A vida com direito a imperfeições

 

Para ver no cinema: O LADO BOM DA VIDA (Silver Linings Playbook)

Nota 9

ladobom

Ele ficou internado em um manicômio por vários meses e, sem o casamento, a casa e o emprego de antes, tem que recomeçar a vida após ser “libertado” pela sempre preocupada mãe. Sua obsessão, que guia cada um de seus passos, é recuperar o amor da esposa.

E aí mergulha em todos os livros que ela usou para ensinar na escola, começa a correr (envolto em um saco de lixo), para perder peso, quer se centrar, deixar o negativismo de lado etc.

Aos poucos vamos percebendo que esse discurso dele e toda a obsessão são parte de sua doença, diagnosticada tardiamente como transtorno bipolar.  A agressividade latente, a falta de freios na fala e o desespero quando não encontra a fita do casamento ou quando escuta uma música específica também são sintomas.

E esses pequenos sintomas dão um trabalho danado para os pais, interpretados pelos excelentes Robert De Niro e Jacki Weaver. Às vezes nos fazem pensar como eles dão conta do recado. Mas, aos poucos, vamos entendendo: é que ninguém é “normal”. E o Pat, com todos esses problemas, talvez seja tão “anormal” quanto todos os demais.

A atuação de Bradley Cooper (que faz o Pat), muito mais conhecido por filmes leves como “Se Beber, não Case”, está surpreendente, merecedora da indicação que levou. Ele convence como um “bipolar”, sem cair em excessos nem ficar caricatural, além de ser extremamente carismático. A de Jennifer Lawrence, que ganhou o Oscar de melhor atriz, está impecável (ela vai ser a Meryl Streep de sua geração). E todos os maravilhosos coadjuvantes, como os já citados que interpretam os pais de Pat e o sempre engraçado Chris Tucker, que faz o Danny, o mais “doidinho” dos amigos, ajudam a compor a história.

O filme tinha tudo para cair no simplismo de uma comédia romântica, mas vai muito além, ao abordar essa questão das doenças psicológicas. São citados, indiretamente, pelo menos os seguintes: TOC, depressão, ansiedade, consumismo, esquizofrenia e o transtorno bipolar. Os cérebros ao nosso redor são complicados, cheios de imperfeições. Mas é o fato de ninguém ser perfeito e a percepção que as pessoas vão ganhando disso que dá graça a esse filme. Os personagens mostram como o preconceito é burro e como é um imenso entrave para os relacionamentos de todos os tipos. No final, fica até fácil perdoar a tradução do nome para o português com o banal “O Lado Bom da Vida”. Realmente, o melhor lado da vida é este lado livre das amarras da perfeição.

***

Observação: Pela primeira vez, não ousei fazer as apostas do Oscar, como nos anos anteriores (aqui e aqui). É que neste ano não vi praticamente nenhum filme que concorria ao Oscar. Mas queria fazer alguns comentários sobre a premiação:
1) Não assisti a “Amor”, por exemplo, mas Jennifer Lawrence mereceu sua estatueta. Com apenas 22 aninhos, ela é a atriz mais promissora de Hollywood e ainda vamos ver muito seu nome por aí.
2) Argo é um filmaço, como já escrevi aqui, mas tenho dúvidas se mereceria o Oscar de melhor filme do ano.
3) Preciso urgentemente assistir a “As Aventuras de Pi”.
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7 comentários sobre “A vida com direito a imperfeições

  1. As Aventuras de Pi é o 3D mais lindo que já vi! Tudo no filme é lindo e o tigre é muito real. Amor é o filme mais triste do mundo. Não achei Argo um filmão. Não gosto dessa exaltação que os norte-americanos fazem a eles mesmos…
    E por fim: Excelsior!

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  2. Leio na Wikepédia (que aposentou minha velha Barsa) que o primeiro Oscar foi dado durante um jantar para 250 pessoas e que a cerimônia de entrega da premiação durou 15 minutos. E o Oscar continua, enquanto tudo mais vai passando. Como o poeta Carlos Drummond de Andrade, que escreveu nos bons tempos em que ainda havia cinemas de rua:

    INDECISÃO DO MÉIER
    Teus dois cinemas, um ao pé do outro, por que não se afastam
    para não criar, todas as noites, o problema da opção
    e evitar a humilde perplexidade dos moradores?
    Ambos com a melhor artista e a bilheteria mais bela,
    que tortura lançam no Méier!


    Se eu fosse poeta, poderia escrever sobre os dois cinemas de Lagoa da Prata, nos anos 50, quando essa cidade mineira tinha uns 4 mil habitantes. Um cinema novinho, espaçoso, na Praça da Matriz. O outro, ocupando um velho galpão que antes abrigava uma máquina de beneficiamento de arroz. O mais frequentado era este último, pois cobrava ingresso mais barato e exibia filmes melhores. Nenhum Oscar foi capaz, no entanto, de evitar que os dois desaparecessem. A cidade (oh Méier!),hoje com mais de 40 mil moradores, não tem cinema. E eu, que assistia a um filme todo dia no cinema de Lagoa da Prata, há muito perdi o hábito de ir ao cinema. Mas não, ainda, o de ler o poeta Drummond.

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  3. Não peguei a época do cinema da praça da matriz de Lagoa (recordo-me, sim, do de Bom Despacho), mas me lembro da discoteca que o substituiu… Será que isso significa que não sou tão velho, tipo assim, quase novo?!?! : )

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