Jornalista Ricardo Feltrin relembra início da carreira em entrevista para o livro ‘A Vaga É Sua’

Ricardo Feltrin no campeonato de futebol Folha por Folha, em 1997, seis anos depois de entrar no jornal. Foto: Leonardo Colosso/Folhapress
Ricardo Feltrin no campeonato de futebol Folha por Folha, em 1997, seis anos depois de entrar no jornal. Foto: Leonardo Colosso/Folhapress

Continuando com o resgate que me propus a fazer neste mês dos jornalistas, hoje trago a entrevista que eu e a Ana Estela de Sousa Pinto fizemos com o jornalista Ricardo Feltrin para nosso livro A Vaga é Sua, publicado em 2010 pela Publifolha.

Entrevista com Ricardo Feltrin para o livro A Vaga É Sua (2010)

Você estudou o quê?

Administração de empresas por um ano, um ano como ouvinte de teologia e quatro anos de ciências sociais.

Como caiu no jornalismo?

Descobri que a Folha não exigia diploma. Eu lia a Folha desde que tinha 14 anos. Assinava a Folha ainda adolescente. Eu era músico…

Músico? Profissional?

Profissional. Tinha uma banda que tocava um repertório de 600 músicas. Tocava o ritmo que fosse, dependendo do público. Festa do peão, baile da saudade, debutantes.

Sua ideia então era ser músico, como profissão?

Sim, eu pensava em ser músico, desde os 16 já me sustentava com a música, depois que me formei em química.

E então por que o jornalismo?

Antes disso, virei professor. Minha namorada engravidou, tivemos um filho. Estava com 25 anos.

Foi professor de quê?

De história e geografia, na rede estadual, isso é 1991. Um dia a Folha publicou na primeira página o editorial “Carta aberta ao sr. presidente da República” e eu pensei: quero trabalhar neste lugar. E logo depois me inscrevi no programa de treinamento.

Quando fiz o teste para o curso, fiquei fazendo mentalização por uma semana. Ficava falando o tempo todo “Vou passar, vou passar, vou passar”. Lembro que a redação era sobre o muro de Berlim, que era um dos temas sobre os quais mais tinha lido na época.

Quando passei, foi o dia mais feliz da minha vida, acho.

Só tinha teste?

Tinha uma entrevista, mas eu sou simpático, sabia que na entrevista iria bem.

Na entrevista, então, você não ficou nervoso?

Nada. Nada. Quando eu passei no teste eu falei “Agora é comigo!”.

Sempre foi assim? Você sempre ficou tranquilo nesse tipo de situação?

Não. O que foi terrível foi descobrir, quando entrei no programa, que eu não era tão bom quanto eu pensava. Que meu texto era uma mediocridade total e eu achava que era bom. Separava sujeito de verbo. Era um pateta que achava que era bom.

Depois comecei a descobrir que meu pânico era o lide, e durante um ano eu era tão obcecado que pegava o bloquinho em casa e começava a bolar matérias para o dia seguinte e testar os títulos para ver se cabiam.

Então quando você entrou no jornal, já era “meio velhinho”, né?

Tinha 27 anos.

Achava-se velho?

Achava, nossa! Não com minha turma de trainees, que era tudo velharia também.

Muito editor em banca diz: “Mas esse cara está com 28 anos, nunca fez nada. Não vai ser agora que vai começar a fazer”.

Sou o cara mais sortudo do mundo de ter conseguido passar no teste, porque acho que não tinha nenhum perfil perto das pessoas que concorriam comigo.

Eu não falava inglês – aliás, até hoje não falo direito. Faço aula e tudo, mas tenho dificuldade.

Por que você acha que o selecionaram? O que você acha que tinha que o fez ser escolhido?

Hiperatividade. Sou aceso. Sempre fui.

Meu primeiro editor, Julio Veríssimo, uma semana depois de me contratar me disse “Você leva jeito, ô, rapaz”. Porque ele viu que eu era ansioso, queria ficar o tempo todo fazendo matéria.

Era exibido. Queria assinar em todo lugar. Era voluntarioso. No terceiro dia de trabalho, pegou fogo na favela Naval (em Diadema), eu não tinha carta, peguei o carro da minha mãe, ainda acabei batendo o carro dela na favela. Acabei com o carro dela.

Pelo menos a cobertura ficou boa?

Não saiu…

E o que você acha que menos tinha? Do que mais sentiu falta quando começou a trabalhar? Algo que, pra conseguir, teve que se esforçar?

Cultura. Nunca tinha viajado pra fora do país. Era um completo imbecil metido a sabichão. Continuo sendo… Mas o programa de treinamento foi ótimo pra me mostrar que eu não era tão bom. Não tinha texto. Só tinha ansiedade e muita vontade de trabalhar. Adorava aquela profissão: ficar dentro da prefeitura horas e horas, ir à delegacia folhear BO, ligar pra 300 policiais.

Tenho dificuldade com línguas. Tenho dificuldades com espaço. Se tenho que ir a qualquer lugar que não conheço vou uma hora antes, porque sei que vou me perder.

Engraçado, porque sempre achei que música ia ser minha profissão, mas não é mesmo. Adoro tocar, mas não se compara ao prazer que tenho quando consigo um furo.

E é uma profissão tão ingrata, né? Porque às vezes você passa um mês pra apurar uma coisa, dá um furo, e 24 horas depois quase ninguém mais lembra disso.

E se você cometer um erro logo depois, ainda leva uma cacetada.

Isso já aconteceu alguma vez? Já foi demitido ou viveu uma situação muito ruim na sua carreira?

Aconteceu. Na segunda metade dos anos 90, tive um problema pessoal grave, que afetou minha profissão. Só estou aqui hoje porque a empresa foi generosa em compreender que estava só passando por uma fase.

Corria o risco de acabar minha carreira jornalística ali.

Outro momento difícil foi quando terminou o treinamento. Levou 11 dias pra eu ser chamado. Esses 11 dias foram os mais desesperadores da minha vida. E voltei a fazer a mentalização.

Achou que ia ficar sem emprego?

Eu ficava dia e noite pensando nisso, dia e noite. Achei que não haveria vaga. Chamaram-me pra Esporte, mas a vaga não saiu. Aí entrei em depressão. Não saía mais de casa…

Ficou deprimido mesmo?

Sim. Continuei indo à faculdade, mas era difícil, porque todos sabiam que eu havia feito o programa, inclusive eu, e voltar a dar aulas – numa escola detestável, com uma diretora detestável…

Eu achei: “Putz, fracassei!”.

Até que chegou um telegrama – ainda existia telegrama!! – e me chamaram para um teste para o Folha ABCD [caderno regional que circulou na região do ABCD na primeira metade dos anos 1990].

Fiquei esperando uma hora, tremendo!

Ah, desta vez você tremeu, então!!?

Tremi. Tremi. E outra coisa: como professor eu ganhava 350 alguma coisa e o salário da Folha era muito maior. Minha vida ia mudar.

Você contrata gente hoje, participa da seleção de pessoas. O que acha mais legal num candidato, que o faz ter vontade de contratá-lo? Sei que varia muito, depende da vaga, mas há algo que você sempre acha muito importante?

Engraçado, já me enganei muito. Achei que gente que ia dar certo e não dava, e outros pelos quais não dava nada e foram brilhantes. Não há uma fórmula pra isso.

O programa de treinamento é bom para conhecer melhor as pessoas.

Num processo de seleção, não há tempo pra isso. Não há fórmula. Às vezes o candidato é tão articulado, mas tem um texto tão ruim. Outros parecem mulambentos e têm texto ótimo.

Texto, então, é algo que você valoriza bastante?

Texto é o que eu mais valorizo. Mas também postura, vestimenta – uma vez tive uma briga enorme, porque haveria uma sabatina da Folha e meus dois repórteres de Brasil estavam de camiseta.

E se aparece um candidato parecido com você em sua primeira seleção: um cara mais velho, sem experiência?

Hoje eu já presto atenção, penso que quem sabe ele pode se desenvolver. É tão difícil escolher um candidato. Já vi muito candidato sentar na banca, mostrar uma grande cultura, falar quatro línguas, mas quando você vai ver não consegue fazer um bom texto, um bom lide.

E na questão da cultura, que você diz que lhe faltava. Você foi atrás de preencher a lacuna ou acabou encontrando outro caminho?

Arrumei o caminho da ratazana de delegacia, do repórter formiguinha.

Envolvimento, então…?

Mas tive sorte, também, de virar colunista muito rápido. Um ano depois em que estava na Folha da Tarde virei colunista, e ali comecei a ganhar mais espaço.

Foi então também o seu talento individual.

É, era uma coisa que eu não sabia que tinha. Sabia que tinha jeito pra escrever, mas começaram a me achar engraçado. Obviamente, como bom exibido, continuei fazendo isso.

***

Amanhã volto com a última entrevista, com Xico Sá 🙂

Canal do blog da kikacastro no WhatsApp

Você também vai gostar destes posts:

Como comprar o livro de crônicas (Con)vivências, de Cristina Moreno de Castro, do blog da kikacastro.

➡ Quer reproduzir este ou outro conteúdo do meu blog em seu site? Tudo bem!, desde que cite a fonte (texto de Cristina Moreno de Castro, publicado no blog kikacastro.com.br) e coloque um link para o post original, combinado? Se quiser reproduzir o texto em algum livro didático ou outra publicação impressa, por favor, entre em contato para combinar.

➡ Quer receber os novos posts por email? É gratuito! Veja como é simples ASSINAR o blog! Saiba também como ANUNCIAR no blog e como CONTRIBUIR conosco! E, sempre que quiser, ENTRE EM CONTATO 😉

Canal do blog da kikacastro no WhatsAppReceba novos posts de graça por emailResponda ao censo do Blog da Kikafaceblogttblog


Descubra mais sobre blog da kikacastro

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Avatar de Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

Deixe um comentário

Descubra mais sobre blog da kikacastro

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo