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O céu da boca e os mistérios do corpo humano

Céu da boca. Foto: Owen Lu / Unsplash

 

Céu da boca. Eis um dos nomes mais bonitos para designar uma parte do corpo humano. Pois foi bem no meio do meu céu que surgiu uma ferida há mais ou menos um ano.

Ela não crescia nem diminuía. Tinha dia que nem me incomodava, mas muitas vezes coçava, coçava, coçava.

Passei a pomada indicada pela dentista, e nada. Resolvi deixar pra lá. “Uma hora some”.

Mas chegou dezembro, janeiro, fevereiro, e lá estava ela, no mesmo lugar. Em março, resolvi tentar descobrir o que era com um dentista especializado. Começo de abril, lá fui eu ser examinada. Ele olhou, esfregou, apertou (“dói?”) e não chegou a nenhuma conclusão.

– Lembra de ter machucado no lugar? Batido alguma coisa ali?

– Não. Surgiu do nada.

Céu da boca em desenho de Fellipenet

– Fuma?

– Não, nunca fumei.

– Toma algum remédio?

– Não.

– Vamos marcar um retorno porque teremos que fazer uma biópsia pra descobrir o que é.

Biópsia. Palavrinha chata, que a gente logo associa a outra bem pior: “tumor“.

Mas a pandemia veio com força, o dentista parou de atender, eu passei a sair de casa só para ir ao trabalho, e a biópsia foi deixada pra depois.

O céu da boca (ou “palato”, para os dentistas) continuou, no entanto, com a mesma marca vermelha de um centímetro, coçando e incomodando.

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Passou maio, junho, julho, agosto, e ela continuava lá, intacta. Nem maior, nem menor. Irritante.

Pedacinho do céu da boca embebido em formol. Foto: CMC

Em setembro, voltei a procurar o dentista. Agora a biópsia foi marcada. Trabalhei o dia inteiro, fui pro consultório no fim da tarde, o cirurgião deu anestesia local, levou uns sete minutos para arrancar um pedacinho do meu céu, achou melhor não dar ponto, me deu um sorvete pra estancar o sangue, e me entregou a lasca de tecido dentro de um potinho, embebido em formol.

Lá fui eu na mesma tarde para o laboratório, potinho em mãos, com o pedacinho do céu da boca dentro. A boca, propriamente dita, com um buraco no alto e gosto de sangue. “Resultado sai em uma semana”, disse a moça do laboratório, que passou o cartão no débito.

Toquei a semana cuidando do meu céu da boca, tentando lembrar de não coçar o buraco com a língua, tomando sorvete e comendo comidas moles.

Eis que chega o dia do resultado, eu abro o documento e… não entendo nada que está escrito lá. Bom, mas tumor parece que não tem.

O céu da minha boca logo depois da biópsia e de um potinho inteiro de sorvete de morango.

Já se passaram dias e não sei o que causou a tal ferida, nem o dentista chegou a uma conclusão. O sangue estancou logo na primeira noite, o buraco está cicatrizando bem, a ferida está coçando menos do que antes da biópsia, mas… continua exatamente lá, no mesmo lugar, e com o mesmo tamanho aproximado de um ano atrás.

Para mim, a moral da história é: alguns mistérios do corpo humano a gente não descobre nem quando gasta um dinheirão, se submete a procedimento cirúrgico e bota cientista pra examinar. Um ano depois, estou agora com um buraco no meu céu e tão sem respostas quanto no começo da minha saga.

 


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

4 comentários em “O céu da boca e os mistérios do corpo humano Deixe um comentário

  1. Oi, Kika! Tudo bem? Minha tia teve os mesmos sintomas que você: uma ferida que não fecha no céu boca que não cicatrizava de jeito nenhum. Minha recomendação é marcar uma consulta com um médico de cabeça e pescoço (oncologista), pois pode ser sim um câncer de boca em estágio inicial. Leve para ele a biopsia. Ás vezes, pode ser algo tratado com medicação. Vá no posto de saúde, converse com o clínico e pegue uma indicação de consulta para a Santa Casa BH. Lá tem os melhores médicos que eu conheço sobre esse assunto. Mesmo se não for câncer de boca, pelo menos você já elimina essa possibilidade com um corpo clínico que conhece de perto esse tipo de tratamento. Infelizmente, são poucos médicos particulares que vão conseguir te dar um diagnóstico preciso. No SUS você tem muito mais chance de ter eficácia no tratamento, por incrível que pareça. Abraços

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  2. E eu cá não estou percebendo se o “Céu da Boca” seja ou não ficção, mas posso afirmar que tua forma de escrever é deliciosa. Eu não escreveria assim. Meu Noite em Paris é cheio de termos que fazem dormir. Parabéns.

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