Uma coisa que me faz considerar o Angeli o maior chargista do Brasil (juntamente com o Laerte, que não tem feito charges políticas há anos, mas que também é um gênio da área) é sua ironia e sua capacidade de detectar a distorção das coisas e ousadia para colocar uma lupa nelas, mesmo que isso signifique ir contra o discurso da maioria “mais esclarecida” etc.
É o que se vê na charge dele de hoje:
Sim, são absurdas as declarações do pastor Feliciano sobre gays e sobre negros. É triste vê-lo presidindo uma Comissão de Direitos Humanos. Mas ele chegou lá levado por eleitores, em primeiro lugar, e pelo processo legislativo, em segundo. Vale fazer petições, abaixo-assinados e declarações contra a permanência dele no cargo. Mas fazer um boneco de Judas com a cara dele para ser “malhado” é voltar aos tempos bárbaros e é igualar-se ou até mesmo superá-lo (como destaca a charge de Angeli) em intolerância.
O que os manifestantes agressivos têm conseguido é dar holofotes ao político (que está A-M-A-N-D-O a fama repentina, como se vê por sua cara em todas as fotos) e criar “antipatizantes”, nos moldes do que eu já tratei aqui, para suas bandeiras (que, ademais, deveriam ser as bandeiras de todos, mas ainda carece de tempo para que isso ocorra de fato).
Em resumo, a intolerância dos que lutam contra a intolerância do pastor, inclusive resvalando, em alguns discursos, no preconceito religioso, é o famoso tiro pela culatra. Propicia que seja pintado esse quadro da charge.
No dia em que relembramos o início do golpe militar, a efeméride dos 49 anos, deveríamos refletir sobre nossa capacidade de lutar contra os absurdos preconceitos ainda vigentes sem, para isso, ter de ferir os direitos constitucionais da livre expressão, livre pensamento, livre crença religiosa e do processo legislativo dentre os três poderes.
É possível contestar sem agredir.
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PS. Sei que a História já exigiu a agressão em nome da luta pelos direitos humanos. Mas foi raro seu sucesso, e muitas vezes dispensável dentro de uma democracia. Em breve vou escrever mais um post sobre minha ideia de “pequena revolução”, que acho bem mais eficaz. Mas já abordei ela no que diz respeito à revolução por meio da Justiça, por meio da solidariedade, por meio da inteligência bem-humorada, por meio da literatura e jornalismo e, claro, por meio da exigência dos direitos em grupo — mas com civilidade.






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