Não matou, mas nunca mais vestiu calças de homem

varalroupas

Texto escrito por José de Souza Castro:

Moro em Belo Horizonte há 50 anos, vindo de uma cidadezinha do Oeste de Minas, mas conheço pouco a região. Não sabia que minha ignorância era tamanha, até que na semana passada soube, pela primeira vez, da existência de Santana dos Montes. Uma cidadezinha de 2.500 moradores, a apenas 130 quilômetros da capital. Por ela passava a Estrada Real, que na época do ciclo do ouro ligava Ouro Preto ao litoral fluminense, onde a riqueza extraída do solo mineiro era embarcada para Portugal.

Nas férteis terras do município, então chamado de Morro do Chapéu, os fazendeiros e seus escravos cultivavam milho e outros alimentos que eram levados pelos tropeiros para Ouro Preto e Mariana, pela famosa Estada Real. Com o fim desse ciclo, a cidade entrou em decadência. E assim permaneceria, se o município não tivesse sido incluído pelo governo de Minas no Circuito Turístico Vilas e Fazendas de Minas. Sobre isso, achei belas fotos e alguma informação neste blog.

A cidadezinha de onde vim era pouco maior que Santana dos Montes. Ambas foram promovidas a município autônomo pela mesma lei estadual, de 30 de dezembro de 1962. Mas Lagoa da Prata se industrializou. É sede da Embaré e de uma usina de açúcar que por muitos anos foi a maior de Minas. Conta hoje com mais de 40 mil habitantes. Enquanto isso, Santana dos Montes – nome que lhe foi dado em 1948 – permaneceu parada no tempo.

A modorra histórica pode terminar, se algum dia o turismo se transformar numa próspera indústria em Minas. Por enquanto, está longe disso. O melhor de lá, pelos relatos, são as cachoeiras e as pousadas para turistas, dentro e fora da cidade. Como o Solar dos Montes, o mais imponente casarão da cidade, construído em 1780 na Praça da Matriz. E o Hotel Fazenda Fonte Limpa.

Aristoteles Atheniense, ex-presidente da OAB-MG que ousou enfrentar a ditadura na década de 1970, conhece bem Santana dos Montes. “Há inúmeras pousadas”, relatou ele, “constituindo parada obrigatória da antiga jardineira que ligava Conselheiro Lafayette a Piranga, onde meu pai era juiz”. Ele planeja comemorar as bodas de ouro de casamento numa dessas pousadas.

Minha curiosidade sobre essa cidadezinha foi despertada, semana passada, ao tomar aqui em Belo Horizonte, no bairro Sion, uma cerveja com meu irmão advogado, o Antônio, no Bar do Antônio. O nome é mera coincidência, meu irmão não tem bar e nem gosta muito de frequentá-los.

Pois foi em Santana dos Montes que se deu um caso muito interessante ouvido pelo Antônio da boca de Aristoteles, numa viagem que faziam para Piranga e por lá passaram. Eu quis saber se era anedota ou se era fato, e ele tentou tirar a limpo com o colega Aristoteles Atheniense:

“Você me impingiu há alguns anos uma mentira”, escreveu-lhe, “da qual eu tive que dar aquele sorriso amarelo, porque você afinal é meu chefe. Já o Bastião [o fiel motorista de Aristoteles] se dobrou de rir ao volante, quase jogando o carro para fora da estrada. Acontece que no começo da semana eu repassei a mentira, sem o devido floreado, para meu irmão jornalista, o Zé, e ele riu ainda mais do que o Bastião (apesar de você não ser chefe dele). Ele disse que me comprava a piada, desde que eu lhe desse os demais dados dela, e lhe transferisse os seus direitos autorais. Embora eu esteja muito precisado, estou disposto a lhe repassar 10% do preço que ajustei com ele, desde que você esclareça devidamente a pândega.

Refiro-me àquele caso que você nos contou, ao passar por uma cidadezinha (qual?) às margens da estrada de terra para Piranga. Segundo seu floreado, um remoto parente seu (qual?) sentiu-se desfeiteado por um conterrâneo, que certamente não aceitou que ele lhe pagasse um golo de pinga. Resolveu então que a desfeita exigia que ele fizesse mais um pique no cabo do estilingue dele. [Mais uma intervenção minha: na roça, a gente marcava ali cada passarinho que nosso estilingue matava.] Antes do desfecho fatal, foi à sua casa buscar os necessários instrumentos (38 ou 45?) para a consumação de seu intento; deparou-se-lhe então a mãe dele – a quem a notícia da futura desgraça já o precedera. À força das implorações, imprecações, admoestações e rezas da mãe, seu famoso parente foi ao quarto dela, tomou emprestado e vestiu seu melhor vestido de chita, voltou à cozinha e prometeu: mãe, eu não vou matar o bandido que me insultou; mas de hoje em diante, nunca mais visto calças!”

E desde então, só saía de casa em trajes femininos, disse-me o Antônio, na conversa de botequim. Imagino que, dada a fama de homem bravo, ninguém troçasse do homem de vestido de mulher. Apenas imagino, porque Aristoteles Atheniense se limitou a informar que o caso se deu mesmo naquela cidadezinha e a confirmar, sem mais delongas: “Não questiono a veracidade dos fatos narrados em sua mensagem.”

Pode ser um caso tão verdadeiro como aquele narrado por Godofredo Rangel, o colega de Monteiro Lobato na Faculdade de Direito das Arcadas (USP) e cuja correspondência entre os dois escritores resultou no livro “A Barca de Gleyre”, publicado por Lobato em 1944. Acho que o caso se encontra num livro de Rangel, “Vida Ociosa – romance da vida mineira”, publicado em 1920 pela Revista do Brasil, de Monteiro Lobato & Cia Editores.

Li há tanto tempo, que só me lembro dessa parte: um rico fazendeiro do interior de Minas [provavelmente não muito longe de Morro do Chapéu], casou-se, ainda jovem, com uma bela moça da região. Pouco depois, houve uma briga do casal, resolvida da seguinte maneira: o marido mandou dividir a casa em duas, construiu muros dividindo também o jardim e o pomar, e cada um morou no seu lado, até ficarem bem velhinhos, sem nunca mais se falarem.

O caso de Rangel, como o de Aristoteles, pode não ser real. Mas, se foi escrito, como dizia Lobato, se tornou verdade…

Anúncios

4 comentários sobre “Não matou, mas nunca mais vestiu calças de homem

  1. A pousada Fonte Limpa está citada no link. Um dia ainda vou lá. Mas a minha citação de Lobato, na última linha, não é correta. Fui pesquisar e descobri, no livro “Picapau Amarelo”, da Brasiliense:

    “O sítio de Dona Benta foi se tornando famoso tanto no mundo de verdade como no chamado mundo de mentira. (…) Mas o Mundo da Fábula não é realmente nenhum mundo de mentira, pois o que existe na imaginação de milhões de crianças é tão real como as páginas deste livro.”

    Meu caso, para ser real, precisaria existir na imaginação de milhões de crianças! A menos, claro, que o célebre advogado tenha o “domínio do fato” e queira apresentá-lo.

    Curtir

Deixe aqui seu comentário! ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s