Todo mundo está acompanhando com atenção e um certo choque a história do sujeito que pegou a arma, atirou contra um casal de vizinhos e depois se matou, na Grande São Paulo. O que eu mais li a respeito foi que o assassino viveu um “dia de fúria” (como no filme) ou que “faltou contar até dez” (o que foi agravado pelo fato de ele ter uma arma de fogo em casa, algo que condeno veementemente). O governo de São Paulo até resolveu agora adotar uma campanha com esse mote, lançada há seis meses pelo Conselho Nacional do Ministério Público.
Tenho minhas dúvidas se esse crime se resume ao “estouro” eventual de uma pessoa, que, aliás, diz-se que foi agravado pelo fato de ele enfrentar uma doença grave, com uso de vários remédios fortes.
Acho que vivemos uma situação muito mais grave, um problema generalizado. Vicente D’Alessio está bastante longe de ser exceção.
Não tenho dados – sugiro que os repórteres de polícia os busquem junto às Secretarias de Segurança Pública, embora elas raramente divulguem informações com tanto nível de detalhamento –, mas tenho minha percepção. A ela:
1- Entre 2011 e 2012, fui surpreendida por interfones insistentes e agressivos do meu vizinho do andar de baixo, me acusando de fazer “muito barulho”, “insuportável” (outras expressões que surgem com frequência nesse noticiário). Ele dizia que eu arrastava móveis, em plena madrugada. Em uma das vezes que ele interfonou, eu estava deitada lendo, em outra eu estava dormindo, houve vezes em que eu estava sentada no sofá da sala, comendo pipoca e vendo um filme, em volume baixo, às 21h de um domingo. Sempre sozinha, longe de estar dando uma festa. Passei a viver refém do meu vizinho: andava descalça em casa, ouvia a TV baixíssimo, tinha crises de choro e de nervoso a cada vez que recebia as reclamações injustas. A propósito, eu mesma nunca ouvi barulho nenhum no prédio na hora em que ele reclamava de mim. Relatei essa situação pessoal aqui no blog, seguindo seu nível de agravamento: quando eu achava que era só mau-humor, quando comecei a achar que o vizinho era louco, quando tentei resolver o problema falando com ele, quando pensei ter resolvido o problema, enviando uma carta com cópia para o síndico e a administradora. Não foi ainda daquela vez: no último embate que tivemos, chamei a polícia, o levei à delegacia, registrei um boletim de ocorrência não-criminal contra ele. O síndico e o porteiro foram por livre e espontânea vontade testemunhar a meu favor, e contaram ao delegado que aquele senhor já tinha reclamado contra moradores anteriores, que, assim como eu, não faziam barulho. Eu teria levado às últimas consequências, de acionar a Justiça, se tivesse continuado morando em São Paulo. Mas fugi daquela vida antes de isso ser necessário. Ficam as dúvidas: se eu tivesse continuado morando ali, com essa briga a partir de um barulho imaginário, será que ele não poderia ter partido para a agressão física? Afinal, ele me odiava e provavelmente tinha um problema sério de cabeça, a partir de uma intolerância grave contra um barulho que eu não cometia. E se ele tivesse uma arma em casa? E se eu abrisse a porta, acreditando que uma conversa resolveria o problema?
2- Quando postei esses relatos do meu problema pessoal aqui no blog e nas redes sociais, recebi dezenas de comentários de amigos e desconhecidos que já tinham passado por situações idênticas. Casos até piores que os meus, como o amigo que estava viajando quando recebeu xingamento por estar fazendo barulho demais, o outro que era xingado por assistir à televisão alta demais e nem sequer tinha TV em casa, dentre outros. Aprendi uma coisa nesta vida de jornalista: quando várias pessoas falam de um mesmo assunto com você, levante a orelha: ali tem coisa. Comecei a me perguntar se não estava diante de uma pauta sobre barulhos imaginários.
3- Apurei com dezenas de síndicos, moradores, administradoras de condomínios, especialistas, advogados especializados etc. E descobri que, sim, havia uma pauta: estamos carecas de ouvir falar dos problemas causados pelos festeiros dos prédios, que fazem mesmo uma barulheira dos infernos, mas poucos sabem da existência dos que apenas caminham, usam secador de cabelo, fecham uma porta, deixam um copo cair, e passam a ser alvo de vizinhos “incomodadíssimos”, com nada. Pauta é um jargão jornalístico que, nesse caso específico, quer dizer uma notícia que traduz um retrato da nossa sociedade. O retrato que eu via era monstruoso: paranoia, estresse, intolerância, radicalismo, picuinha, ódio, preconceito. A pauta virou reportagem: leia AQUI, AQUI e AQUI.
4- Até aí, eu tinha diante de mim uma percepção comportamental, mas não criminal. Mas lembro que comentei meu caso com um amigo, que é experiente repórter de polícia, e ele me alertou sobre o risco que eu corria com aquele vizinho. Disse que há muitos casos de “dias de fúria” entre vizinhos. Passei a assistir a um programa de TV sobre conflitos nas cidades do Rio e de São Paulo e também me dei conta de que mais da metade dos casos filmados diziam respeito a crimes ou conflitos em geral entre vizinhos. O estranho próximo. O desgaste do relacionamento. A noção de direitos e de propriedade. A intolerância. As armas de fogo e brancas à mão. Juntando esse quebra-cabeças, passei a refletir que aquele quadro de horror pintado na minha reportagem podia se traduzir em situações muito mais graves, com mortos e feridos. Mas só dados depurados junto às SSPs, como eu disse, poderão confirmar ou não essa impressão.
5- Já de volta a BH, descobri que um novo vizinho aterroriza meu prédio há vários anos. Ele abre a janela e grita impropérios contra deus e o mundo, com palavrões dos mais sujos, reclamando de supostos barulhos que ninguém mais ouve. Uma das vizinhas disse que morre de medo dele e, há anos, tem que assistir à TV no volume mínimo, orelha colada ao alto-falante, para não provocar a ira do sujeito. Ou seja, o fantasma dos reféns-de-vizinhos paira de novo, já em outra cidade.
Esses cinco itens acima me fazem crer que, como eu já antecipei, estamos diante de um problema generalizado, grave, de consequências perigosas, que pode ter várias causas – geralmente psiquiátricas –, mas que está longe de ser simples ou de ser uma exceção em condomínio de luxo paulista. Quais essas causas? Qual a amplitude desse problema? Só deus sabe. Eu queria muito que os pesquisadores e acadêmicos em geral se debruçassem sobre isso e trouxessem suas teorias. Mas a pauta está quicando. E nossas vidas também. Pode acontecer com qualquer um de nós, em qualquer cidade, em qualquer classe social, em qualquer nível de escolaridade e esclarecimento, literalmente. Antes de matar os vizinhos por “fazerem” barulhos “insuportáveis”, Vicente também foi vítima de reclamações similares dos mesmos vizinhos, que reclamavam de barulhos que o casal de baixo dizia não fazer. Até então, quem era a vítima e quem era o culpado nessa história?
Até que os pesquisadores pintem o quadro de horror em que vivemos em nossas grandes cidades, fica uma mensagem à maioria de nós: sim, vamos aprender a contar até dez. E vamos nos desfazer de coisas que podem tornar letal o percurso do 1 ao 9. A todos: bora aprender a conviver em paz com os outros (no trânsito, no trabalho, em casa) e de forma mais tolerante, porque, de banal, já basta a vida. A morte não precisa ser banal também.
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P.S. Se você for vítima de um desses vizinhos intolerantes, independente do que achar dele ou de qual for sua expectativa de resolução do conflito, NÃO ABRA A PORTA DE CASA PARA ELE sem a presença de um policial.






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