Bem-vindo de novo, Lula! Bem-vindo, ano novo!

Lula com a faixa presidencial recebida de FHC, em 2002.
Lula com a faixa presidencial recebida de FHC, em 2002. Foto: PR / Divulgação

Com o ano de 2023 (finalmente) começando, Bolsonaro em breve voltando à irrelevância política que sempre ocupou, e Lula assumindo a presidência da República pela terceira vez, resolvi deixar de lado os posts com fotos de fogos de artifício e mensagens gerais de amor e esperança ou de otimismo, típicos do dia 1º de janeiro.

Bolsonaro ficou pra trás – já vai tarde! E a pandemia também arrefeceu, pelo menos por enquanto. Então minha mensagem de hoje vai direto para Lula, que, aos 77 anos, resolveu aparecer para dar uma mãozinha para o Brasil de novo.

Bem-vindo de volta, Lula! Bem-vindo, ano novo!

Mas, ó: não vai ser nada fácil reconstruir o Brasil depois de quatro anos de desmonte e depois das loucuras divulgadas esse tempo todo. Não é à toa que teve gente até pedindo ajuda para E.T.s: muitos realmente parecem ter perdido a sanidade mental ao longo desse processo.

Por isso, resolvi reproduzir aqui hoje a carta que escrevi ao Lula no dia 28 de outubro, antes de ele sair vitorioso no segundo turno das eleições. Só fiz algumas adaptações ao texto, já atualizando ele para o contexto atual – de presidente diplomado e empossado, e não apenas mais um candidato em disputa.

Tomara que a mensagem chegue ao destinatário! 😉

Meu caro Lula,

Escrevo ao sr., presidente que teve meu voto, para alertar que o desafio desta vez vai ser bem maior do que foi há quase 20 anos.

Naquela época, um democrata, que era o FHC, te entregou a faixa presidencial.

As discussões eram saudáveis e pautadas em propostas e visões de mundo para quem fosse assumir a administração pública. Os temas em alta eram, por exemplo: privatizações, reforma agrária, cotas, reformas tributária e previdenciária, controle da inflação etc.

Agora, depois do 2022 da radicalização formada pelos algoritmos das redes sociais, pelo fundamentalismo religioso que assumiu os discursos políticos e pelo recrudescimento da extrema-direita em todo o mundo, fomentado pela turma de Donald Trump e Steve Bannon, as pautas parecem vindas de filmes de ficção científica distópicos: Terra plana, negacionismo científico, discurso antivacina, a volta do comunismo, e assim por diante.

Retrocedemos não 50 anos, como escrevi dia desses: em alguns momentos me vejo de volta à Idade Média, que terminou seu período sombrio há 500 anos.

Desta vez, meu caro Lula, o pessoal parece achar que o sr. vai assumir a presidência e automaticamente liberar todas as drogas (como se isso não fosse uma pauta para o Congresso), substituir livros de matemática pelo Kama Sutra e, claro, não nos esqueçamos disso: “transformar o Brasil numa Venezuela” – seja lá o que isso signifique para essa turma que acredita em mensagens apócrifas de WhatsApp.

O que me intriga é que o sr. não é um desconhecido vindo de Marte há dois meses: não, é um sujeito que faz política no Brasil desde a década de 1970, que esteve à frente da Presidência da República durante oito anos, e saiu dela com recorde de aprovação, de 87%.

Mas é querer demais que as pessoas se lembrem de como era o Brasil e o que o sr. fez em sua gestão, entre 2003 e 2010. Afinal, elas parecem já ter se esquecido do que Jair Bolsonaro fez outro dia mesmo, durante o auge da pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2022.

Se esqueceram dele:

Charge do Duke mostra Bolsonaro falando "E daí?" em cima de vários cadáveres, pessoas mortas pela Covid-19.
Charge do Duke que entrou pra história, assim como a frase disparada por Bolsonaro quando perguntado sobre os mortos por Covid-19 no Brasil.

Como esse pessoal pode ter se esquecido de coisas que viveram tão recentemente? Será que a lavagem cerebral foi tão eficaz assim? Ou as pessoas é que não têm caráter mesmo? Isso também me intriga.

Enfim, talvez jamais saberemos o que motiva essas pessoas*. O que o sr. deve saber é que uma parcela bem grande da população pensa desta forma sobre o sr., seja usando o discurso religioso, seja repetindo fake news absurdas sobre ideologia de gênero e afins, seja se apoiando no discurso da corrupção (como se não tivéssemos vivido o maior esquema de corrupção “de que se tem registro no país”, nas palavras da Transparência Internacional, durante o governo Bolsonaro – o Orçamento Secreto).

Governar nos próximos quatro anos não será fácil. Para cada política bacana que o sr. conseguir implementar, dez “mamadeiras de piroca” serão inventadas no zapzap.

Ou seja, o sr. não terá de lidar apenas com uma imprensa pouco crítica (ou mal-intencionada mesmo) que cobriu as decisões de um juiz que, na primeira oportunidade, virou ministro de Bolsonaro, e cobriu PowerPoints mentirosos, sempre como se fossem verdade incontestável – e tenho certeza que os R$ 75 mil que Dallagnol foi condenado a indenizar ao sr. não pagam nem um décimo da afronta daquela cobertura.

Agora terá de lidar também com esses mecanismos mais modernos de disseminação de mentiras, com uso de deep fake e outras tecnologias perversas.

Minha esperança é que, fora do poder, o clã Bolsonaro, que é quem mais financia a disseminação de fake news no Brasil, vá voltando para a irrelevância política que ele sempre ocupou nas duas décadas em que o patriarca esteve no baixo clero da Câmara. Vá voltando a ser apenas chacota do CQC.

Charge de Claudio Mor publicada na "Folha de S.Paulo" em 28/10/2022: Bolsonaro em frente ao Palácio do Planalto, em chamas, dizendo: "O que será que vou aprontar hoje?" ao lado de uma placa que diz: "Estamos há ZERO dias em tumultuar as eleições"
Charge de Claudio Mor publicada na “Folha de S.Paulo” em 28/10/2022

E que a política volte a a se pautar em temas relevantes para o Brasil, e não em coisas inventadas apenas para disseminar medo e ódio.

O sr. terá a tarefa ainda mais colossal de re-unir o Brasil, meu caro Lula. De re-unir famílias rachadas por brigas malucas, re-unir o Congresso Nacional, re-unir empresariado e trabalhadores em torno de pautas importantes para a economia e a sociedade, re-unir os colegas e amigos em torno dos churrascos regados a cerveja e picanha.

Esta será sua maior missão – que não é messiânica, é bem humana –, e está diretamente ligada ao maior motivo que uniu uma grande coalizão em torno da sua candidaturaa manutenção do sistema democrático.

Eu confio na sua capacidade para fazer isso, porque o sr., melhor do que ninguém, sabe fazer política. E sabe fazer isso de forma pacífica, sem discursos de ódio, sem apelar para fuzis e granadas ou para ameaças desesperadas de golpe. Quem sai de um mandato com quase 90% de aprovação certamente tem o dom da reunião e da pacificação das pessoas em torno de objetivos comuns.

(E agradeço ao sr. por ainda topar fazer isso aos 77 anos.)

Mesmo confiando em sua capacidade, te desejo muita sorte nos próximos quatro anos.

Boa sorte para todos nós! E um bom 2023!

Ass.: Cristina Moreno de Castro

 

Dois filmes ajudam nesta reflexão, ambos baseados em fatos reais: “A Onda” e “O Experimento do Aprisionamento de Stanford“. Recomendo.


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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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