A boa música que não está no eixo Rio-SP (nem no nicho das Leis de Incentivo)

Fotos: CMC

Fotos: CMC

Estou numa tristeza danada. Ontem fui ao show do Affonsinho e gravei várias das músicas e lindíssimos solos de guitarra, pensando em colocar aqui no blog, mas descobri (da pior forma possível) que o áudio do meu novo celular é tenebroso. Se eu colocasse aqui, ia desmerecer o talento de um grande músico.

Mas ainda me resta descrever o que vi e ouvi lá ontem, no Teatro Alterosa. E recomendo a todos que gostam de música que leiam este post com atenção.

Estou falando de um músico que não está no mainstream, que não toca na novela da Globo, que não é do eixo Rio-São Paulo, que não procura recursos de nenhuma lei de incentivo, de qualquer esfera, que não aparece todos os dias na imprensa (e, quando aparece, costuma ser na mineira), enfim, que é totalmente independente, e, mesmo assim, já chegou a 12 álbuns, em quase 30 consolidadíssimos anos de carreira. É respeitado pelos outros músicos que o conhecem, por saber tocar bem em todas as searas que já testou: do blues à bossa nova, do rock ao samba e, agora, neste último álbum, ao folk.

Com Péricles Garcia.

Com Péricles Garcia.

Ontem ele convidou para o palco outros cinco músicos excepcionais, e presenciei eles declarando, em público, que o que o Affonsinho faz é “coisa de gênio” (disse Denise Reis), “profundamente emocionante” (disse Péricles Garcia) e que é fã do trabalho dele (disse Kadu Vianna). Também passaram pelo palco a voz maravilhosa de Mariana Nunes e a cantora Malvina Lacerda.

Bom, eu também virei fã do Affonsinho, como vocês podem ver pelos posts neste blog. Quando o conheci, na condição de cunhado, nunca tinha ouvido um CD dele, porque infelizmente até os belo-horizontinos às vezes não conhecem os feras que têm em sua cidade. Aos poucos fui indo aos shows, babando com a facilidade com que ele toca violão e guitarra, e com a voz suave que usa nas canções. E a cada show a que vou, fico feliz pelo clima ótimo, pessoas felizes, de todas as idades, comentando no fim do show o quanto foi bom terem ido até lá.

Com Kadu Vianna.

Com Kadu Vianna.

Mas, a cada show, fico indignada e meio triste por nossos talentos de Minas Gerais, que são tantos (os músicos que acompanham Affonsinho — o baixista Fred Heliodoro, o baterista Felipe Continentino e o tecladista Christiano Caldas — são bons exemplos disso, além dos convidados que subiram no palco), serem tão esmagados pelos talentos paulistanos e cariocas, em termos de recursos, tempo de mídia etc. Para resumir: um músico paulista que venha tocar em BH recebe um cachê razoável, enquanto um músico de BH que vai tocar em São Paulo não recebe nada, precisa arcar com todos os custos e tem ainda que agradecer pela oportunidade. E falo também em nome de outros Estados: quantos músicos catarinenses o Brasil conhece? E maranhenses? Os baianos que fizeram sucesso já tinham embarcado no eixo antes.

Enfim, faço minha parte ao jogar esse conteúdo na internet. Desta vez, infelizmente, sem vídeos. Mas vocês podem ver uma amostra do penúltimo show dele que vi, AQUI. E, se começarem a pipocar vídeos no Youtube, acrescento a este post. De qualquer forma, a Rede Minas vai transmitir o show inteirinho em breve, e provavelmente também vai jogar na internet. Assim que eu souber quando, aviso por aqui 😉

Só ontem fiquei conhecendo a Denise Reis, carioca, que participou em três músicas do show. Vou falar dela no próximo post!

A banda e todos os convidados, no final do show.

P.S. Só ontem fiquei conhecendo a Denise Reis, que participou em três músicas do show. Vou falar dela no próximo post!

Atualização em 24/11: achei dois vídeos do show! Vejam AQUI e AQUI.

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4 comentários sobre “A boa música que não está no eixo Rio-SP (nem no nicho das Leis de Incentivo)

  1. Realmente, a oportunidade dos paulistas e cariocas parecem (e são, infelizmente) maiores. O que deixa o sistema injusto. Não vemos a Regina Casé trazer pessoas de vários estados, e quando acontece (se acontece) é raro. Em outros programas também, que divulgam artistas, são sempre de estilos musicais que estão “bombando” pela mídia – atualmente o funk e sertanejo universitário-.

    Porque não dar uma chance às pessoas de talento, não importando o Estado em que elas nasceram e até agora viveram?

    É tudo muito delicado :/

    Ótimo post, vou pesquisar mais sobre o Affonsinho e sua banda. ^-^

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    • Obrigada pelo ótimo comentário, é isso mesmo. Depois me diga o que achou do Affonsinho! Os outros músicos da banda também têm carreiras-solo, como o excelente baixista Frederico Heliodoro, que toca jazz e, se não me engano, já gravou dois CDs. abraços!

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  2. Cristina, parabéns pelo seu texto. Como cantor, compositor e realizador de eventos em Belo Horizonte, enfrento no dia a dia essa dificuldade. No Sarau do Filizzola recebo dezenas de artistas talentosíssimos que não conseguem divulgar seus trabalhos. É enorme a quantidade de novos talentos que temos em Belo Horizonte, com trabalhos de muita qualidade. Fica difícil escolher quem devemos programar. Já estamos na vigésima oitava edição do evento e já chegaram a se apresentar mais de vinte artistas em uma só noite. Claro que nos outros estados e no interior de Minas existem também centenas de talentos como esses que não temos chance de conhecer.

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