- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Continuando com o resgate que me propus a fazer neste mês dos jornalistas, hoje trago a entrevista que eu e a Ana Estela de Sousa Pinto fizemos com o jornalista Laurentino Gomes para nosso livro “A Vaga é Sua“, publicado em 2010 pela Publifolha.
Entrevista com Laurentino Gomes para o livro A Vaga É Sua (2010)
Antes de trabalhar com jornalismo, você já tinha feito algum outro trabalho? Acha que sua experiência lá foi útil como jornalista?
Nasci numa família muito pobre e tive de começar a trabalhar logo cedo, para ajudar nas despesas de casa. Antes de ser jornalista fui jardineiro, pacoteiro de supermercado, sapateiro, mecânico, auxiliar de escritório e bancário. Como era menor de idade, em alguns casos trabalhei muito por pouco dinheiro, sem registro em carteira ou qualquer direito trabalhista.
Mas foram todas experiências importantes na minha vida porque me ajudaram a entender como funcionam as relações de trabalho muito antes de me sentar num banco de faculdade.
Em razão das dificuldades desse período, na primeira vez em que entrei numa redação como repórter achei que nem precisaria ganhar salário, de tão bom que era ser jornalista!
O que você fez para aproveitar a faculdade ao máximo?
Meu curso de jornalismo na Universidade Federal do Paraná não foi dos melhores. Sou da turma de 1976. Como ainda estávamos sob o regime militar, o ambiente na faculdade era muito árido e vigiado. Anos mais tarde, o coordenador do curso de comunicação, que eu frequentava, confessou numa entrevista à revista Veja ter sido informante dos órgãos de espionagem do governo.
Apesar disso, tive excelentes professores, que se esforçavam para abrir nossas cabeças e estimular nosso espírito crítico mesmo num ambiente de repressão. Procurei tirar o máximo proveito disso, lendo tudo que me recomendavam. Portanto, eu diria que o melhor benefício que trouxe da faculdade foi a bibliografia. Li quase tudo.
O que fez para complementar sua formação? Chegou a fazer estágios ou viagens, por exemplo, que a enriqueceram?
Infelizmente, não tive chances de fazer intercâmbio, morar ou viajar para o exterior. Comecei a trabalhar como estagiário de uma redação do Paraná logo no segundo ano do curso de Jornalismo. Fui cobrir política como setorista da Câmara Municipal de Curitiba e, em seguida, na Assembleia Legislativa paranaense.
Meu grande aprendizado se deu, portanto, no dia a dia das redações nas quais encontrei editores e colegas mais velhos que tiveram a paciência de me ensinar o que sabiam da profissão. Essa, sim, foi a minha grande escola.
Tive a chance de trabalhar com alguns dos melhores editores da minha geração, como José Roberto Guzzo, Elio Gaspari, Dorrit Harazim, Tales Alvarenga, Mario Sergio Conti, Augusto Nunes, Ricardo Setti e João Victor Strauss. A lista é enorme, tanto quanto a dívida de gratidão que tenho para com eles.
Acha que os cursos que fez depois na Inglaterra e Estados Unidos te ajudaram profissionalmente?
Fiz cursos de especialização na Inglaterra e nos Estados Unidos como parte da minha pós-graduação em Administração na Universidade de São Paulo. Estava, portanto, na área de gestão e não no jornalismo. Ainda assim, foram experiências importantíssimos. Acho que viajar é uma das formas mais práticas e eficientes de aprender.
Recomenda que estudantes viajem, em vez de partir direto para o mercado de trabalho?
O mundo mudou muito nos últimos anos e hoje é fundamental que os jovens repórteres tenham uma boa experiência internacional antes de entrar na profissão. Inglês fluente é imprescindível. Se dominar mais uma ou duas línguas – de preferência espanhol e francês –, melhor ainda. Tenho quatro filhos e sempre estimulei todos eles a viajar, fazer intercâmbio e cursos no exterior. Afinal, vivemos numa aldeia planetária.
Antes de conseguir sua primeira vaga de jornalista, teve que enviar muitos currículos, fazer muitas entrevistas, teve muitas dificuldades?
Comecei a trabalhar num jornal de Curitiba que ainda não existia. Chamava-se “Correio de Notícias” e seria lançado alguns meses depois. A redação foi organizada de forma bastante improvisada e, como funcionava ao lado da faculdade, um dia fui lá, bati na porta, me ofereci e fui contratado imediatamente como estagiário. Quase um milagre!
Lembra de como era seu currículo logo que saiu da faculdade? Do que escreveu nele e como era recebido pelas empresas?
Felizmente, nunca tive de fazer ou mandar currículos com pedido de emprego. Depois do primeiro emprego, fui sempre procurado por veículos concorrentes, que me ofereceram salário e condições de trabalho melhores. Talvez tenha sido sorte, mas o fato é que até hoje não tenho um currículo pronto no computador. Nunca precisei.
Lembra-se de como foi a primeira entrevista de emprego?
Fui entrevistado por um editor mais experiente que me perguntou por que eu queria ser jornalista. Respondi que considerava a melhor profissão do mundo e que não me imaginava fazendo outra coisa. Em seguida, ele me pediu que escrevesse um texto, de cujo tema já não me lembro. Foi só isso.
Quais eram suas principais lacunas naquela época e o que fez para contorná-las?
A principal lacuna era a falta de inglês fluente e uma certa visão limitada do mundo pela falta de oportunidade de viajar na juventude. Tive enormes dificuldades com isto durante todos os meus 32 anos de carreira profissional. Como nunca morei no exterior na juventude, fui obrigado a estudar inglês a vida toda.
O problema só se resolveu mesmo quando decidi entrar num prolongado curso de imersão, no interior de São Paulo, seguido de um curso na Inglaterra. Além disso, leio muitos livros em inglês. Por isso, hoje meu domínio do idioma é razoável. Tenho bom vocabulário, leio e ouço perfeitamente, mas ainda enfrento alguma dificuldade ao falar.
Já trabalhou exclusivamente como freelancer? Quais os problemas mais comuns que enfrentou como frila?
Já fiz alguns frilas mas sempre estive empregado nessas três décadas de profissão. O trabalho de frila é muito ingrato. É uma relação de trabalho muito instável, geralmente trabalhando para veículos com linguagens e públicos diferentes e, principalmente, recebendo pouco dinheiro. Conheço jornalistas que adoram ser frilas e até preferem trabalhar assim para não se submeter a um vínculo empregatício único. Eu teria dificuldade.
Se fosse contratar alguém bem inexperiente hoje para trabalhar ao seu lado, qual seria uma qualidade fundamental?
Acho que os requisitos fundamentais da profissão permanecem os mesmos, apesar das mudanças tecnológicas. É preciso ter uma curiosidade insaciável, ler muito, saber ouvir e contar histórias, ter um bom domínio do texto e da língua portuguesa.
Um bom repórter tem sempre uma visão ampla do mundo e da condição humana. Por isso, aconselho a viajar, estudar, ler, ir ao cinema, conhecer paisagens, culturas e pessoas diferentes. Essa é a matéria prima do bom jornalista.
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Amanhã volto com a entrevista que fizemos com Marcelo Tas
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