O interfone

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20h10, quinta-feira. Estou em casa.

Toca o interfone.

“Uai, quem pode ser uma hora dessas?”, pergunto a mim mesma, num automonólogo.

“Será que estou esperando alguém?”, repasso as possibilidades na cabeça.

“Será alguma ONG? Pedido de pão velho?”

Toca a segunda vez. Não deve ser nenhuma campanha.

“Ah, vou fingir que não estou em casa. Fico quietinha e a pessoa vai embora.”

Espero uns segundos.

“Peraê, mas comprei um negócio pela internet outro dia! Será que o Correio passa tão tarde assim?”

Dúvida.

“Não, bah, até parece.”

Tocam de novo, terceira vez, mais insistente.

“Ih, se for entregador particular acho que passam à noite, sim. Melhor atender”.

Resignada, finalmente atendo. Era mesmo a encomenda para uma tal de Cristina Castro.

***

Toda vez que toca o interfone, tenho a mesma conversinha, tendo que me convencer a atender. Não raro, acabo cedendo a um dos argumentos e fingindo que não estou em casa (a menos que eu já esteja à espera de alguém). Só me dei conta disso nessa quinta-feira em que quase perdi o entregador.

Meio espantada, fiquei pensando quando começou essa minha ojeriza a interfones.

Não foi quando eu era criança, tenho certeza. Tocava, e eu ia correndo atender. Podia ser qualquer um da enorme família, podia ser carta, encomenda, presente, campanha, vizinho. Os vizinhos do prédio dos meus pais eram todos amigos e às vezes acontecia de um deles ter esquecido de levar a chave e pedir pra gente abrir a porta por eles. Ou então vinha falar que o portão da garagem ficou aberto etc. Interfone era bom, era um mensageiro inocente.

Então, sem dúvida, foi da minha temporada na Terra Cinza (que, engraçado, já está começando a se borrar na minha memória nebulosa). Bingo! Lá em São Paulo, dos três prédios + hotel onde morei, todos tinham porteiro. Os porteiros triavam os toques do interfone e raramente tocavam lá na minha quitinete. Só nas poucas vezes em que eu recebia os amigos em casa.

Mas não no último prédio. Ali, os toques do interfone vinham nas horas mais inusitadas, inclusive de madrugada. E era o porteiro querendo repassar para o vizinho de baixo, lunático, que vinha falar que eu estava arrastando móveis. Só com o som do interfone, eu já ficava descabelada, tremendo, e muitas vezes terminava a conversa chorando, ou aos berros. Até naquele dia em que chamei a polícia.

Só aí, mais de dois anos de volta à terrinha, eu me dei conta de algo inédito: São Paulo me fez ter trauma de interfone.

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2 comentários sobre “O interfone

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