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Mayrink, grande repórter, morre aos 82 anos (1938-2020)

Texto escrito por José de Souza Castro:

José Maria Mayrink no santuário do Caraça, em Minas. Foto: Reprodução / Facebook de Mônica Mayrink, em que ela escreveu: “Lutou como um guerreiro. Descansa agora como um anjo. Por toda a sua generosidade, caráter e fé, temos a certeza de que hoje é dia de festa no céu!”

O jornalista mineiro José Maria Mayrink, que morreu aos 82 anos de câncer, faltando dois dias para este Natal, teria muito do que se orgulhar das reportagens que escreveu. Já em 1971, ele conquistou o cobiçado Prêmio Esso de Jornalismo. Nos dois meses em que trabalhamos juntos na sucursal do “Jornal do Brasil”, em meados daquela década, nunca ouvi dele menção a algum trabalho seu que pudesse ser interpretado como um autoelogio. Mas, em outubro de 2018, o Estadão publicou uma reportagem dele com o título: “Eu entrevistei um santo”.

Nessa reportagem, Mayrink noticia a canonização pelo papa Francisco do arcebispo de San Salvador, na América Central, tornado santo pelo papa Francisco em cerimônia em Roma. Ex-seminarista e grande conhecedor da Igreja Católica, expertise reconhecida pelos muitos jornais em que trabalhou, Mayrink havia entrevistado o arcebispo no dia 21 de março de 1980, uma sexta-feira.

San Salvador vivia em meio a um conflito político no qual, durante 13 anos de guerra civil, morreram 75 mil pessoas. Uma das perguntas que o repórter fez ao futuro Mártir das Américas é se dom Óscar Arnulfo Romero Galdamez, 62 anos, não tinha medo de ser assassinado. Três dias depois, o entrevistado foi morto com um tiro no peito, quando celebrava missa. Um pistoleiro a mando de um líder da extrema-direita local fez o disparo contra aquele que, em San Salvador, defendia com denodo os direitos dos pobres e perseguidos.

Num episódio extremamente menos importante, eu conto, no livro “Sucursal das Incertezas”, disponível na Biblioteca do Blog, como eu vim a trabalhar com Mayrink.

O diretor Acílio Lara Resende ficou sabendo que Mayrink queria voltar a Minas, depois de anos trabalhando em São Paulo. Não hesitou em convidá-lo, pois queria ter na sucursal mineira do JB jornalistas conhecidos nacionalmente. Depois do chefe da redação, o melhor salário era o meu, e foi para o meu lugar que ele foi contratado como chefe de reportagem.

O livro “Vida de Repórter”, de José Maria Mayrink.

Fiz bem em não reclamar, pois aprendi muito com Mayrink. Dois meses depois, ele voltou a São Paulo, para trabalhar na sucursal do JB, e eu retornei ao cargo de chefe de reportagem, mais bem preparado. Em 2002, no livro “Vida de Repórter”, José Maria Mayrink fala da experiente equipe de jornalistas que encontrara na sucursal: Eduardo Simbalista, Jadir Barroso, Gutemberg da Motta e Silva, Luiz Fernando Emediato, Chico Pinheiro, Maurício Pessoa, Cláudio Arreguy, Maurílio Torres… e eu, que dois anos depois fui promovido pelo Acílio a chefe da redação. Como disse, aprendera bem convivendo com Mayrink.

E, nos anos seguintes, mantive o hábito de ler as reportagens dele no JB e no Estadão, além de alguns de seus livros: “Solidão” (1983); “Filhos do Divórcio” (1984); “Anjos de Barro” (1986); “Os Bastidores da Imprensa Brasileira” (1992), com Carmo Chagas e Luiz Adolfo Pinheiro; “Vida de Repórter” (2002); “1968 – Mordaça no Estadão” (2008).

Nascido em Jequeri, na Zona da Mata, Mayrink era casado com Maria José Lembi Ferreira Mayrink e tinha quatro filhas: Cristina, Mônica, Luciana e Juliana. Seu pai era médico e a mãe professora, como conta em “Solidão”, livro de 1983 com prefácio de Henfil.

A maioria dessas informações eu li nessa reportagem do Estadão. Trechos:

“Muito antes de fazer carreira nas redações, Mayrink entrou, aos 13 anos, no seminário de Mariana, no interior de Minas. Depois foi transferido para o santuário do Caraça, onde completou o colegial e para o qual, sempre que podia, retornava com a família para curtir o sossego da reserva natural e as visitas do lobo guará que costuma passear à noite pelo santuário. Apreciador de uma boa prosa, o jovem Mayrink foi depois para Petrópolis (RJ), onde fez filosofia e também dois anos de teologia. Nessa época, 1960, escreveu seu primeiro livro, “Pastor e Vítima”, usando o pseudônimo de Augusto Gomes, nome de família de sua mãe.”

“Durante a vida nas redações pelas quais passou – revistas Três Tempos, Alterosa, Família Cristã e Veja, jornais Diário de Minas, Correio da Manhã, O Globo e Jornal do Brasil, além do Grupo Estado, para onde retornou em 2000 como repórter especial e no qual permaneceu até hoje -, foi também editor. Mas gostava mesmo era do contato direto com as fontes de informação em campo. Testemunha profissional de seu tempo, sempre com o olho apurado da coleta de dados e informações para os leitores, defendia a máxima segundo a qual ‘lugar de repórter é na rua'”.

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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