“Ameaça de morte no clube”

piscina

Manhã de muito sol, clube cheio em Belo Horizonte. (Mineiro não tem mar, mas tem piscina, tá?) Crianças brincando na água enquanto os mais velhos caminham pra lá e pra cá na piscina, num exercício pouco exigente. Picolés, açaís, refris, sucos, cervejas. Bebês brincam ao sol. As crianças mais velhas já se aventuram no parquinho. Grávidas fazem muito xixi, a todo momento. Adolescentes desfilam. Famílias conversam — é domingo, dia de reunir a família.

Eis que um homem de seus 70 anos passa perto de todos, esbravejando ao celular:

— Eu vou te matar! Vou agora pegar o revólver lá em casa e VOU TE MATAR!

Silêncio constrangedor. Todos ficam com um certo medo do homem, mas também muito curiosos. O silêncio é um pouco pelo susto, outro tanto pela vontade de aguçar os ouvidos e entender a conversa.

— Você ameaçou minha filha, é? Então VOU TE MATAR AGORA!

Uma mulher, que está perto dele, pode ser a filha em questão. Não se sabe se ela tenta acalmá-lo ou se o incentiva nas ameaças à pessoa que, antes, a ameaçara. Seria seu ex-marido? Algum stalker da vizinhança? O atual companheiro, com, digamos, problemas de alcoolismo?

As cabeças do clube, antes voltadas para amenidades, agora começam a imaginar um roteiro de “Law & Order” ou de um livro da Agatha Christie (“Ameaça de morte no clube” parece título de uma das dezenas de novelas da rainha do crime). Tentamos encontrar uma justificativa para tamanho ódio contido naquelas ameaças, tão pouco adequadas ao espaço de lazer, ao domingo de sol, ao céu azul.

Onde caberiam? Numa madrugada escura e fria, num beco sujo de alguma viela deserta, com baratas, ratos e muitos latões de lixo. Lá, se surgisse um homem gritando “EU VOU TE MATAAAAAAR!” talvez não chocasse tanto a audiência. Mas ao lado do parquinho do clube?!

O homem finalmente segue seu rumos, os gritos vão se distanciando, e os pensamentos mórbidos voltam a dar lugar à conversa sobre as últimas estripulias da sobrinha de dois anos. A grávida volta a fazer xixi, a criança volta a querer nadar, o avô põe a neta mais nova no colo, os sorrisos retornam com facilidade.

E aquele pequeno drama familiar, subitamente tornado público, passa como uma nuvem apressada, que cobre o sol por um minutinho e depois se evapora, sem prejudicar o bronzeado.

(Mas eu torço para que todos estejam vivos e longe das páginas policiais pelos próximos dias, semanas e anos.)

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