Guy de Almeida (1932-2025): jornalista nos deixa muitas lições de vida

O jornalista Guy de Almeida (1932-2025). Foto: Reprodução / TV Assembleia
O jornalista Guy de Almeida (1932-2025). Foto: Reprodução / TV Assembleia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Só hoje soube da morte do jornalista Guy de Almeida, aos 93 anos, muito citado por mim no livro “Sucursal das Incertezas“, disponível na biblioteca do blog. Uma das minhas grandes influências no jornalismo, Guy morreu no último dia 2 e foi sepultado no Cemitério Parque da Colina, em Belo Horizonte.

Guy chefiava a sucursal do JB (Jornal do Brasil) em Minas e foi preso após o golpe de 1964. Depois, exilou-se por 11 anos, com a mulher e os cinco filhos, no Chile e no Peru. Só vim a conhecê-lo pessoalmente em janeiro de 2004, quando o entrevistei, no apartamento dele, para o “Sucursal das Incertezas”. Abaixo, um trecho do livro:

“Os problemas de Guy de Almeida com os militares podem ter, no entanto, outras origens. Em 1961, quando chefiava a redação de O Binômio, ele mandou ao Espírito Santo o repórter José Nilo Tavares, para confirmar denúncias lidas num livro de Afonso Henriques sobre a ditadura Vargas. O comandante do Exército em Belo Horizonte, general Punaro Bley, que posava de democrata, havia cometido arbitrariedades como interventor capixaba.

Publicada a reportagem, que teve grande repercussão, o general foi ao jornal, discutiu acaloradamente e partiu para o confronto físico com o diretor José Maria Rabelo, lutador de judô. Guy de Almeida, que estava naquele momento uns seis andares acima, no mesmo prédio, a preparar o lançamento do Correio de Minas, foi chamado às pressas. Quando chegou ao campo de batalha, ainda viu o fotógrafo Antônio Cocenza tirando fotos do general com o rosto ferido.

Elas foram publicadas com destaque por vários jornais nacionais, recorda Guy. O substituto do general Bley, Carlos Luís Guedes, por coincidência, foi quem, em 1964, expediu a ordem para que fossem presos Guy e Rabelo. Este último conseguiu fugir antes da chegada dos militares. Guy, que não teve a mesma sorte, participava ativamente da campanha contra as mineradoras estrangeiras, desde seus tempos em “O Diário”. Era essa uma antiga luta política no Estado. Tanto, que o presidente Arthur Bernardes criticou a situação, com frase que se tornou conhecida: “Minas exporta mineiros e minérios”. O minério saía sem deixar nenhuma riqueza para trás. Já os mineiros, saíam em busca de emprego.

Havia apelo político nesta luta, tanto que o governador Magalhães Pinto parecia simpático a ela. Pouco antes do golpe de 64, Nascimento Brito determinou a Guy que não escrevesse mais contra a Hanna. O diretor do jornal havia percebido a gravidade do clima em Minas. No dia 27 de fevereiro, quando houve a grande manifestação contra Jango na sede da Secretaria da Saúde, Nascimento Brito e Guy de Almeida almoçavam com Magalhães Pinto no Palácio da Liberdade. Guy precisou sair no meio do almoço, para organizar a cobertura do evento no Diário de Minas e na sucursal do Jornal do Brasil. O Diário de Minas estava arrendado ao JB e atravessava boa fase.

Dez dias depois do golpe, o diretor da sucursal mineira foi preso e levado para a Penitenciária Agrícola de Neves, onde ficou por alguns dias. Solto, Guy não gozou por muito tempo a liberdade. A segunda prisão durou cerca de três meses. Na saída, foi demitido dos dois jornais, que não lhe deram qualquer assistência jurídica. O jornalista livrou-se de prisão mais prolongada porque, após o Ato Institucional nº 2, caiu na clandestinidade. Em 1966, após ser condenado à revelia pela Justiça Militar, refugiou-se na embaixada do Chile, que o tirou do Brasil. A família só se juntou a Guy um ano depois.”

Recorro agora ao jornal mineiro “O Tempo”, que, no dia 3 deste mês, publicou artigo sobre sua morte. Informa que Guy, quando exilado, atuou na agência de notícias Inter Press Service, no Chile, e no Peru foi assessor de comunicação do Grupo Andino.

De volta a Belo Horizonte, dirigiu o jornal “Diário do Comércio” e coordenou a criação da TV Minas, no governo Tancredo Neves. “O último trabalho do jornalista foi na coordenação do Projeto Mercosul, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), onde ficou até o ano de 2002”, informa “O Tempo”.

Ele teve entre seus discípulos o filho Artur Almeida, que foi apresentador da TV Globo Minas, e morreu em 2017, aos 57 anos, depois de uma parada cardíaca. Guy deixa esposa, quatro filhos e oito netos.

E muitas lições de vida.

Assista ao vídeo que a TV Assembleia fez sobre Guy de Almeida, em 2002:

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Por José de Souza Castro

Jornalista mineiro, desde 1972, com passagem – como repórter, redator, editor, chefe de reportagem ou chefe de redação – pelo Jornal do Brasil (16 anos), Estado de Minas (1), O Globo (2), Rádio Alvorada (8) e Hoje em Dia (1). É autor de vários livros e coautor do Blog da Kikacastro, ao lado da filha.

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