A história real do homem que vestia saia

Leia primeiro: Não matou, mas nunca mais vestiu calças de homem

varalroupas

Texto escrito por José de Souza Castro:

Surpreendido pela indiscrição de meu irmão – e minha – sobre o homem que não matou, mas nunca mais vestiu calças de homem, o bravo advogado Aristoteles Atheniense – aquele que, presidente da OAB-MG, enfrentou a ditadura nos anos de chumbo – resolveu pôr os pingos nos is. Para isso, recorreu ao capítulo do livro organizado pelo seu irmão Hipérides Atheniense, sob o título “História da Família”.

O homem da saia existiu mesmo e chamava-se Antônio Dutra de Carvalho, o Dutrão. Alto, branco, louro e muito forte. Nasceu em Ouro Branco em 1805, na fazenda Samambaia, que até hoje pertence a membros da família Dutra. Morreu em 1877, em sua fazenda de Caparaó Velho, vilarejo na encosta do Pico da Bandeira, no município de Simonésia. Nessa história, para decepção da memória de Aristoteles , não entra o município de Santana dos Montes.

No mais, nosso brilhante advogado afirma que o protagonista da história era seu pentavô e sobrinho bisneto do Marquês de Pombal, tendo sido anistiado pelo imperador D. Pedro II por outros crimes cometidos em sua agitada vida política. “Quanto à coragem dos Dutra, pretendo preservá-la, embora não me disponha a abandonar as calças que uso no momento”, escreveu Aristoteles ao “provecto Antônio”. Os dois advogados, ambos mais velhos do que eu, que se entendam…

Mas acho que o vestido de chita da mãe pode ter sido um acréscimo à história atribuível à provectitude chistosa de meu irmão. À do irmão do Aristoteles, um homem sério – é secretário-adjunto do prefeito Marcio Lacerda –, resumida por mim, é como se segue:

armadefogoantiga

Dutrão foi criado por parentes, teve esmerada educação, aprendeu o ofício de ourives e, sendo parente das famílias mais importantes de Queluz (atual Conselheiro Lafaiete), logo entrou na política local. Em março de 1833, membros do Partido Liberal se revoltam contra o governo provincial e tomam Ouro Preto. Antes da chegada das tropas enviadas do Rio, sob o comando do tenente José Joaquim de Lima e Silva, irmão do futuro Duque de Caxias, Dutrão reúne seus homens e vence uma tropa rebelde que se aproximava de Queluz. Depois, ajuda o exército a reconquistar Ouro Preto e fica incumbido da guarda dos líderes revoltosos Bernardo Pereira de Vasconcellos e José Bento Leite Ferreira de Mello.

Mas, aos poucos, Dutrão é influenciado pelos ideais liberais e, em 1842, reúne seus amigos e adere à causa de Teófilo Otoni, revoltando-se contra o governo imperial. Derrotados, ele foge para o inexplorado Vale do Rio Doce e refugia-se na parte mais alta do Caparaó, até que, no final do ano seguinte, os rebeldes fossem todos anistiados por D. Pedro II. Volta por um tempo a Queluz, mas resolve se mudar para a Serra do Caparaó e constrói uma fazenda a seis léguas do Pico da Bandeira. Ali se casou com Josepha Dutra de Carvalho e teve seis filhas. Uma delas, Ambrosina, se casou com Antônio Júlio Barbosa.

Este se desentendeu com Dutrão, por questões de terra, e foi chicoteado em praça pública pelo sogro.

Mais tarde, quando se encontrava em sua casa de Abre Campo – já então, Dutrão tinha várias fazendas e era grande comerciante de gado – o genro, acompanhado de capangas, chegou para se vingar da humilhação, mas foi ferido pelo sogro que ainda matou um dos capangas de Barbosa. Por pressões políticas, Dutrão foi preso e levado a Ouro Preto. A vingança do genro, com a cumplicidade da mulher, foi queimar vários documentos importantes do sogro.

chicote

Chego então àquela história do vestido. Sobre isso, escreveu Hipérides:

“Dutrão, após libertado, furioso, deserda a filha Ambrosina e resolve matar Antônio Júlio, para isto dirigindo-se a Queluz. Contam que encontrou-se com ele na rua e quando ia disparar o revólver foi impedido por sua mãe. Acreditamos que alguém tenha realmente intercedido para que não atirasse, mas não podia ser sua mãe legítima; pois que, além de brigado com ela, havia a mesma falecido em 1851, portanto 16 anos antes dos fatos. Talvez a pessoa em questão fosse a mãe adotiva.

Seja quem for, o fato é que Dutrão acedeu em não atirar, mas afirmou que daquela data em diante não era mais homem. Passou então a andar permanentemente armado, com revólver e cinturão, e a usar sobre a calça uma saia longa (bata) de tecido grosso. Só tirou esta saia quando próximo de sua morte. Sua neta Malvina foi sepultada com ela em 1920.

Após estes acontecimentos, Dutrão retirou-se em definitivo para o Caparaó, tendo falecido na primeira fazenda que construiu e que denominava Paraíso das Montanhas.”

Essa é a história, tal como me foi dado conhecer. Quem duvidar, que procure o Aristoteles Atheniense. Sem se esquecer, porém, que ele pretende preservar a coragem dos Dutra, mesmo que não se disponha a abandonar as calças que usa no momento…

 

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4 comentários sobre “A história real do homem que vestia saia

  1. Cristina: relembro-lhe o nome completo da vítima do ZÉ: Aristóteles DUTRA de Araújo Atheniense, que disse que nunca terá que vestir saia, porque não há rezas, implorações, deprecações, agravos, embargos nem nada que o faça levar desaforo para casa. Ele me disse que já pôs o nome do ZÉ na carteirinha dele, e que logo-logo vai por o seu também, porque nem ele nem você contaram a “verdade, toda a verdade e muito mais que a verdade”.
    Tio Antônio, Capanga do Tote.

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  2. Cris, cuidado com o Capanga do Tote. Viu como ele escreveu o próprio nome em caixa alta (GRITANDO)? Por outro lado, tem aquela história que se ouvia antanho em Queluz: cão-que-late-não-morde…

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