Fidel Castro e o medo do inferno

Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Texto escrito por José de Souza Castro:

Eu poderia escrever muito sobre Fidel Castro, pois venho acompanhando sua trajetória, pela imprensa e por livros, como o de Sartre, desde 1959, aos 15 anos de idade. No mesmo ano em que os cubanos se libertaram de uma cruel ditadura apoiada pelos Estados Unidos e dominada mais de perto pela máfia americana, eu me libertei do medo do inferno.

Nesse tempo todo, tenho procurado viver longe do inferno – o que não é fácil. Quanto ao inferno como muitos tentaram descrever a ilha dominada por Fidel Castro, neste acho que nunca acreditei mesmo.

Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Muitos vão escrever sobre a morte de Fidel Castro e a morte da esquerda, como Clovis Rossi, nesta manhã de sábado.

Outros, como Fernando Brito, vêm ao meu socorro, quando ensina que seria “pretensioso procurar resumir aqui 70 anos de lutas políticas e quase 60 em que foi um dos nomes mais amados e mais temidos do mundo”.

O pouco que ele escreveu, porém, em seu Tijolaço, vale ser lido. E este comentário de um desconhecido (para mim) pernambucano:

 

Um país de cortadores de cana, um dos mais pobres e violentados da América Latina, se tornou exportador de professores, médicos e agrônomos pro resto do mundo.

Mesmo asfixiado por 50 anos de bloqueio econômico, ameaças e humilhações.

Sem nunca perder o dever de solidariedade com as nações mais pobres da África e do mundo.

Vão dizer que falta de tudo em Cuba. Mas, como já ouvi de alguns cubanos, eles têm com fartura algo que não tem preço: DIGNIDADE.

Pra ficar só na qualidade da educação e da saúde, e nos valores de profissionais formados não para enriquecer, mas para servir ao povo.

Nada mais jovem e atual quanto um velho que mudou para melhor a vida de 11 milhões de pessoas.

Não sei se precisamos de heróis, mas que eles existem, existem.

 

Fico por aqui. Não tenho nada melhor a dizer de Fidel Castro.

Papa Francisco e Fidel Castro. Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Papa Francisco e Fidel Castro. Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Ah, sim. Eu escrevi logo no começo que em 1959 me libertei do medo do inferno (enquanto os cubanos se livravam de Fulgêncio Batista e da máfia americana). Explico: desde os 10 anos de idade, eu era infernizado por um padre alemão, diretor de um pré-seminário, em Bom Despacho. Fui internado ali pelos meus pais que moravam na roça, para que estudasse e virasse padre – na época, uma das profissões mais valorizadas pelas famílias católicas no Oeste de Minas.

Se perder a vocação sacerdotal concedida a você por Deus, o padre me dizia repetidamente, quando morrer será condenado ao inferno. Deus não perdoa a perda da vocação! – garantia, a mim e a meus aterrorizados colegas.

E a descrição do inferno, feita por esse padre admirador de Hitler – porque este combatera os comunistas e invadira a Rússia –, era mais terrível que o inferno de Dante. Esse inferno só me foi revelado aos 14 anos, ao ler escondido um volume da “Divina Comédia” que descobri no primeiro ano de seminário, em Manhumirim, num recanto inacessível aos alunos da minha idade. A grande diferença é que no inferno do padre não havia aquela avenida pavimentada com as “coroas” dos sacerdotes que acabaram ali por seus muitos pecados, conforme Dante Alighieri. Para quem não sabe, “coroa” é uma área raspada de formato circular, que os padres usavam antigamente, no cocuruto da cabeça. Meu padre alemão tinha uma daquelas coroas sempre lustrosa sobre a pele rosada do crânio.

Nas férias de dezembro de 1958, informei à minha mãe, muito religiosa, que eu não seria o filho padre que ela tanto desejava. Não voltei ao seminário.

No ginásio em que passei a estudar, havia uma boa coleção de livros raramente lidos. Eu li avidamente “Candide” e outros livros de Voltaire e de outros críticos da Igreja Católica. Perdi definitivamente o medo do inferno.

Pelos anos seguintes, precisava aprender a nunca mais ter medo do comunismo. Nisso, a imprensa só me atrapalhava.

Fidel Castro, porém, me ajudou muito a resistir às pressões. E a me libertar – logo ele, o ditador mais odiado pela direita brasileira.

Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

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2 comentários sobre “Fidel Castro e o medo do inferno

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