As memórias do professor Fernando Massote

Texto escrito por José de Souza Castro:

Reprodução

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Com 73 anos completados no dia 1º de abril, não falta ao professor Fernando Massote – que lançou recentemente seu último livro, “Viagem ao sertão e outras memórias” – histórias interessantes para contar. E ele narra seus casos com maestria, salpicando-os com pensamentos originais de um filósofo nascido no Sul de Minas e formado na Bélgica, com doutorado na Universidade de Urbino, na Itália. Sua tese, defendida em 1978, foi intitulada “Esplosione sociale del Sertano brasiliano”.

Essa tese está a merecer maior atenção dos estudiosos brasileiros, pelo menos os que entendem o italiano, pois não creio que ela tenha sido traduzida. Quem a leu, como o padre Henrique Cláudio de Lima Vaz, professor do Departamento de Filosofia da UFMG e membro da banca que revalidou o diploma de Urbino, atesta: a tese do professor Massote “pode ser considerada, com toda a justiça, uma importante contribuição à bibliografia brasileira no campo da Filosofia Social”.

Opinião manifestada também por outro membro da banca, o professor Alberto Antoniazzi. Segundo ele, a tese, que aborda os movimentos de Canudos, Juazeiro e Caldeirão, “constitui uma contribuição original e de qualidade relevante à pesquisa do tema”.

O professor Massote reconhece, em seu livro, que as questões centrais de sua tese ainda não foram amplamente debatidas. Ele próprio dedica apenas 15 das 360 páginas do livro aos massacres de Canudos e Caldeirão, enquanto ocupa sete páginas com o massacre de Bronte, na Sicília, que vitimou camponeses que lutavam por um pedaço de terra, em meados do século 19, contra os latifundiários. Na época, Garibaldi se empenhava, a serviço do Piomonte, para unificar a Itália e foi um de seus amigos, o general Girolamo Bixio, quem comandou o massacre.

Ao estudar os fatos ocorridos em Bronte, Massote descobriu que eles lhe revelavam melhor os massacres de Canudos, no fim do século 19, e de Caldeirão, na terceira década do século 20. Esses conflitos, para meu pesar, ocupam menos espaço no livro que os conflitos pessoais vividos pelo autor ao longo dos 23 anos em que foi professor na UFMG.

Massote gasta mais de 30 páginas para descrever sua luta contra colegas conservadores e chefias autoritárias, primeiro na Faculdade de Educação e depois no Departamento de Ciência Política. Em ambos, encontrou um ambiente acadêmico muito diferente do vivido por ele em universidades da Bélgica, França e Itália, durante os 13 anos em que ficou fora do Brasil.

Seu êxodo começou em 1964, alguns meses depois de ser preso, no dia 1º de abril, como líder estudantil. Passou a noite numa cela do Dops, na Avenida Afonso Pena, e só foi tirado dali, 46 dias depois, pelo padre jesuíta Edemar Massote, seu primo, que se responsabilizou, perante o Comando Revolucionário, que o estudante não se ausentaria da cidade sem prévia autorização da Comissão de Triagem. Composta, entre outros, pelo temível delegado Thacyr Menezes Sia, que o recebeu com um bofetão, logo ao chegar ao Dops. Um tapão na cara que Massote não se esqueceu de citar no livro, deixando de lado, porém, o fato de que na noite daquele 1º de abril deveria estar comemorando, num barzinho, com os amigos da “república” em que morava, seu 21º aniversário.

Apesar da promessa do padre Edemar, Massote tratou de comprar um falso passaporte vendido por policiais corruptos de São Paulo, e no fim do ano embarcou num navio para a Europa. Ele se sentia inútil em Belo Horizonte, sob o olhar vigilante da polícia política e dos colegas dedos-duros. Nos seus longos anos na Europa, aproveitou para estudar em universidades belgas, francesas e italianas, para namorar muito e para ajudar a fundar, na Itália, o Comitato di Solidarietá Antifascista con la Lota Popolare in Brasile – o comitê italiano de luta contra a repressão no Brasil. Todos esses fatos são narrados no livro, que também leva o leitor a um tour por muitas regiões europeias.

Massote soube transformar o limão da extradição numa saborosa limonada… Ler seu livro logo depois de concluir a leitura de “O homem que amava os cachorros”, do cubano Leonardo Padura, foi um contraponto muito interessante, pois em Massote não se percebe, em nenhum momento, desalento em relação ao papel da esquerda no mundo. O ponto em comum é que ambos são críticos ferozes das ditaduras.

Em 1969, com o mesmo passaporte, Massote voltou ao Brasil, passando a viver, durante um ano, escondido da polícia política e até dos parentes, à exceção de uma visita de um dia à fazenda do pai em Campo Belo, pouco antes de regressar à Europa. Só voltou ao Brasil em fins de 1978, depois de concluir, em junho, o doutorado. Estava animado com as notícias de distensão política e anistia aos exilados. Chegou a São Paulo no mesmo dia em que os jornais anunciavam o fim do AI-5. Em 1979, foi admitido como professor da UFMG.

Por um tempo, quis voltar a Campo Belo. Chegou a se candidatar a prefeito, mas não se elegeu. Boa parte de suas memórias (as 115 páginas iniciais do livro) se ambientam nesta cidade natal. São casos vividos com a família, amigos, colegas, trabalhadores rurais – a fazenda do pai ficava a 20 quilômetros da cidade. Casos bem-humorados e contados em linguagem acessível, talvez para que os velhos amigos e personagens possam ler.

O leitor percebe que o adolescente Massote já se preocupava com questões sociais e com a atuação, em sua terra, dos conservadores padres crúzios – eram os tempos de Pio XII de triste memória – vindos da Holanda para dirigir a paróquia e o colégio da cidade e que davam poderoso apoio às famílias abastadas e, na época própria, ao golpe militar.

Como não poderia deixar de ser, tratando-se de quem é, a política permeia todo o livro. O autor não perdoa José Dirceu. Lembra uma história que contavam de Carlos Lacerda afirmando que ele “só existia enquanto falava” e que era subsidiado pela direita organizada também na imprensa e no dinheiro da CIA. Comparando os dois políticos, um da direita, outro da esquerda, conclui que ambos não tinham conteúdo. “O conteúdo de Zé Dirceu é o mexerico e o delito”, reforça.

Não faltam declarações polêmicas como esta, no livro de Massote. Há comparações bem fundamentadas de fatos políticos, como as mortes de Juscelino Kubitschek e João Goulart, em 1976, e de Carlos Lacerda no ano seguinte – os três fundadores da Frente Ampla de oposição à ditadura militar – e o sequestro e assassinato do líder italiano Aldo Moro que articulava a união, para governar, da Democracia Cristã, o seu partido, com o Partido Comunista Italiano.

Diz Massote:

“A conclusão das referências aos processos políticos da Itália e do Brasil é que o assassinato de Moro se repetiu aqui, com a portaria assinada por Gama e Silva, colocando a Frente Ampla fora da lei. A medida representou a abertura de um processo liberticida que terminou com o AI-5, em dezembro de 1968. Dessa vez, como dizia Karl Marx, a história voltou a se repetir, mas não tendo a primeira como tragédia e a segunda como comédia, sendo os dois casos verdadeiras tragédias.”

Por sorte nossa, os leitores, apesar das tragédias, o autor não perde o bom humor e nem a esperança por dias melhores para todos nós.

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