Um beijaço diferente

Em Brasília houve beijaço.

Nas redes sociais, houve beijaço.

Homens beijaram homens, mulheres beijaram mulheres, homens e mulheres se beijaram.

O objetivo das manifestações de carinho era protestar contra o pastor Feliciano, que, afinal, já está-se apagando aos poucos.

Ontem, ao ler a “Ilustrada”, da “Folha”, vi o melhor de todos os beijaços. Os melhores quadrinistas do país, Laerte entre eles (que, como se sabe, é transgênero), aderiram ao protesto político:

Tirinhas publicadas na Folha de 25.4.2013.

Tirinhas publicadas na Folha de 25.4.2013.

Também foi na “Folha” que li o melhor comentário sobre a discussão entre Pastor Feliciano e homossexuais, publicada no “Painel do Leitor”, que partiu de uma evangélica:

“Sou evangélica e Feliciano não me representa!
Ele não tem postura alguma para presidir uma Comissão de Direitos Humanos. Não porque não concorda com o casamento gay ou por outras crenças que ele possui. Afinal, nós, evangélicos, também não concordamos.
Mas o Estado é laico. E sou grata a Deus por ser assim. Quantas atrocidades não acontecem num governo que está envencilhado à religião. Assim como eu tenho uma crença e quero ser respeitada, o meu próximo também quer.
Concordo totalmente com Frei Betto (“Infelicianeidade”, Tendências / Debates, 12/4), Cristo jamais condenou ou expôs qualquer pessoa. Se os africanos possuem uma maldição, o que somos por compactuar com a escravidão no Brasil? Benditos?
Daniela Gattermaier Azevedo (Guarulhos, SP)”

Aplaudo os protestos inteligentes, como este feito pelos cartunistas e pela Daniela Azevedo. E mantenho aqui meu protesto contra os que partiram para a agressão, se igualando ao pastor.

O mundo está mudando para melhor — que as formas de protestar contra os problemas acompanhem esse progresso.

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O bárbaro e a malhação de Judas

Uma coisa que me faz considerar o Angeli o maior chargista do Brasil (juntamente com o Laerte, que não tem feito charges políticas há anos, mas que também é um gênio da área) é sua ironia e sua capacidade de detectar a distorção das coisas e ousadia para colocar uma lupa nelas, mesmo que isso signifique ir contra o discurso da maioria “mais esclarecida” etc.

É o que se vê na charge dele de hoje:

pastorfeliciano

Sim, são absurdas as declarações do pastor Feliciano sobre gays e sobre negros. É triste vê-lo presidindo uma Comissão de Direitos Humanos. Mas ele chegou lá levado por eleitores, em primeiro lugar, e pelo processo legislativo, em segundo. Vale fazer petições, abaixo-assinados e declarações contra a permanência dele no cargo. Mas fazer um boneco de Judas com a cara dele para ser “malhado” é voltar aos tempos bárbaros e é igualar-se ou até mesmo superá-lo (como destaca a charge de Angeli) em intolerância.

O que os manifestantes agressivos têm conseguido é dar holofotes ao político (que está A-M-A-N-D-O a fama repentina, como se vê por sua cara em todas as fotos) e criar “antipatizantes”, nos moldes do que eu já tratei aqui, para suas bandeiras (que, ademais, deveriam ser as bandeiras de todos, mas ainda carece de tempo para que isso ocorra de fato).

Em resumo, a intolerância dos que lutam contra a intolerância do pastor, inclusive resvalando, em alguns discursos, no preconceito religioso, é o famoso tiro pela culatra. Propicia que seja pintado esse quadro da charge.

No dia em que relembramos o início do golpe militar, a efeméride dos 49 anos, deveríamos refletir sobre nossa capacidade de lutar contra os absurdos preconceitos ainda vigentes sem, para isso, ter de ferir os direitos constitucionais da livre expressão, livre pensamento, livre crença religiosa e do processo legislativo dentre os três poderes.

É possível contestar sem agredir.

***

PS. Sei que a História já exigiu a agressão em nome da luta pelos direitos humanos. Mas foi raro seu sucesso, e muitas vezes dispensável dentro de uma democracia. Em breve vou escrever mais um post sobre minha ideia de “pequena revolução”, que acho bem mais eficaz. Mas já abordei ela no que diz respeito à revolução por meio da Justiça, por meio da solidariedade, por meio da inteligência bem-humorada, por meio da literatura e jornalismo e, claro, por meio da exigência dos direitos em grupo — mas com civilidade.

 

A questão do aborto

Desenho do gênio Laerte, na "Folha" de hoje. E isso é só o que vou falar sobre essa Comissão de Direitos Humanos aqui no blog, porque o pastor Feliciano (quem mesmo?) está gostando demais dos holofotes que vem recebendo nos últimos dias.

Desenho do gênio Laerte, na “Folha” de hoje. E isso é só o que vou falar sobre essa Comissão de Direitos Humanos aqui no blog, porque o pastor Feliciano (quem mesmo?) está gostando demais dos holofotes que vem recebendo nos últimos dias.

Se até o chefe de uma das igrejas mais retrógradas do mundo defende o aborto pela questão de saúde pública (além de ter outras posições “progressistas”, no meio religioso, como a defesa dos métodos contraceptivos e de proteção a DSTs, como a camisinha), talvez a Igreja Católica devesse começar a pensar em rever seus conceitos, finalmente.

Aproveitando o fato de o Conselho Federal de Medicina ter vindo a público defender o aborto até a 12ª semana de gestação, resolvi trazer o tema aqui para o blog, muito bem abordado por um dos editoriais do meu pai. Um trecho:

“E a Igreja Católica que condena o aborto – e nega à mulher o direito ao sacerdócio – demorou muito a apoiar a luta contra a escravidão de negros no Brasil. E se omitiu quando os nativos da América Central e das Antilhas foram massacrados, na maioria, pelos recém-chegados espanhóis. Em todas essas ocasiões, ela se amparava em questões morais que depois, com o avanço da civilização, tiveram que ser revistas. Chegou a hora de fazer o mesmo em relação ao aborto.”

O editorial pode ser lido na íntegra AQUI.

Não se defende o aborto em todas as situações. E é claro que o mundo ideal é aquele em que todas as mulheres têm condições de cuidar de seus bebês, que toda a vida seja preservada. Nada é mais lindo que ver um bebezinho saudável, numa família feliz. Mas o fato é que muitos bebês surgem de estupros, da miséria, da ignorância, do abuso e da porrada — não da felicidade e do amor dos nossos sonhos de classe média. E outro fato é que 1 milhão de mulheres abortam (ou tentam abortar) a cada ano, só no Brasil. E, para fazerem isso, apelam para as piores práticas do mundo (já ouvi até sobre tesouras sendo enfiadas no útero; daí para pior). Não sei o percentual das que morrem, mas suponho que seja alto.

Então essa discussão vale como um outro ponto de vista do que é “defesa da vida”.

Deixo aí para nossa reflexão e os comentários de vocês — com o respeito para as divergências 😉