
Era bem cedo e eu tinha acabado de cruzar a rua Pium-í, no Carmo, atrasada para um compromisso, quando um senhor de cerca de 50 anos me interceptou no caminho. Ele parecia bem mais atrasado que eu.
– Por favor, onde é a rua Senhora das Graças?
Eu não fazia ideia.
Ele me mostrou um papelzinho todo amassado onde tinha escrito “Piauí com Senhora das Graças”, em cuidadosa letra de forma.
O que primeiro me chamou a atenção foi o nome errado da rua. Afinal, a Piauí fica lá em baixo, muitos quarteirões depois.
– Esta é a rua Pium-í, expliquei. Ele acenou a cabeça, compreendendo a diferença.
Abri o celular e o Google Maps para ver em que altura a Piauí se encontrava com a Senhora das Graças. Busquei por “Piauí” e fui arrastando a rua com o dedo. Nada.
Falei então:
– Moço, não achei o cruzamento, mas é só o senhor descer a Pium-í e, depois que ela corta a Contorno, muda de nome pra Piauí. Só não sei quanto tempo o senhor vai andar até chegar ao cruzamento certo.
Ele agradeceu e foi embora, bolsa a tiracolo, olhar muito urgente. Estava com pressa. Claramente ia para uma vaga de trabalho no local indicado no papelzinho. E estava longe, muito longe de lá.
Foi só aí que tive o insight de buscar pela rua Senhora das Graças no Google Maps. E descobri que ela estava a dois quarteirões de distância, cortando a Pium-í! O erro estava na palavra que ele escreveu no papelzinho, e não na informação, nem muito menos no ponto de ônibus onde ele desceu. “Cris burra”. Era o sono…
Juro que não levei nem um minuto para descobrir o engano, por isso fui atrás do moço para desfazer a confusão, crente que ele ainda estaria dobrando a esquina.
Corri, mas, ao chegar lá, esbaforida, não o vi em nenhum lugar. Tinha, literalmente, voado rua abaixo, na esperança de chegar a tempo ao lugar impreciso que eu lhe indicara.
Lá embaixo, na rua Pium-í, vi um pontinho de gente com a bolsa a tiracolo. Berrei bem alto:
– MOÇOOOOO!
Ele me ouviu e se virou.
Fui descendo mais e gritando:
– TÁ PERTOOOO!
Vi o sorriso dele se abrir à distância.
Quando o alcancei, sem fôlego, expliquei:
– Era na Pium-í mesmo! É logo ali naquele sinal.
Ele se transformou na própria definição do alívio. “Obrigado. Graças a Deus”: as duas expressões saíram juntas da mesma boca. Os olhos brilhavam de esperança e de alegria.
Voltei pelo meu caminho, também alegre por ter me corrigido a tempo. E pensando: “Que ele chegue a tempo para o trabalho. Que ele consiga o trabalho.”
E também: “Nunca mais me esquecerei onde fica a rua Senhora das Graças!”
Era Dia do Trabalhador.
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