A burrice no poder está acabando com o Brasil

Todas as charges que ilustram este post são do Duke, o melhor chargista do Brasil.

Texto escrito por José de Souza Castro:

A burrice no poder tende não só a se perpetuar, como a nela se afundar. O acúmulo de bobagens ou de tragédias, a partir de um certo ponto, exigiria tamanha confissão de incompetência, que os donos de poder continuam até a ruptura total. Reconhecer a burrice torna-se demasiado penoso.

É com essa constatação que o economista Ladislau Dowbor, professor titular de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, inicia um artigo publicado no site Outras Palavras, que li com grande interesse e que recomendo aos leitores deste blog.

Considerando, porém, que alguns não terão tempo para ler suas 13 páginas (6.571 palavras), me animo a resumi-lo, em parte:

FORÇA DA INÉRCIA

A burrice política obedece a uma impressionante força de inércia. Isso levou, por exemplo, cinco presidentes norte-americanos sucessivos a se afundarem na guerra do Vietnã, apesar da convicção íntima, hoje conhecida, de que era uma causa perdida.

Qualquer semelhança com o golpismo no Brasil insistir numa política que empurra o país para trás, mesmo depois de quatro anos de desastre, não é evidentemente uma coincidência, é a regra. No túnel da burrice, os que a perpetram sempre imaginam que logo adiante surgirá a proverbial luzinha. Se a política sacrifica em vez de ajudar, dirão que o sacrifício não foi suficiente, é só aprofundar um pouco mais. Com gigantesco esforço de mídia, de fake-news e de dinheiro, elegeu-se um presidente cujo rumo é simplesmente acelerar a Marcha. Com Deus e a Família rumo ao absurdo.

NÃO HÁ FALTA DE RECURSOS

A austeridade nunca funcionou, porque o capitalismo, para se expandir, precisa de produtores, mas também de consumidores. No centro do raciocínio, está a ilusão de que não temos recursos suficientes para incluir os pobres. As políticas sociais e um salário mínimo decente não caberiam na economia, no orçamento, ou na Constituição, segundo os políticos.

Nosso problema não é falta de recursos, e sim a burrice na sua distribuição.  O Brasil produz 6,3 trilhões de reais de bens e serviços; divididos por 208 milhões de habitantes nos dá um per capita de 30 mil reais ao ano.

Na fase do lulismo, a economia cresceu, sendo que a renda dos mais pobres e das regiões mais pobres cresceu mais do que a renda dos mais ricos: todos ganharam, os pobres de maneira mais acelerada, reduzindo a desigualdade. A ascensão dos pobres gerou nos ricos a reação esperada: a mesma que tiveram com Getúlio e com Jango, agora repetida com Dilma e com Lula. Reconhecer que funciona o que sempre denunciaram seria penoso demais. A burrice é muito teimosa.

O Banco Mundial qualificou os anos 2003 a 2013 de The Golden Decade¸ a década dourada da economia brasileira. É preciso ser muito ideologicamente cego para ignorar o imenso avanço que representaram a queda do desemprego de 12% em 2002 para 4,8% em 2013, a abertura de 18 milhões de empregos formais, a retirada de 38 milhões de pessoas da pobreza, a redução do desmatamento da Amazônia de 28 para 4 mil quilômetros quadrados, o acesso à luz elétrica para 15 milhões de pessoas e assim por diante.

A NARRATIVA DA ENGANAÇÃO

A opacidade mental dificulta naturalmente a aceitação dos números por quem quer se convencer do contrário. Então se gera uma forma sofisticada de bobagem chamada hoje de “narrativa”: fazer política para o povo é populismo, o populismo quebrou as contas do Estado e o caminho certo é o da boa dona de casa que só gasta o que tem. Portanto, a dona de casa Dilma tem de ir para casa.

Mas os números são simples: o que gerou o déficit não foram as políticas econômicas e sociais do governo, e sim os juros escorchantes sobre a dívida pública e a dívida privada, a chamada financeirização. Já pararam para pensar o que significa o Brasil ter, em 2018, 64 milhões de adultos endividados até o ponto de não poderem mais pagar suas dívidas?

CORTE DE POLÍTICAS SOCIAIS

Quando a Dilma tenta, entre 2012 e 2013, reduzir as taxas de juros, começa a guerra política, com manifestações, boicote e denúncias. A partir de meados de 2013 não há mais governo. Dilma ainda ganha a eleição, mas, como foi anunciado pelos adversários, não governaria. A burrice atinge o seu ápice quando se cortam as políticas sociais com a lei do teto de gastos, mas se mantêm as taxas de juros. Os bancos agradeceram, a classe rentista também. Jogaram a economia na recessão.

Em termos políticos, tiraram Dilma sem crime, prenderam Lula sem comprovação de culpa, elegeram um presidente absurdo por meio da prisão de quem ia ganhar a eleição, e quem prendeu Lula ganhou o posto de ministro.

Sim, de 2014 para cá, são muitos anos em que estão “consertando” a economia, que continua parada. O presidente eleito vai reduzir ainda mais os rendimentos da massa da população. Só para lembrar, no Bolsa Família são 30 bilhões de reais ao ano, que geram demanda e dinamizam a economia. Só os juros sobre a dívida pública, na faixa de 320 bilhões de reais, representam dez vezes mais, alimentando rentistas. E como as finanças deformadas quebraram a economia, o déficit aumentou. É um círculo vicioso.

No entanto, persiste a narrativa simplória: Dilma quebrou a economia. Para a maioria das pessoas, em particular quando não entendem os processos, política se resume a eleger o culpado. O sistema financeiro travou a economia, mas vendeu ao povo uma culpada, aliás, mulher e teimosa, vítima ideal.

CAPITALISMO DÁ TIRO NO PRÓPRIO PÉ

O lucro sobre investimento é legítimo: gera empregos, produtos, e paga impostos. Os banqueiros chamam os diversos papéis que rendem dividendos de “produtos”, o que constitui um disfarce simpático. Dinheiro ganho com aplicações financeiras não coloca um par de sapatos no mercado de bens realmente existentes. Diferenciar investimento produtivo e aplicação financeira é básico.

Papéis financeiros renderam nas últimas décadas entre 7% e 9% ao ano. Só para lembrar, a produção efetiva de bens e serviços aumenta no mundo num ritmo incomparavelmente menor, da ordem de 2% a 2,5%. Os afortunados, logicamente, irão optar pelas aplicações financeiras. A cada dia a maior parte deste dinheiro é reaplicada, gerando um enriquecimento improdutivo que gradualmente multiplica bilionários e trava a economia. É o capitalismo dando o tiro no próprio pé, ao perder a sua principal justificativa, a produtividade. De crise em crise, no cassino financeiro mundial, vimos o 1% dos mais ricos do planeta se apropriar de mais riqueza do que os 99% seguintes. É sistemicamente disfuncional.

A economia de mercado supunha trocas entre produtores e consumidores, com geração de emprego e renda. Hoje os “mercados”, grupo limitado de especuladores, apresentam um surto de otimismo a cada redução dos direitos da população. É a lógica da insensatez.

Um exemplo prático ajuda: há alguns anos a Coréia do Sul desbloqueou recursos públicos pesados para financiar sistemas de transporte público não poluente. O investimento gerou evidentemente um conjunto de atividades de pesquisa e de produção, e portanto emprego. Como utilizar transporte coletivo é muito mais barato do que cada pessoa pegar o seu carro, foram geradas economias que mais que compensam o investimento. Como investiram em transporte menos poluente, melhoraram as emissões tanto pela tecnologia desenvolvida como pela redução do uso de automóveis. Menos poluição nas cidades significa menos doenças de diversos tipos, e economias na área da saúde. A redução do tempo perdido nos engarrafamentos permite menor desgaste da população, mais tempo com lazer, melhor produtividade no trabalho. O exemplo tende a ilustrar apenas o óbvio: os recursos têm de ser investidos em projetos e programas que geram efeitos multiplicadores em termos de dinamização econômica, de proteção do meio ambiente e de melhoria do bem-estar das famílias. Tanta inteligência que se gasta para encontrar a aplicação financeira que mais rende, poderia ser utilizada para elaborar os projetos mais úteis. E enriquecer a sociedade.

No Brasil, a economia não funciona, porque não se coloca o dinheiro onde vai ter efeitos multiplicadores.

BANCOS EXTORQUEM AS FAMÍLIAS

No Brasil, as famílias e as empresas pagam anualmente, só em juros, sem reduzir a dívida, 1 trilhão de reais. Ou 16% do PIB. Em fevereiro de 2018, por exemplo, os juros bancários para pessoa física estavam na faixa de 137% ao ano, quando na França são inferiores a 5%. Assim o sistema financeiro drenou a capacidade de compra das famílias e a capacidade de investimento das empresas.

O dinheiro dos nossos depósitos e o fluxo de juros que os bancos extorquem das famílias e das empresas são em grande parte aplicados em títulos da dívida pública. O governo pagou aos bancos e aos ricos que têm aplicações deste tipo 341 bilhões de reais em 2017, cerca de 6% do PIB. Nossos impostos, em vez de financiarem políticas sociais e infraestruturas, vão parar nos bolsos dos especuladores financeiros, de gente que não produz nada.

Isso é agravado pelo sistema tributário. Enquanto na Europa se corrige em boa parte a deformação taxando o capital financeiro, as grandes fortunas, as heranças, e as rendas mais elevadas, no Brasil os ricos pagam proporcionalmente menos que os pobres, e desde 1995 os lucros e dividendos distribuídos são isentos de impostos. Além disso, cerca de um terço do nosso PIB se encontra em paraísos fiscais. Parte dos imensos drenos que sangram a nossa economia, que vaza por todo lado.

A nossa Constituição é clara: “O sistema financeiro nacional [será] estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade.” Hoje, serve essencialmente para alimentar improdutivos, sejam eles banqueiros, grupos nacionais ou internacionais, e em particular a classe média alta que com tanto entusiasmo ocupa a avenida Paulista. A realidade é que os bancos criaram um sistema em que os nossos impostos são desviados em grande parte para os seus cofres e para os rentistas que participam da festa, essencialmente os mais afortunados. Os banqueiros manejam o Estado, drenam os seus recursos, e explicam que a culpa é do Estado, dos impostos elevados, e dos “gastos” com os mais pobres.

Seria incomparavelmente mais produtivo para todos, inclusive para os bancos, fomentarem a economia em vez de drená-la. A China tem esse ritmo de desenvolvimento porque canaliza os recursos financeiros “de forma a promover o desenvolvimento”.

MANUTENÇÃO DA DESIGUALDADE É BURRA

Manter a desigualdade é particularmente absurdo, mas está no centro das propostas do poder. Afinal, os ricos que nos regem defendem os seus próprios interesses, e é raríssimo ter alguém no poder que não seja rico, branco, homem, e centrado em aumentar as suas próprias vantagens.

O sistema se torna disfuncional, inclusive para os donos do poder. Jogaram a economia na recessão, no desemprego, e no caos político. Esse sistema nem para os ricos funciona.

Todos esses ricaços irresponsáveis que esbanjam os seus recursos com consumo espalhafatoso ou especulação financeira, em vez de ajudar na implementação de políticas que funcionam para o conjunto da sociedade, todas essas corporações que geram tragédias sociais e ambientais, navegam em valores de primatas, na ética de que o sucesso consiste em arrancar o pedaço maior, que se dane o sofrimento, que se dane o planeta. Aqui temos inteligência impressionante para gerar novos meios, mas uma burrice impressionante em termos de definir os fins. Vamos construir mais muros, abrir mais condomínios, mais casulos de riqueza, sistemas de repressão mais violentos?

Essa desigualdade é evidentemente disfuncional também em termos sociais e políticos. E a desigualdade constitui em particular uma burrice no plano econômico. Porque funcionaram o New Deal de Roosevelt, o Welfare State dos países hoje desenvolvidos, o milagre da Coréia do Sul, o impressionante ritmo de desenvolvimento da China, a “década dourada” do Brasil? Todos tiveram em comum a expansão da capacidade de compra da base da população, e o acesso a políticas sociais públicas e universais, que permitiram ampliar a escala de produção e o emprego.

O consumo das famílias e a produção empresarial geram por sua vez impostos que aumentam as receitas do Estado, permitindo o financiamento das políticas sociais: uma população com mais saúde e educação é mais produtiva. Aqui não são necessários ideologias e ódios, e sim um simples olhar para o que funciona. E o que funciona é quando a economia é orientada segundo as prioridades e o bem-estar das famílias. A desigualdade, em termos econômicos, apenas mantém uma atividade de base estreita e de baixa produtividade.

O leitor interessado pode acessar o texto completo AQUI.

Leia também:

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Os 12 bilionários que poderiam ter salvado o Brasil sete vezes

Em tempos de julgamento — com cartas marcadas — de Lula, algumas outras notícias importantes acabam passando batido por nós. Afinal, é nesta quarta-feira que começará a ser desenhado o resultado das eleições presidenciais deste ano, as primeiras depois que uma presidente eleita foi derrubada sem justificativa legal para tanto. As primeiras depois do golpe parlamentar que varreu Dilma do poder.

Como eu disse, acho que este julgamento está com as cartas marcadas, então me sinto desanimada para escrever a respeito. Amanhã, quem sabe, comento o resultado óbvio.

Mas retomando minha linha de raciocínio da primeira frase deste post, algumas notícias importantes, que não deveriam passar batido, acabaram não recebendo o destaque e repercussão necessários. É o caso desta: “Aumento de bilionários em 2017 poderia acabar com a extrema pobreza por 7 vezes“.

São tantos números absurdos, a desigualdade de renda está tão desigual, especialmente no Brasil, que a gente fica meio sem palavras. Recomendo a leitura na íntegra desta matéria da Agência Brasil e também da versão da Folha, mas abaixo destaco meus trechos surrealistas favoritos:

  • De toda a riqueza gerada no mundo em 2017, 82% ficaram concentrados nas mãos dos que estão na faixa de 1% mais rica, enquanto a metade mais pobre – o equivalente a 3,7 bilhões de pessoas – não ficou com nada.
  • Houve um aumento histórico no número de bilionários no ano passado: um a mais a cada dois dias. Esse aumento seria suficiente para acabar sete vezes com a pobreza extrema no planeta.
  • Atualmente há 2.043 bilionários no mundo. A concentração de riqueza também reflete a disparidade de gênero, pois a cada dez bilionários nove são homens.
  • O Brasil ganhou 12 bilionários a mais no período, passando de 31 para 43.
  • O patrimônio dos bilionários brasileiros alcançou R$ 549 bilhões no ano passado, um crescimento de 13% em relação a 2016. Por outro lado, os 50% mais pobres tiveram a sua fatia na renda nacional reduzida de 2,7% para 2%.
  • Um brasileiro que ganha um salário mínimo precisaria trabalhar 19 anos para ganhar o mesmo que recebe em um mês uma pessoa enquadrada entre o 0,1% mais rico.
  • No Brasil, as alíquotas de imposto sobre herança chegam no máximo a 8%, quando no Reino Unido, por exemplo, podem atingir 40%.
  • Os 10% mais pobres do país gastam 32% de sua renda em tributos, a maior parte deles indiretos (sobre bens e serviços), e os 10% mais ricos gastam 21%.
  • Cinco bilionários brasileiros concentram o equivalente à metade da população do país.
  • De novo: “O país ganhou 12 novos bilionários em 2017. Hoje, eles somam 43 ultrarricos. Cinco deles têm riqueza igual à da metade da população brasileira. O país foi apontado por diversos estudos como um dos mais desiguais do mundo.”

Ah sim, quer saber quem são esses bilionários brasileiros? Aí está a lista da Forbes de 2017: Continuar lendo

Dirigentes do FMI mostram que a política fiscal no Brasil é burra

Texto escrito por José de Souza Castro:

Vivemos num mundo de mudança econômica dramática, constatam Vitor Gaspar e Luc Eyraud num artigo publicado na última quinta-feira (20) pelo Fundo Monetário Internacional que pode ser lido AQUI em inglês. Traduzindo livremente, tento resumir o artigo, que me parece contraditar a política econômica do governo Temer. Os autores não citam o caso do Brasil. Eles devem ter motivos para isso, eu não – e vou colocando minha colher de pau, entre colchetes.

[Vitor Gaspar foi ministro das Finanças de Portugal e desde fevereiro de 2014 dirige o Departamento de Assuntos Orçamentários do FMI. Luc Eyraud é chefe adjunto do Departamento de Assuntos Fiscais da entidade. Sabem do que estão falando].

As condições atuais no mundo requerem novas e mais inovadoras soluções, às quais o FMI chama de “smart fiscal policies”, que são aquelas políticas fiscais inteligentes que facilitam mudanças, utilizam seu potencial de crescimento e protegem as pessoas que mais sofrem.

Ao mesmo tempo, reconhecem os autores, empréstimos excessivos e níveis recordes de dívida pública têm limitado os recursos financeiros disponíveis para o governo. Assim, a política fiscal precisa fazer mais com menos. Por sorte, muitos começam a compreender que o kit de ferramentais fiscais é maior e mais poderoso [do que a equipe econômica do governo Temer imagina].

Cinco princípios orientadores esboçam os contornos dessas políticas fiscais inteligentes que estão descritas no capítulo primeiro do “Fiscal Monitor” de abril de 2017 do FMI. São elas:   Continuar lendo

Nada admirável mundo novo (ou: como até o FMI se preocupa com a desigualdade)

Como hoje é Dia dos Pais, nada melhor do que ter um dos ótimos artigos do meu pai para presentear os leitores do blog neste domingão 🙂 E feliz dia a todos os pais que me leem por aqui (especialmente ao meu poca, claro)! Espero que ganhem presentes, um almoço delicioso cercado pela família, e muitos abraços e beijos 😀


Antepassados

Texto escrito por José de Souza Castro:

Artigo do prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, devia ser lido com atenção pelos estrategistas das campanhas de Aécio Neves e Eduardo Campos. Para que os candidatos passem a dar mais atenção ao tema, se eles querem mesmo se eleger presidente da República de um país em que a riqueza está extremamente mal distribuída, em prejuízo da maioria dos eleitores.

A revelação de que “a desigualdade atrapalha” o crescimento econômico de um país serve também à presidente Dilma Rousseff, para reforçar suas crenças dos tempos de estudante de economia na Universidade Federal de Minas Gerais que a levaram a participar de uma luta que, na época, estava fadada ao insucesso e à prisão e à tortura. E que agora, se não foram esquecidas, têm enfrentado grandes dificuldades para, por iniciativa presidencial, se firmarem nesse nosso injusto sistema político.

Tanto que, em São Paulo, como vimos recentemente, aquele 1% da população com maior renda na capital se tornou ainda mais rica desde o começo do governo Lula.

Ao contrário do que se pensava nos meios frequentados por Aécio Neves – e agora também por Eduardo Campos –, tributar os ricos para ajudar os pobres pode elevar, e não reduzir, o ritmo de crescimento da economia. É o que afirma Krugman, respaldado em provas levantadas por ninguém menos que o Fundo Monetário Internacional (FMI). Uma desigualdade elevada prejudica o crescimento, constatou o FMI, e a redistribuição pode ser boa para a economia.

Conforme Krugman, no começo desta semana, a nova visão sobre desigualdade e crescimento “ganhou o apoio de um novo relatório da agência de classificação de crédito Standard & Poor’s, que sustenta a posição de que uma desigualdade muito forte prejudica o crescimento”.

É algo para se pensar, num mundo cada vez mais desigual. E que, se nada for feito, tende a piorar.

Até agora, quando se fala em desigualdade, o que vem à mente é um reduzido grupo de bilionários cercado por centenas de milhões de miseráveis em todo o mundo. E o cerco tende a aumentar.

Em outro artigo na “Folha de S. Paulo”, Ruy Castro comentou na última sexta-feira a chegada ao mercado do Fire Phone, da Amazon. O aplicativo Firefly permitirá ao usuário escanear um produto e comprá-lo on-line, sem interferência humana e sem ter nem sequer de digitar. Basta fotografar um produto com o Firefly. A foto em 3D é disparada automaticamente para o site da Amazon, capaz de reconhecer 100 milhões de produtos. Se aquele for reconhecido, a compra estará feita. O comprador recebe em casa e paga em seu cartão de crédito.

No futuro, o comprador nem precisará ir a uma loja para fotografar o que lhe interessa. “Mesmo porque, em pouco tempo, esses lugares, reduzidos a reles showrooms, deixarão de existir. Os showrooms do futuro serão só virtuais”, dizem as reportagens lidas por Ruy Castro. A Amazon tem como meta ser “uma loja de tudo”, de forma a dispensar a existência de todas as outras. Conclui o colunista:

“Não vi nos textos nenhuma preocupação com o fato de que o Firefly pode representar a morte do comércio de rua – e, agora, também o de shopping –, o fim do varejo, o desemprego, a falência das cidades e o fim de uma relação entre os seres humanos que começou quando, um dia, um deles trocou um machado de pedra por uma pele de mamute com seu vizinho – e, com isso, os dois inauguraram a civilização.”

Em 1932, no intermédio das duas grandes guerras mundiais, o escritor inglês Aldous Huxley publicou o livro “Admirável Mundo Novo”. Caminhamos agora para outro mundo novo e, se os atuais donos do mundo e os políticos em geral não criarem juízo, será um mundo cheio de ruído e fúria e sem significado algum.

Não teremos, a nos proteger, sequer uma pele de mamute. Mas não faltarão machados.

Leia também:

Briga de cachorro grande

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Texto escrito por José de Souza Castro:

As pessoas ricas estão cada vez mais ricas em São Paulo, revelou a prefeitura paulistana, com base nos Censos de 2000 e 2010 do IBGE. O grupo formado por 1% dos mais ricos fica com 20% da renda total dos salários, aluguéis e investimentos na cidade, conforme o último Censo. Dez anos antes, quando o país era presidido por Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, o percentual era de 13%.

É o avanço da concentração de renda representada pela população da cidade maior e mais endinheirada do país, ao longo dos primeiros oito anos do governo petista. Os oito anos do governo Lula.

Não sei se a reportagem assinada por Vanessa Correa e publicada no último domingo pela “Folha de S.Paulo” teve repercussão. É possível que boa parte daquele 1% dos mais ricos não tenha tomado conhecimento da notícia. Não é uma turma chegada a ler jornais.

Sendo assim, não deve ter amofinado os candidatos Aécio Neves e Eduardo Campos, mais do que eles já se preocupam com as dificuldades para financiar suas custosas campanhas eleitorais, mesmo sendo os principais opositores do governo de Dilma Rousseff e, presumivelmente, apoiados pelos donos do dinheiro, refratários a qualquer proposta de repartir mais igualitariamente a riqueza, como pregava antigamente o Partido dos Trabalhadores.

Os que tomaram conhecimento da notícia, porém, ficarão ainda mais relutantes. Por que dar dinheiro à oposição, se com a situação estão se dando muito bem? Não se mexe em time que está ganhando, não é mesmo?

Para mim, o surpreendente na notícia não é o aumento da concentração de renda, algo já sabido, mas a informação de que quem tem uma renda individual de R$ 15 mil por mês se inclui naquele grupo de pouco mais de 100 mil pessoas. Ou seja, no grupo de 1% mais rico, numa população que soma 11,8 milhões de moradores da capital paulista.

Fiquei curioso sobre a concentração que deve existir dentro desse grupo restrito de privilegiados. Será que 1% deles detém metade da renda do grupo? Como saber? É um pessoal que se esconde até quando são obrigados, pela lei, a declarar seus bens à Justiça Eleitoral.

É mais fácil, para os pesquisadores, conhecer a renda dos 50% da população de menor renda. Mas não é o caso de humilhá-los ainda mais, aqui, revelando quanto ganham. Basta dizer que a participação deles na renda paulistana cresceu muito menos, na primeira década deste século, do que a dos mais ricos.

Há até uma explicação para isso, dada pelo diretor do Departamento de Informação da Secretaria de Desenvolvimento Urbano, Tomás Wissenbach, responsável pela pesquisa. Desde a década de 1970, segundo ele, a cidade de São Paulo vem perdendo suas indústrias e também os empregos que pagavam bons salários a pessoas com escolaridade média. Hoje a economia paulistana está concentrada nos setores de serviços, que produzem, de um lado, superempregos para executivos e consultores e, de outro, ocupações de baixa remuneração em funções terceirizadas como limpeza e telemarketing.

Assim sendo, não surpreende que o candidato do PT tenha vencido nas últimas eleições a disputa pela prefeitura de São Paulo, pois os baixa-renda tendem a votar nesse partido. Haverá surpresa nas eleições de outubro próximo? O tempo dirá.

Enquanto isso, vamos ficar com mais uma notícia de domingo, no mesmo jornal paulista. Agora, uma reportagem de Dimmi Amora:

“O jatinho Embraer Phenom 300 vale R$ 18 milhões, mas estacioná-lo nos aeroportos brasileiros custa apenas R$ 1. Mais precisamente, apenas 92 centavos por hora. O preço para parar máquinas milionárias dentro dos aeroportos do país equivale a um décimo do custo de deixar um carro nos estacionamentos dessas unidades. Em Congonhas (SP), onde parar um Phenom sai a R$ 1,21 a hora, estacionar um carro pelo mesmo período custa R$ 14. Mesmo para um dia inteiro de uso, os preços são distorcidos. Uma diária de estacionamento de veículo custa R$ 70, enquanto para um avião não passa de R$ 26”, começa Amora o seu relato.

Mas isso deve mudar. Os aeroportos brasileiros eram administrados por uma estatal, a Infraero. Agora restam a ela apenas 63 aeroportos. Pelo menos 20 já são administrados pela iniciativa privada (nesse número, o jornal não inclui o famoso aeroporto de Cláudio…). O Sindicato Nacional das Empresas de Administração Aeroportuária conta com 13 empresas associadas e já solicitou à Agência Nacional de Aviação Civil a revisão das tarifas. Vai conseguir. Agora, é briga de cachorro grande…

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