Quando acontece com a gente

Não deixe de assistir: UM MOMENTO PODE MUDAR TUDO (You’re not you)
Nota 8

yourenotyou

Quando comecei a assistir a este filme, me veio imediatamente à cabeça o filmaço “Intocáveis“. A premissa é parecida: uma pessoa doente, que precisa de cuidados muito especiais, e contrata uma jovem sem qualquer experiência, mas cheia de alegria de viver, para a função de cuidadora. Ambos/ambas vão se conhecendo, criando afinidade e aprendendo muito um com o/a outro/a.

Mas para por aí. Enquanto “Intocáveis” é cheio de leveza e bom humor, este “You’re not you” é um filme triste do início ao fim, desses feitos pra gente chorar. O paralelo teria que ser feito com outros filmes sobre doenças irreversíveis e sem cura, como “Para Sempre Alice” (alzheimer) e “Uma Prova de Amor” (leucemia). Agora, a Kate, interpretada pela fantástica Hilary Swank — indicada duas vezes (e vencedora nas duas) ao Oscar –, sofre com esclerose lateral amiotrófica (ELA).

Por que muitos de nós nos atraímos tanto por filmes sobre doenças? Posso acrescentar à lista “A Teoria de Tudo” (ELA), “Amor” (AVC), “O Lado Bom da Vida” (transtorno bipolar), “Como se fosse a primeira vez” (amnésia anterógrada), “O Escafandro e a Borboleta” (AVC), entre vários outros. Esses filmes atraem um público muito grande — basta ver como “A Culpa é das Estrelas” (câncer) se tornou um sucesso de bilheteria.

Acho que a resposta é simples: doenças fazem parte da vida e não raro acontecem com pessoas que amamos muito e de quem somos muito próximos, como nossos avós (alzheimer e infarto). Gostamos de ver histórias sobre dificuldades e desafios e sobre como as outras pessoas os superam. Mesmo que os filmes terminem com um final não muito feliz — com os protagonistas mortos –, é claro para nós que os outros personagens crescem com a experiência, se tornam pessoas melhores, mais sábias, que as doenças são aprendizados. E essa sensação é reconfortante.

Por isso, se o roteiro é bem feito, se essa jornada “espiritual” é bem explorada no filme e se os atores são competentes, nós também saímos da sessão com uma sensação de aprendizado. E com o bônus reconfortante de não sermos nós, naquele momento, a estar passando por aquela situação tão triste e difícil.

O grande mérito de “Um momento pode mudar tudo” (que tradução ridícula para o nome original!) não chega a ser o roteiro, como aconteceu com “Intocáveis”. Sobram alguns vazios, o filme é muito penoso, há poucos respiros de leveza, e acho que os diálogos poderiam ter sido melhores. Mas as duas atrizes que constroem os papéis principais estão extraordinárias. A jovem Emmy Rossum cumpre bem seu papel e Hilary Swank é candidata a levar mais um Oscar por sua performance de uma pessoa com ELA, que não apenas tem os movimentos cada vez mais debilitados, mas também a respiração e a articulação da fala.

Enfim, como nos outros filmes, saímos do cinema com aquele pensamento incômodo: “E se fosse comigo? E se fosse com alguém muito próximo?” É aquela pequena sacudida que a ficção se permite dar na vida real: “Olha, pode acontecer mesmo, viu? Todos estão sujeitos a ficar doentes, é parte da vida. Então, aproveite enquanto isso ainda não te atingiu.”

E vamos seguindo adiante, até o próximo filme nos chacoalhar mais um pouquinho.

Assista ao trailer:

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

6 comments

    1. Oi, Ana! Obrigada por ter me tagueado 🙂 Gostei das suas respostas, é legal conhecer mesmo os outros blogueiros. Mas, ó, desde que comecei a participar deste mundo da internet, prometi a mim mesma que seria uma quebradora de correntes rs. Vou ter que quebrar mais esta… 😉 beijão!

      Curtido por 1 pessoa

  1. Realmente nesse tipo de filme traz uma sensação de aprendizado. Mas como o post diz quando acontece com a gente o desiquilíbrio é tão grande que não passa nem perto do que é um filme. Entretanto no fim parece que tudo realmente acaba sendo um grande aprendizado por mais duro que seja.

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