Do absurdo

Projeto do artista argentino César Saëz.

Projeto do artista argentino César Saëz.

Texto escrito por José de Souza Castro:

A moça magrinha, faxineira de nossa casa, queria comprar as bananas. Perguntou se eu vendia, e ofereceu: “Pago 550 dólares”. Olhei para as bananas. Estavam bem maduras, quase passadas. Indaguei:

— Você sabe quantas bananas tem aí?

— Trinta e uma.

Aceitei vender. Ela me entregou um maço de notas bem velhas, amassadas. Eram cédulas de cinco, dez, vinte e cinquenta dólares, algumas tão desbotadas que era difícil distinguir o valor. Comecei a contar, enquanto ela ia descascando e guardando as bananas dentro de uma sacola branca de plástico. Algumas escorregavam de sua mão e caiam no chão. Ela parecia não se importar com o fato de estarem descascadas e, agora, sujas. Abaixava, apanhava a banana e punha na sacola.

Por isso ou aquilo, eu não conseguia me concentrar na contagem das notas. Avançava até certo ponto e tinha que recomeçar. Perdi a paciência pelo menos uma vez, quando ela me interrompeu com uma palavra qualquer. Eu estava surpreso, pois nunca havia me acontecido ter dificuldade para contar dinheiro. Por fim, consegui me aproximar dos 500 dólares e me dei por satisfeito. Entreguei para ela as notas restantes, ela pegou e guardou numa bolsa velha, sem contar. Estendi também as que estavam comigo como pagamento pelas bananas, e perguntei: “Quer conferir?” Ela negou com um meneio de cabeça. Enfiei as notas no bolso. O negócio estava concluído. Ela pegou a sacola, abriu a porta e foi embora.

Logo me ocorreu que algo estava errado. Saí apressado. Na rua, vi a moça quase virando a esquina, e gritei:

— Janete!

Ela não parou. “O nome dela é Janete?”, pensei. Chamei de novo, mais alto. Ela parou e se voltou para mim, espantada.

— A conta está errada, eu disse.

Ela pareceu se assustar ainda mais. Estendeu-me o braço, com a sacola de bananas.

— Quer contar?

— Não! É que essas bananas não podem custar 550 dólares. Só valem uns 30 dólares…

Acordei, e não consegui dormir de novo. Trinta dólares por 31 bananas! Por que não dei de presente para ela essas malditas bananas? Pensamentos como esses me atormentavam. Não adiantava pensar: sonhos são sempre absurdos… O que me mantinha acordado era saber que, conforme meu inconsciente, revelado por mais de um sonho, não passo de uma besta.

E por saber que não existe um Freud que possa me ajudar, nessa altura da minha vida, a ser melhor do que sou.

***

Leia também:

Meu pai costuma deixar aqui no blog mais textos de análise política e econômica do que crônicas e contos, mas esta é pelo menos a terceira crônica que ele escreve para nós. As outras duas abaixo:

E mais posts sobre sonhos:

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