Ela QUER melhorar; e você?

Não deixe de assistir: CAKE
Nota 8

cake

O que é viver com uma dor crônica?

Eu não conseguiria imaginar. Víamos o doutor House alegar ter dor crônica para justificar seu vício em analgésicos, mas ele estava sempre serelepe, fazendo estripulias com seu amigo Wilson, usando a bengala como uma arma — ou uma armadilha –, vez por outra.

Já o que Jennifer Aniston interpreta é outra coisa absolutamente diferente. Ela sente dores para fazer qualquer pequeno movimento e a atriz consegue passar esse sofrimento com tanta intensidade que a gente quase sente as dores por ela.

Quem diria que a atriz que se consolidou como a patricinha de Friends e depois apenas fez filmes meia-boca, estilo comédia-romântica, iria aparecer de repente com essa porrada?! Sem nenhuma maquiagem (exceto a que deixa seu rosto cheio de cicatrizes), com seus 46 anos totalmente escancarados na tela, com aquela roupa que sempre parece um camisolão, e com tamanha dor, quanta dor! Vendo ela assim, quase entendemos por que sua personagem Claire é tão cética, cínica, viciada, fechada em si mesma e absolutamente sem carisma algum. Afinal, como seríamos nós se tivéssemos que conviver com tão insuportável dor, o tempo todo?

A história se foca nessa personagem, por meio da brilhante atuação (injustamente deixada de fora do Oscar) de Jennifer Aniston, e na história que aos poucos vai se descortinando, sobre como ela chegou a esse tal ponto de trauma, físico e psicológico. Mas não é um filme de todo doloroso. Temos os momentos de leveza, muitos por conta da comovente preocupação que Silvana (baita atriz Adriana Barraza), empregada de Claire, tem com sua patroa — uma relação verdadeiramente maternal. E vemos o esforço que Claire faz para encontrar sua “razão para viver” (subtítulo acrescentado à versão brasileira do filme), que não pode ser ignorado.

Afinal, é mais fácil “acabar com tudo de uma vez” ou encontrar beleza em um furin, os singelos sinos de vento japoneses? É mais fácil se deitar em um trilho ou admitir que você fez o melhor de si, e ainda pode fazê-lo?

Um simples bolo de chocolate, desses caseiros, pode trazer alegria a muita gente. E até amenizar aquela dor que já não encontra analgésico para remediar. Pra maioria de nós, que não sofremos com todas essas dores, a mensagem é ainda mais cristalina: que tal parar de reclamar de tudo e encontrar pequenas razões para viver em alegria?

Assista ao trailer legendado do filme:

Leia também:

faceblogttblog

Anúncios

O dia em que quase fui atropelada (e as 6 lições que aprendi)

chupchup

 

Tudo era diferente quando eu era criança.

O transporte escolar não era uma van moderna, com poltronas confortáveis, cinto de segurança e até cadeirinha, no caso de crianças muito pequenas. Era um ônibus grande, do tamanho dos coletivos, com bancos duros e sem cinto, onde as crianças ficavam pulando e correndo e brincando mesmo com o veículo em movimento. O motorista, conhecido como Marreco (não sei se era sobrenome ou apelido), tinha os cabelos cacheados longos e costumava dirigir sem camisa. Sua mulher, acho que Rosângela, vendia chup-chup “sabor vermelho”, que devorávamos diariamente, sem nos preocuparmos com o fato de ficarem soltos num isopor encardido, cheio de gelo derretendo numa aguinha escura. E éramos felizes assim.

A única coisa de que eu não gostava nesse escolar era que ele sempre atrasava. Eu tinha lá meus 6 ou 7 anos de idade e ficava aflita com a perspectiva de perder o começo da aula. Já era uma criança responsável e já não gostava de me atrasar, desde aquela época. Todos os dias, eu ficava lá numa esquina a um quarteirão de casa, para ajudar o Marreco e poupar o tempo dele com voltas desnecessárias, e ele sempre atrasava alguns minutos.

Num desses dias, ele atrasou mais do que o normal. Eu já estava angustiada, porque a aula começaria em instantes, e nada de o Marreco virar a esquina. Quando finalmente vi o ônibus aparecer, saí correndo em direção a ele, atravessando a rua sem olhar se vinha carro. E vinha. O carro (seria demais lembrar de que marca, modelo ou cor) parou a centímetros de mim, numa freada brusca e barulhenta, dessas que fazem as janelas dos prédios próximos se abrirem, com curiosos.

O motorista, lá pelos seus 50 anos, saiu do possante aos berros, xingando a mim ou ao adulto que devia estar me acompanhando à espera do escolar, já não me lembro quem. “BLABLABLABLABLABLA…!” Não capturei nem uma palavra do que o homem disse, tamanho meu estado de choque. Eu estava paralisada. Na verdade, só consegui apreender um dos gritos: “Deus!” Teria dito que só não morri por forças divinas? Ou que graças a deus que o freio do carro funcionou direitinho? Ou que deus tenha misericórdia de minha pressa e afobação? Só sei que ele estava bravíssimo: comigo, com meu acompanhante ou com o Marreco descamisado, não sei ao certo.

Entrei no ônibus aos prantos e passei toda a viagem para a escola chorando, sendo adulada pelos amiguinhos. Acho até que ganhei um chup-chup de graça, como consolo.

Com esse meu trauma de infância, de que recordo quase nitidamente mais de 20 anos depois, aprendi seis lições: que, quando sobrevivemos, temos que ouvir um sermão para compensar; que crianças têm grande temor a/de deus; que o transporte escolar não era tão seguro assim; que a pressa não vale a pena; que um chup-chup e um monte de amigos falando palavras doces são ótimos para acalmar um susto; e, sobretudo, que, mesmo quando estamos errados, o pedestre é sempre a vítima.

escolar

Leia também:

O interfone

interfone2

20h10, quinta-feira. Estou em casa.

Toca o interfone.

“Uai, quem pode ser uma hora dessas?”, pergunto a mim mesma, num automonólogo.

“Será que estou esperando alguém?”, repasso as possibilidades na cabeça.

“Será alguma ONG? Pedido de pão velho?”

Toca a segunda vez. Não deve ser nenhuma campanha.

“Ah, vou fingir que não estou em casa. Fico quietinha e a pessoa vai embora.”

Espero uns segundos.

“Peraê, mas comprei um negócio pela internet outro dia! Será que o Correio passa tão tarde assim?”

Dúvida.

“Não, bah, até parece.”

Tocam de novo, terceira vez, mais insistente.

“Ih, se for entregador particular acho que passam à noite, sim. Melhor atender”.

Resignada, finalmente atendo. Era mesmo a encomenda para uma tal de Cristina Castro.

***

Toda vez que toca o interfone, tenho a mesma conversinha, tendo que me convencer a atender. Não raro, acabo cedendo a um dos argumentos e fingindo que não estou em casa (a menos que eu já esteja à espera de alguém). Só me dei conta disso nessa quinta-feira em que quase perdi o entregador.

Meio espantada, fiquei pensando quando começou essa minha ojeriza a interfones.

Não foi quando eu era criança, tenho certeza. Tocava, e eu ia correndo atender. Podia ser qualquer um da enorme família, podia ser carta, encomenda, presente, campanha, vizinho. Os vizinhos do prédio dos meus pais eram todos amigos e às vezes acontecia de um deles ter esquecido de levar a chave e pedir pra gente abrir a porta por eles. Ou então vinha falar que o portão da garagem ficou aberto etc. Interfone era bom, era um mensageiro inocente.

Então, sem dúvida, foi da minha temporada na Terra Cinza (que, engraçado, já está começando a se borrar na minha memória nebulosa). Bingo! Lá em São Paulo, dos três prédios + hotel onde morei, todos tinham porteiro. Os porteiros triavam os toques do interfone e raramente tocavam lá na minha quitinete. Só nas poucas vezes em que eu recebia os amigos em casa.

Mas não no último prédio. Ali, os toques do interfone vinham nas horas mais inusitadas, inclusive de madrugada. E era o porteiro querendo repassar para o vizinho de baixo, lunático, que vinha falar que eu estava arrastando móveis. Só com o som do interfone, eu já ficava descabelada, tremendo, e muitas vezes terminava a conversa chorando, ou aos berros. Até naquele dia em que chamei a polícia.

Só aí, mais de dois anos de volta à terrinha, eu me dei conta de algo inédito: São Paulo me fez ter trauma de interfone.

interfone3

Leia também: