- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Continuando com o resgate que me propus a fazer neste mês dos jornalistas, hoje trago a entrevista que eu e a Ana Estela de Sousa Pinto fizemos com o jornalista Mílton Jung para nosso livro “A Vaga é Sua“, publicado em 2010 pela Publifolha.
Entrevista com Mílton Jung para o livro A Vaga É Sua (2010)
Antes de trabalhar com jornalismo, você já tinha feito algum outro trabalho?
Sou um péssimo exemplo para os iniciantes. Ao menos como fonte de inspiração para dar os primeiros passos na profissão. Tendo nascido em família de alguns jornalistas, meu pai, meu tio e meu padrinho são e eram, estive próximo da profissão desde novo. E com ela convivi na infância e adolescência até encará-la profissionalmente nos primeiros anos da década de 1980.
Antes de me transformar em jornalista, porém, trabalhei como técnico de basquete, dei aula de educação física e recreação e fiz curso para atuar com crianças com deficiência – sempre no campo esportivo, influenciado pelos 13 anos de basquetebol como atleta (apesar da minha altura). Cheguei a me iniciar na faculdade de Educação Física (ESEF/UFRGS), mas não completei o curso, pois já havia sido adotado pelo (ou adotado o) jornalismo.
Acha que essa sua experiência anterior foi útil como jornalista?
Todas estas atividades anteriores foram importantes, principalmente porque meu início como jornalista foi na cobertura esportiva – inicialmente como produtor, repórter e locutor de rádio de um programa sobre ‘esporte amador’ e, em seguida, como repórter de futebol.
Além do tema (esporte), outras experiência obtidas durante minha carreira pré-jornalismo foram fundamentais para o desenvolvimento do meu trabalho: relacionamento com grupos, liderança de equipe, habilidade de me comunicar com comunidades adversas, espírito de competição, por exemplo.
O que você fez para aproveitar a faculdade ao máximo?
Tive o mérito de estudar em uma das melhores faculdades de jornalismo do país, a Famecos/PUC-RS, com boa estrutura, equipamentos de TV avançados e alguns professores de excelência. Destes me aproximei para conseguir captar o máximo possível de conhecimento.
Mesmo assim aproveitei pouco do muito que o ambiente acadêmico me oferecia. Por prepotência. Tendo conhecimento empírico do jornalismo por conviver no meio, deixei de valorizar alguns recursos que me eram oferecidos na faculdade. Por exemplo, usufruí muito pouco dos equipamentos de televisão. “Isso eu conheço bem”, pensava. Descobri nos primeiros anos de carreira que não conhecia, não. Em compensação, explorei ao máximo a visão jornalística de alguns mestres que levei para a minha carreira profissional.
O período acadêmico também foi propício para a leitura. Foi neste momento em que despertei para a importância do livro no meu desenvolvimento. Lamento ter demorado tanto para tal. Principalmente, porque o bom exemplo já existia dentro de minha casa. Meu pai sempre gostou de ler.
Chegou a fazer estágios durante a faculdade?
Fiz estágio um ano antes de me formar, na rádio Guaíba de Porto Alegre, beneficiado pelo fato de meu pai trabalhar na emissora (até hoje, por sinal).
A experiência foi válida?
Este período foi importante, pois me obrigou a identificar carências que ainda tinha para o exercício da profissão e me mostrou o quanto estava desperdiçando o conhecimento acadêmico à minha disposição.
Chegou a fazer intercâmbios? Como foram?
Nunca tive oportunidade de participar de qualquer programa de intercâmbio. Uma pena.
Antes de conseguir sua primeira vaga de jornalista, teve que enviar muitos currículos, fazer muitas entrevistas, teve muitas dificuldades? Como conseguiu o primeiro emprego de jornalista?
Como disse lá em cima, não sou um bom exemplo para os estudantes. Tendo vivido dentro da redação, não precisei de currículo, entrevistas ou qualquer outro método de contratação. O estágio foi oferecido na rádio onde meu pai trabalhava por solicitação dele. Desde então, troquei de área, troquei de empresa, troquei de veículo, troquei de Estado, sem nunca ter necessidade de apresentar um só currículo.
Verdade seja dita, antes de ser contratado pela TV Globo, em São Paulo, fiz um teste na disputa de uma vaga de repórter da madrugada. Não conhecia São Paulo, mas o destino me trouxe para cá no momento certo. Em visita a amigos, soube que a emissora buscava um profissional. Fui apresentado por um dos amigos ao chefe de reportagem, que me convocou para o teste. Saí à noite, com uma equipe de cinegrafista ao lado e uma pauta na mão. Fechei a reportagem e dois dias depois fui chamado para trabalhar lá.
Passou por algum “mico” ou situação diferente durante seu período de foca?
Dois momentos que lembro: produtor de programa de esporte amador, na rádio Guaíba, fui convocado para cobrir o encontro do ministro da Educação e Cultura (na época cuidava do esporte também) e Pelé, em Porto Alegre.
Assim que cheguei lá me deparei com repórteres engravatados e entrevistados, também. Não tive coragem de fazer uma só pergunta a bordo de uma camisa longa caída sobre o abrigo surrado e costurado no joelho direito, e calçando uma sandália de couro qualquer.
Ainda no comando do programa de esporte amador, aceitei que um entrevistado fizesse sua declaração lendo a resposta. Ele acusava um técnico de esportes de tê-lo traído e cometido algumas barbaridades. Deixei que a interminável leitura fosse ao ar, sem intervenção, sem contestação. Um horror.
Você já atuou em impresso, TV, rádio, internet. Quais as principais diferenças entre uma plataforma e outra? Como fez para se adaptar e ser tão “multimidiático” assim?
O rádio foi minha base. O rádio esportivo em especial, que me ofereceu a habilidade para falar ao vivo e de forma improvisada. Esta me abriu portas na televisão, pois tinha facilidade para participar das coberturas ao vivo, coisa nem tão comum no jornalismo no início da década de 90. Esta mesma habilidade me tirou da Globo e me levou para a TV Cultura. E da reportagem para a ancoragem. Na internet, também fui explorado por dominar esta técnica.
Existem diferenças, sim. Mas, se o que estamos fazendo é jornalismo, precisamos mesmo é senso de curiosidade, criatividade na abordagem dos temas, bom texto (mesmo naquelas mídias que exigem muito mais a linguagem oral), olhar crítico, e respeito ao cidadão. Faça jornalismo para o cidadão e você estará fazendo um bom jornalismo.
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Amanhã volto com a entrevista que fizemos com Ricardo Feltrin
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