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O bárbaro e a malhação de Judas

Uma coisa que me faz considerar o Angeli o maior chargista do Brasil (juntamente com o Laerte, que não tem feito charges políticas há anos, mas que também é um gênio da área) é sua ironia e sua capacidade de detectar a distorção das coisas e ousadia para colocar uma lupa nelas, mesmo que isso signifique ir contra o discurso da maioria “mais esclarecida” etc.

É o que se vê na charge dele de hoje:

pastorfeliciano

Sim, são absurdas as declarações do pastor Feliciano sobre gays e sobre negros. É triste vê-lo presidindo uma Comissão de Direitos Humanos. Mas ele chegou lá levado por eleitores, em primeiro lugar, e pelo processo legislativo, em segundo. Vale fazer petições, abaixo-assinados e declarações contra a permanência dele no cargo. Mas fazer um boneco de Judas com a cara dele para ser “malhado” é voltar aos tempos bárbaros e é igualar-se ou até mesmo superá-lo (como destaca a charge de Angeli) em intolerância.

O que os manifestantes agressivos têm conseguido é dar holofotes ao político (que está A-M-A-N-D-O a fama repentina, como se vê por sua cara em todas as fotos) e criar “antipatizantes”, nos moldes do que eu já tratei aqui, para suas bandeiras (que, ademais, deveriam ser as bandeiras de todos, mas ainda carece de tempo para que isso ocorra de fato).

Em resumo, a intolerância dos que lutam contra a intolerância do pastor, inclusive resvalando, em alguns discursos, no preconceito religioso, é o famoso tiro pela culatra. Propicia que seja pintado esse quadro da charge.

No dia em que relembramos o início do golpe militar, a efeméride dos 49 anos, deveríamos refletir sobre nossa capacidade de lutar contra os absurdos preconceitos ainda vigentes sem, para isso, ter de ferir os direitos constitucionais da livre expressão, livre pensamento, livre crença religiosa e do processo legislativo dentre os três poderes.

É possível contestar sem agredir.

***

PS. Sei que a História já exigiu a agressão em nome da luta pelos direitos humanos. Mas foi raro seu sucesso, e muitas vezes dispensável dentro de uma democracia. Em breve vou escrever mais um post sobre minha ideia de “pequena revolução”, que acho bem mais eficaz. Mas já abordei ela no que diz respeito à revolução por meio da Justiça, por meio da solidariedade, por meio da inteligência bem-humorada, por meio da literatura e jornalismo e, claro, por meio da exigência dos direitos em grupo — mas com civilidade.

 

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

8 comentários em “O bárbaro e a malhação de Judas Deixe um comentário

  1. num do raros momentos em que eu acho que não concordo com vc 🙂 acho que a gente não deve desprezar nem diferenciar a agressão real da agressão do simbólico. Eu fico pensando naquele povo do oriente médio, puto com os EUA, queimando bandeira americana na rua, espancando o boneco do Bush, e não consigo tirar a razão de quem sofreu os ataques, dos países que soferam com as políticas intervencionistas e afins. Da mesma forma, colocar o Feliciano no lugar do Judas não é uma agressão gratuita, mas o revide muitas vezes de gente que passou a vida inteira vítima de uma violência social dos preconceitos, que é muito grave, e cujo protesto ecoa nas bobagens que o Feliciano sai falando, ainda mais na posição onde ele está. Então, talvez, eu acredite que agredir o simbólico (o boneco do feliciano, a bandeira dos eua, etc) é diferente de agredir realmente o simbolizado. Se tacassem fogo no Feliciano, aí TALVEZ eu me manifestasse contra a barbárie ;-).

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    • O problema é quando uma coisa insufla a outra (do simbólico para o real). É o caso da notícia de que as pessoas começaram a invadir as igrejas evangélicas e gritar, impedindo a celebração do culto, “até que ele deixe o cargo”. Ou de outra notícia que diz que agressores bateram no carro onde estavam Feliciano e suas duas filhas — crianças –, assustando as meninas. Isso é tão intolerante quanto as baboseiras que ele prega. Sem contar que é um tiro pela culatra, porque está dando visibilidade a um zé-ninguém, num país conservador como o nosso. Eis o surgimento do Bolsonaro 2º e fortalecimento dos que pensam como os dois…

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      • Enfim, quero deixar claro que minha crítica neste post não foi contra todos os críticos ao Feliciano, senão eu estaria inclusive falando de mim mesma — mas contra alguns, tão agressivos, intolerantes e bárbaros quanto ele. O fato de serem vítimas não justifica o que fazem ou dizem. São esses, tenho certeza, que o Angeli também criticava em sua charge.

        Por outro lado, há formas inteligentes de protestar, com pressão aos demais líderes da Câmara, petições, busca judicial, campanhas de conscientização na internet, virais, textos, artigos de opinião, cartazes e, claro, por que não, passeatas e afins — desde que não partam para a ignorância, como aconteceu com o Feliciano e com a Yoani, pouco antes.

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      • Bem, as meninas no carro não são mais o simbólico, são os simbolizados 🙂 agora, há tempos eu perdi a ilusão de que se consegue fazer omeletes sem quebrar ovos. Seria realmente muito bonito se desse prá resolver tudo do jeito bonitinho, mas o fato é que para sensibilizar quem não larga o osso você tem que pressionar de com força.

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