvis Rossi na “Folha de S. Paulo”, neste domingo. A prioridade principal agora é reduzir o desemprego, antes que ele se torne endêmico e fique ainda mais difícil a recuperação e a redução do déficit público no futuro.

Os autores do manifesto, nenhum deles brasileiro (a listagem pode ser vista no mesmo link, em “Signed By”) já registraram, até a publicação deste post, o apoio de 9.103 pessoas. A ausência de brasileiros entre os 100 autores, diz Clovis Rossi, é “uma demonstração que, em matéria de inteligência, somos marginais”. Em termos globais, talvez sim, mas a equipe econômica do governo está-se saindo bem, até agora, apesar da oposição sistemática dos economistas convidados pela Globo News, por exemplo. Eles estão sempre a dizer que o governo precisa, ao invés de incentivar o consumo, cortar seus gastos etc, etc. Talvez a emissora necessite renovar sua lista de convidados…

A experiência passada, dizem aqueles cem gringos, não inclui nenhum caso relevante em que o corte orçamentário tenha, de fato, gerado aumento da atividade econômica. O Fundo Monetário Internacional estudou 173 casos de cortes em diferentes países e descobriu que o resultado, consistentemente, foi retração econômica. Nos poucos casos em que o aperto fiscal resultou em crescimento, a principal estratégia foi a depreciação monetária num cenário de forte mercado mundial, o que não é o caso agora.

Para os autores do manifesto, a lição do estudo do FMI é clara: cortes orçamentários retardam a recuperação. E é isso que está ocorrendo agora. Os países com os maiores cortes são os que experimentam as mais expressivas quedas na produção. Na verdade, cortes no orçamento não inspiram a confiança no mercado. As empresas só vão investir quando podem antever que haverá muitos fregueses com rendas suficientes para ir às compras. Austeridade desencoraja investimento.

Outro argumento contra a expansão da demanda – que os autores do manifesto consideram errado – é que a produção é de fato reprimida pelo lado da oferta, por desequilíbrios estruturais. No entanto, se essa teoria estivesse correta, pelo menos parte de nossas economias (eles estão se referindo, embora não fique claro, aos países europeus) estaria em franca expansão, bem como algumas ocupações. Mas em muitos países, não é o que ocorre. Cada setor importante das nossas economias está lutando, e cada ocupação apresenta maior desemprego que o normal. Então, o problema deve ser uma falta geral de consumo e demanda. O mesmo erro foi registrado nos anos 30 do século passado. E como resultado de seus equívocos, muitos políticos ocidentais estão infligindo maciço sofrimento às suas populações.

Concluo recorrendo mais uma vez a Clóvis Rossi (o texto completo pode ser lido AQUI pelos leitores da Folha): “Enfim, uma coleção de vozes respeitáveis se faz ouvir contra o pensamento único ortodoxo e conservador que tortura as políticas econômicas do mundo rico, além de ser francamente hegemônico nas academias e na mídia, em ambos os casos também nos países em desenvolvimento, emergentes ou como você prefira chamá-los.”

Ave, Nafissatou!

texto de José de Souza Castro:

A rede americana NBC informou hoje que o DNA de Dominique Strauss-Kahn foi encontrado na roupa da camareira Nafissatou Diallo que o acusa de estupro numa suíte do hotel Sofitel, em Nova York. Pode ser mais uma prova do que afirma esta muçulmana negra de 32 anos que saiu de seu país, a Guiné, em 1998, e se tornou, há alguns dias, mundialmente famosa por desbancar o gerente geral do FMI, um organismo criado após a II Guerra Mundial e que, como tem feito ao longo de sua história, garante o dinheiro dos banqueiros norte-americanos e europeus, quando investido em países pobres.

“Por que eu?”, deve estar-se indagando o francês Strauss-Kahn. Durante dezenas de anos, o FMI estuprou, por assim dizer, nações inteiras, e nunca pagou por isso. Durante séculos, europeus estupraram de fato africanas em seus países de origem – ou em outros países para onde foram vendidas como escravas – sem que ninguém fosse condenado por isso.

Por se ter rebelado contra mais um estupro de uma negra pobre, a camareira Nafissatou merece o nosso respeito, embora pouco ainda se saiba dela. Seria filha de um comerciante da tribo Peule, que constitui 40%, ou cerca de 4 milhões de pessoas, da população da Guiné. Casada com um comerciante, ela imigrou com ele e a filha de dois anos para os Estados Unidos, e trabalhou duro. Algum tempo depois, conseguiu o Green card. Há três anos, trabalha no Sofitel. Não se sabe quando, ela se divorciou do marido ou se tornou viúva. Os dados ainda são incertos. Não ficou claro para mim nem de qual Guiné se está falando. Se for a Guiné Equatorial, ela teve bons motivos para deixar o país, dominado há anos por uma sangrenta ditadura, como se pode ver AQUI. Se for as outras duas Guinés, também não faltariam motivos para buscar nos Estados Unidos, sede do FMI, uma vida melhor.

Outro parente da camareira, Mamadou Diallo Chérif, um guineense de 35 anos de idade que também trabalha em Nova York, disse em entrevista à imprensa que Nafissatou é uma boa muçulmana. “Em nossa cultura, nós não aceitamos este tipo de comportamento”, afirmou Mamadou.

Dominique Strauss-Kahn atacou a pessoa errada, no país errado. E foi preso e algemado. Enquanto espera o julgamento, ele deve estar-se remoendo: fosse no Brasil…