Retorno à razão na economia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ora, quem diria, o Brasil de Dilma Rousseff pode dar lições de economia aos europeus, que estão fazendo besteiras. É o que depreendo do “Manifesto para o retorno à razão na economia”, lançado por 100 economistas ligados a universidades famosas, que pode ser lido na íntegra em inglês AQUI. Tomei conhecimento do manifesto ao ler o artigo de Clóvis Rossi na “Folha de S. Paulo”, neste domingo. A prioridade principal agora é reduzir o desemprego, antes que ele se torne endêmico e fique ainda mais difícil a recuperação e a redução do déficit público no futuro.

Os autores do manifesto, nenhum deles brasileiro (a listagem pode ser vista no mesmo link, em “Signed By”) já registraram, até a publicação deste post, o apoio de 9.103 pessoas. A ausência de brasileiros entre os 100 autores, diz Clovis Rossi, é “uma demonstração que, em matéria de inteligência, somos marginais”. Em termos globais, talvez sim, mas a equipe econômica do governo está-se saindo bem, até agora, apesar da oposição sistemática dos economistas convidados pela Globo News, por exemplo. Eles estão sempre a dizer que o governo precisa, ao invés de incentivar o consumo, cortar seus gastos etc, etc. Talvez a emissora necessite renovar sua lista de convidados…

A experiência passada, dizem aqueles cem gringos, não inclui nenhum caso relevante em que o corte orçamentário tenha, de fato, gerado aumento da atividade econômica. O Fundo Monetário Internacional estudou 173 casos de cortes em diferentes países e descobriu que o resultado, consistentemente, foi retração econômica. Nos poucos casos em que o aperto fiscal resultou em crescimento, a principal estratégia foi a depreciação monetária num cenário de forte mercado mundial, o que não é o caso agora.

Para os autores do manifesto, a lição do estudo do FMI é clara: cortes orçamentários retardam a recuperação. E é isso que está ocorrendo agora. Os países com os maiores cortes são os que experimentam as mais expressivas quedas na produção. Na verdade, cortes no orçamento não inspiram a confiança no mercado. As empresas só vão investir quando podem antever que haverá muitos fregueses com rendas suficientes para ir às compras. Austeridade desencoraja investimento.

Outro argumento contra a expansão da demanda – que os autores do manifesto consideram errado – é que a produção é de fato reprimida pelo lado da oferta, por desequilíbrios estruturais. No entanto, se essa teoria estivesse correta, pelo menos parte de nossas economias (eles estão se referindo, embora não fique claro, aos países europeus) estaria em franca expansão, bem como algumas ocupações. Mas em muitos países, não é o que ocorre. Cada setor importante das nossas economias está lutando, e cada ocupação apresenta maior desemprego que o normal. Então, o problema deve ser uma falta geral de consumo e demanda. O mesmo erro foi registrado nos anos 30 do século passado. E como resultado de seus equívocos, muitos políticos ocidentais estão infligindo maciço sofrimento às suas populações.

Concluo recorrendo mais uma vez a Clóvis Rossi (o texto completo pode ser lido AQUI pelos leitores da Folha): “Enfim, uma coleção de vozes respeitáveis se faz ouvir contra o pensamento único ortodoxo e conservador que tortura as políticas econômicas do mundo rico, além de ser francamente hegemônico nas academias e na mídia, em ambos os casos também nos países em desenvolvimento, emergentes ou como você prefira chamá-los.”

Anúncios