Texto escrito por José de Souza Castro:
Num momento de grande desânimo com o futuro da esquerda no Brasil, ante o ataque da extrema-direita bem representada pelo Congresso Nacional, subserviente aos muito ricos, eu lamento mais uma vez a morte, há exatamente sete anos, do cientista político Fernando Massote.
Eu contribuí por um tempo com o Blog do Massote e ficamos amigos. Tanto, que quando recebeu da gráfica seu último livro, “Viagem ao sertão e outras memórias“, ele enviou para minha casa um exemplar, que li com muito gosto.
E me apressei a escrever um artigo publicado aqui no dia 22 de novembro de 2016 com o título “As memórias do professor Fernando Massote“, que ele leu e elogiou. Eu concluía assim:
“Por sorte nossa, os leitores, apesar das tragédias, o autor não perde o bom humor e nem a esperança por dias melhores para todos nós.”
Fico me perguntando se, nesses nove anos que se seguiram, com o advento de Temer, a prisão de Lula, o governo Bolsonaro e a eleição dos atuais congressistas, em sua maioria ricos de direita e extrema-direita, ele ainda manteria seu bom humor e esperança.
Acho que sim, por tudo que foi Massote e por sua história. E pelo que ensinou em seus livros e artigos publicados em jornais e em seu blog (que parece ter sido encerrado pela viúva, Carmen Dulce Diniz Vieira, professora aposentada do Departamento de Comunicação Social da Fafich, da Universidade Federal de Minas Gerais, que deu aulas para a Cris).
Ao voltar do exílio na Europa, ao fim da ditadura, Massote lecionou na UFMG por mais de 30 anos, no Departamento de Ciências Políticas da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Depois de sua morte por pneumonia, aos 75 anos, no dia 1 de julho de 2018, o Sindicato dos Professores (APUBH) afirmou em nota:
“Aguerrido, Massote construiu, ao longo da vida, uma trajetória memorável de luta em defesa da democracia, da justiça e da cidadania”.
No seu livro citado, Massote narra que no dia 1º de abril de 1964, ao invés de comemorar seu vigésimo primeiro aniversário com os colegas de república estudantil onde morava, passou a noite numa cela do Dops, em Belo Horizonte, onde foi recebido com um tapão na cara, dado pelo terrível delegado Thacir Menezes Sia, de triste memória.
Só foi tirado da prisão 46 dias depois pelo padre jesuíta Edemar Massote, que se responsabilizou pelo primo, prometendo que o líder estudantil não sairia da cidade sem prévia autorização da Comissão de Triagem.
Ledo engano. Fernando Massote comprou um passaporte falso vendido por policiais corruptos de São Paulo e embarcou num navio para a Europa. E conseguiu se formar em ciências políticas na Bélgica e concluir o doutorado na Universidade de Urbino, na Itália, com uma tese intitulada “Esplosione sociale del Sertano brasiliano”. Seria ótimo se fosse um dia publicada em português para que eu possa ler.
Na opinião da banca da UFMG que revalidou o diploma de Urbino, a tese é uma importante contribuição no campo da filosofia social. Em 2016, Massote lamentou que os massacres de Canudos e Caldeirão, objetos de sua tese, ainda não tivessem sido amplamente debatidos.
Esse bravo mineiro de Campo Belo não pode ser esquecido. Se depender de mim, não será.
Relembre estes obituários da época:
- Morre o professor Fernando Massote, da Fafich
- Mineiro questionador, lutou contra as injustiças sociais
- Sem o professor Fernando Massote, ficamos mais burros e pelegos
Outros posts que citam o professor Fernando Massote:
- Ele foi um dos que postaram sobre a tentativa de censura a este blog, lá em 2012
- No mesmo ano, ele denunciou que sua casa foi invadida por policiais militares, por duas vezes, sem qualquer mandato judicial
- Massote, um professor duro de matar
- Abusos das associações de condomínios em discussão no Legislativo e no Judiciário
- Lenda eleitoral no interior de Minas
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