Fritz, 68

(À esquerda. Foto é arquivo pessoal, que tirei agora do site do JB, www.jb.com.br)

(À esquerda. Foto é arquivo pessoal, que tirei agora do site do JB, http://www.jb.com.br)

Conheci o Fritz Utzeri quando comecei a ler jornal diariamente. E meu primeiro jornal foi o JB, que hoje se tornou só um site, depois alternado com a Folha. Também pela mesma época, o Fritz colaborava com O Pasquim 21, uma tentativa do Ziraldo e do Jaguar de resgatar o velho Pasquim, com os que restavam vivos daquela época. Faz tanto tempo, que a Dora Kramer ainda escrevia na página 2 do JB. E o Fritz era meu colunista favorito.

Não me lembro mais em que contexto, mas teve uma época em que enviei um email para ele. Se não me engano, foi pelos idos de 2001, quando comecei a escrever artigos e enviar em sistema de “newsletter” para as pessoas, por email, antes de fazer meu primeiro blog, em 2003 (época, aliás, em que a blogosfera só engatinhava). Devo ter mandado minhas newsletter para o Fritz no meio dos outros e, jornalista humilde que ele era (os bons de verdade são sempre humildes — algo que alguns coleguinhas deveriam aprender cedo), ele nunca reclamou e acho até que chegou a responder àquela colegial que queria ser jornalista.

Até que, em 2004, ele me mandou um email. Anunciava a criação do seu “Montbläat”, ele já fora do JB. Era um jornalzinho escrito e diagramado pelo Fritz, em formato Word (muito depois, em PDF), e enviado por email a uma assinatura de R$ 10 mensais. Eu fui uma de suas primeiras assinantes e fiquei feliz por fazer parte desse sistema, que torcia para dar certo, em tempos de crise nas grandes Redações. Ele falava mal do FHC, mas também falava mal do Lula. Era, afinal, da mesma escola do meu pai (e dos pasquineiros), que aliás tem a sua idade, e que me ensinou que jornalista tem que ser apartidário de verdade e bater em todos, mas ainda mais especialmente na situação, simplesmente por ser a situação e deter o poder e o orçamento.

O Montbläat, que tinha o apelido carinhoso de Mont, nunca atrasava. Chegava semanalmente, às vezes com mais de 50 páginas, com textos de política, mundo, cultura. Com colaboradores preciosos, como Leonardo Boff. E uma diagramação que lembrava muito a do site do JB que eu lia na minha pré-adolescência.

Na edição 330, em abril de 2009, ele teve que ser interrompido, porque não estava dando o retorno devido ao Fritz, que escreveu sobre isso: “[O preço] inviabilizou nosso samitzat, primeiro porque ele não fechava com os donos da verdade o que nos levou a perder muitos leitores, depois porque os custos foram subindo, inclusive os do site que passou a abrigar e reproduzir o jornalzinho, mas que – contrario às nossas expectativas – não contribuiu para multiplicar a adesão a esta folha, que assim se tornava cada vez mais “cult”, marginal.”

Desiludido com o projeto, Fritz criou um blog e disponibilizou todos os 330 números do Mont de graça, pra quem quisesse ler. Nem o blog lhe deu o devido retorno, agregando mais leitores, nesses tempos em que, já em 2009, os blogs estavam em seu auge e todo mundo tinha um.

Mesmo assim ele não desistiu. Menos de um ano depois, em janeiro de 2010, anunciava um piloto do novo Montbläat. Foram sete edições piloto, até a volta definitiva, com a edição 331, em junho de 2010, com assinatura mensal de R$ 15 ou trimestral de R$ 40, com 40 páginas, e uma manchete sobre a então candidata Dilma Rousseff (ele fez tudo certinho, até comprou a foto de capa do “O Globo”, a R$ 200, uma fortuna para um projeto nesses moldes). Naquela edição, ele também colocou 21 propostas para mudar o Brasil, que vou reproduzir aqui no blog, no post de amanhã.

E assim foi indo, um Mont atrás do outro, sem cancelamentos ou atrasos. Tenho quase todos guardados, a partir do 331. Em julho de 2011, já lutando contra o linfoma que o matou ontem, Fritz enviou um email só sobre a doença. Ele queria corrigir a informação de que terminaria com o Mont na edição 400. Mudara de ideia e, não só não terminou, como a edição 400 veio com nada menos que 80 páginas. Não perdeu o humor nem nesse email:

“Caro leitor. Vou continuar lutando (o Linfoma retornou mais agressivo) e decidi que não vou mais acabar com o nosso jornalzinho.O Mont vai sair amanhã (atrasado). Fiz quimioterapia três dias seguidos (quinta, sexta e sábado), mas eu sou resistente…
(…)
Os resultados do último PET-CT que fiz foram muito ruins. Não só o linfoma voltou, mas voltou muito mais agressivo, já tendo desta vez atacado a medula e os ossos. Eu desconfiava da volta do bicho, mas não podia imagina a força com que retornou. E isso apenas três meses após o término da quimioterapia e do último PET que indicava a remissão total do tumor.
Remissão, não cura, porque sempre podia haver (como houve), uma célula safadinha pronta para nova briga. Pelo jeito é mesmo um câncer tinhoso, mas o médico afirma que é tratável. Devo começar uma nova quimioterapia para limpar a medula e depois fazer um transplante autólogo (de mim mesmo). Vou brigar enquanto puder manter um mínimo de dignidade. Bola pra frente que a batalha foi perdida, mas a guerra continua.
E o Montbläat com isso?
Bem, o fechamento é um ato de morte sublimada (que me perdoem os psicanalistas), mas o linfoma torna muito difícil separar-me dos amigos. Fechar, a esta altura, equivaleria a uma renúncia, uma pré-morte, e neste momento não tenho o direito de renunciar a nada. Sigo em frente, não vou dramatizar; o tom não muda e a única coisa que não posso garantir de antemão é a regularidade dos sábados (vai depender de minha reação ao tratamento, que não conheço e que inclui anticorpos monoclonais contra a proteína maligna C-20, que existe nos linfomas não Hodgkin, os mais agressivos). Diante disso, o Mont passa a ser necessário, essencial, para mim. O silêncio não me faria bem. Não vou partir para novos projetos, como pretendia, mas continuarei tocando tudo o que estou fazendo na esperança de que ainda me lembrarei disso como uma coisa desagradável por um lado, mas agradável por outro, devido ao carinho e solidariedade dos meus amigos.
Um grande abraço.”

Por esse email é possível entender a importância que o Mont teve na vida do Fritz. Por isso acho injusto que alguns obituários tenham deixado o projeto de lado, como se fosse menos importante que a carreira dele no JB, na TV Globo e no jornal “O Globo”. Não foi. Ele tocou o barco, sem patrocínio, por oito anos, só encerrando no número 447, no Natal do ano passado, já com a doença em estágio avançado.

Li duas belas homenagens ao Fritz, que recomendo aqui. De seus amigos Rui Daher e Sérgio Fleury (e AQUI). O JB homenageou seus furos, vencedores do maior prêmio de jornalismo do Brasil, o Esso.

Eu fui uma leitora tardia, nascida na época errada, em que os jornais estão cada dia menos investindo em boas investigações. Mas fico feliz por ter “conhecido” o Fritz e sido uma das primeiras assinantes de seu Montbläat, que eu nunca soube se deu certo para ele, em termos financeiros, ou se ele só mantinha pela satisfação de poder continuar escrevendo seus textos críticos e bem-humorados. Perdem os que nasceram mais tarde ainda que eu…

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4 comentários sobre “Fritz, 68

  1. Cris, o Fritz ficaria muito feliz se pudesse ler este seu texto. Fiquei emocionado. Não sabia dessa garra dele em manter vivo o Montbläat enquanto ele mesmo morria. Deve ter sido triste para ele – bem mais que para mim, que desertei antes – assistir à morte lenta do JB da Condessa Pereira Carneiro. E ele não quis ver a mesma coisa acontecer ao Montbläat. Que também li, mas sem a persistência de vocês dois. Coisas da vida…

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      • De Elio Gaspari, na Folha de S. Paulo de hoje:
        [http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/92502-o-reporter-riu-por-ultimo.shtml]
        “O repórter riu por último
        A História, essa trapaceira, fez mais uma. Foi-se o repórter Fritz Utzeri que, em outubro de 1978 publicou, junto com Heraldo Dias, uma reportagem de três páginas no caderno especial do “Jornal do Brasil” intitulada “Quem matou Rubens Paiva?”. Fritz foi-se no dia em que a Comissão da Verdade endossou a exposição da farsa do desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva.”

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