Foi quando a atendente da livraria pegou uma para retocar a marca de etiqueta removida que eu me dei conta: não uso uma borracha há ANOS!
Nem me lembro da última vez que descartei, com as costas da mão, os farelinhos que persistem na folha de papel. Talvez ainda no colégio. Ou seja, há uns 14 anos. Terei ficado isso tudo sem usar uma borracha?
Me bateu uma agonia, misturada a nostalgia de um tempo que não existe mais. O tempo em que eu enchia cadernos sem fim, com palavras escritas a lápis ou lapiseira, a letra cada dia mais feia (feiúra proporcional à velocidade com que fui aprendendo a fazer anotações), mas de forma organizada, como só fazemos na época escolar.
Como repórter, ainda escrevi, e sigo escrevendo muito, inclusive em bloquinhos de mão, mas quase sempre uso caneta. E, mesmo quando vou de lápis, não dou a mínima para os erros. Eles viram um rabisco e sigo na narrativa taquigráfica dos anotadores compulsivos, sem nenhuma preocupação com organização ou capricho. (A preocupação vem depois, quando tenho que decifrar meus garranchos a duras penas…)
E a verdade é que mais e mais me pego escrevendo no celular, pra não falar do óbvio computador. Foi-se o tempo em que eu precisava escrever a mão porque os versos fluíam mais facilmente. Agora só consigo escrever um texto se estou diante de um teclado. Como se meu cérebro estivesse na ponta dos dedos.
E aí, meu caro, é simples: errou, delete. A setinha de recuo é grande amiga dos escritores, e não deixa farelinhos, como deixava a borracha. Nem marcas de textos antigos, escritos por um pulso mais forte. O calo que havia, imenso, onde o lápis encostava no meu dedo médio, está quase imperceptível.
A borracha é metáfora para o apagar dos erros que cometemos, inclusive dos mais grotescos. Dos dias em que a gente dá um tilt e escreve elefante com h. É apagar para consertar. É aprender. Aprimorar. É esvaziar para preencher. É aproveitar. A gente comprava os livros didáticos usados na Leitura da avenida Cristóvão Colombo em todo começo de ano, lista de material escolar na mão. E depois danávamos a apagar o que alunos anteriores tinham escrito, borracha pra lá e pra cá, rios de farelinhos ficando nos rastros da mão.
Naquele tempo, eu pensava que a borracha era acessório imprescindível para tocar a vida. Que estaria sempre comigo, para ser usada todos os dias. Mas não. Passei anos sem lembrar de sua existência, até ser acordada apela atendente da livraria. Quantas outras coisas imprescindíveis da minha infância e adolescência foram deixadas para trás?
Não sei, borracha apagou.
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