O pedestre estava certo

Faixa-de-pedestre-RJ-PB

São 23h30, ruas meio desertas, e eu impaciente por estar voltando mais tarde para casa, depois de um dia de muito trabalho, doida para chegar logo. Paro o carro no sinal vermelho, no cruzamento de duas grandes avenidas, já perto do meu destino. E fico olhando, ansiosa, para o semáforo dos pedestres, à espera do bonequinho vermelho-piscante que anuncia que eu posso avançar. Já engato a primeira marcha e fico dançando no controle de embreagem, primeiro carro antes da faixa de pedestres. Alguns segundos depois, o bonequinho pisca, finalmente. E eu avanço. Centímetros. Tenho que frear, semibrucamente, ao enxergar o pedestre que estava no meio de sua travessia.

Ele me pede desculpas, com um aceno.

Meio pálida, minha vontade é descer e ir pessoalmente até ele, para pedir as minhas desculpas e explicar-lhe que quem estava errada era eu, não ele. Que os pedestres têm preferência sempre. Que a preferência deles é inquestionável no momento em que estão sobre uma faixa de pedestres. Que eu deveria estar olhando para frente, não para o bonequinho que nunca piscava, em minha impaciência de fim de noite.

Em vez disso, apenas retribuí o aceno, sem saber se meu pedido de desculpas estava devidamente entendido. E fiquei pensando…

Vivemos num país onde o pedestre está tão acuado que atravessa a rua pedindo desculpas ao motorista pelo incômodo de impedir a livre passagem do carro. Que o carroceiro catador de papel é visto como um estorvo por atrapalhar o fluxo de carros, mesmo tendo o mesmo direito de compartilhar aquela pista e estando em pleno exercício de seu duro trabalho. Que os ciclistas preferem andar na calçada, colocando a vida de pedestres em risco, do que andar na rua e ouvir xingamentos e buzinas, ou serem atropelados, por haver motoristas que acham que eles não têm o direito de estar ali. Que é normal beber e dirigir e que o adolescente de 18 anos, ainda imberbe e cheio de testosterona, cresce ouvindo e vendo isso, e ainda ganha um carro porque passou no vestibular. Sem nenhum preparo psicológico para isso.

Não adianta a CET, em São Paulo, e a BHTrans, em Belo Horizonte, inventarem campanhas de proteção ao pedestre se o problema cultural não for atacado. Campanhas ajudam, mas não fazem a festa sozinhas. Vejam o cinto de segurança: hoje todo mundo afivela o seu assim que entra no carro, e isso era impensável quando eu era criança. No meio do caminho, o que mudou? A lei e a fiscalização, com aplicação de multas. Todo mundo sabe que é um absurdo jogar lixo na rua, mas ainda há um punhado de espíritos de porco fazendo isso. Aí o Rio de Janeiro lança uma campanha e multa mais de cem pessoas, em um dia, por jogar lixo no chão. As pessoas começam a aprender. Eu queria que o mesmo fosse feito com quem desperdiça milhares de litros de água potável só para lavar uma calçada suja.

Depois de um tempo, não será mais preciso multar, porque o novo hábito já estará arraigado na população, como aconteceu com o cinto de segurança. Ou mesmo com o respeito aos pedestres, no caso do nosso exemplo nacional nesta área, que é Brasília.

Enquanto os governos não se movem para promover políticas públicas eficazes de verdade, já podemos ir fazendo nossa parte. Eu já tirei minha lição na noite de ontem: toda vez que passar por aquele cruzamento, vou me lembrar do aceno do pedestre-que-estava-certo. E olhar bem para os lados antes de avançar com esta arma em potencial que chamamos de carro.

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

7 comments

  1. Quando dói no bolso, mas dói de verdade, dá certo, como foi com o cinto de segurança. Aliás, a campanha em São Paulo pela preferência do pedestre na faixa já murchou, e não vejo mais ninguém ser multado por isso. Sobre esse assunto, aliás, os pedestres também precisam mudar seu pensamento, pois a maioria ainda espera que o motorista não vá respeitá-lo. É incrível o tanto de vezes que eu paro antes da faixa para dar a preferência ao pedestre, mas ele vira a cabeça para o outro lado, simplesmente porque acha que, se há um carro se aproximando, ele não vai parar. Isso sem falar nas vezes em que faço isso e algum motorista passa pelo lado, desrespeitando a mim e à faixa.

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    1. Sim sim, o pedestre também tem que aprender que tem direito, mas acho até temerário que faça isso enquanto houver motoristas que o desrespeitam mesmo quando outro motorista já parou, como você relata. O que me entristeceu no episódio de ontem foi que eu também, sempre que vejo um pedestre, faço questão de parar e fazer um gesto indicando que ele pode e deve atravessar, que a prioridade é dele. Mas o motorista, uma vez que está num veículo que o torna muito mais “forte” diante dos outros usuários das vias (ciclistas, motociclistas, carroceiros, pedestres), tem a obrigação de estar sempre mais atento. Não tem o direito nem de se distrair nem de impacientar — os outros motoristas que buzinem atrás, o azar é deles. E ontem não fui atenta o suficiente e poderia ter atingido o pedestre, se ele estivesse mais perto do meu carro na hora 😦

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      1. A questão é que ambos têm de prestar atenção. E respeitar um ao outro também. Quando sou pedestre (e você sabe que isso é muito mais frequente que eu ser motorista), tento atravessar sem enrolar, especialmente quando me dão preferência; questão de cortesia. Comigo ao volante, já aconteceu (muitas vezes!) de gente que poderia atravessar em velocidade normal, sem correr, acabar atravessando como se estivesse num desfile. Isso nem é um problema grande se é só essa pessoa atravessando, mas às vezes ocorre quando muitas pessoas estão atravessando ou por atravessar. Aí, no espaço que você poderia ter passado sem interromper a travessia de ninguém ou nem sequer fazer ninguém esperar na calçada, você acaba deixando passar uma nova “leva”.

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      2. É verdade. Mas o comportamento no trânsito (aí incluindo, claro, os pedestres) mostra muito do caráter das pessoas. E aquelas que não são gentis nem cordiais em outros campos da vida também não serão nas ruas.

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  2. Kika, cheguei aqui por estes bons ventos que a internet nos leva.

    Quero dizer que já fui atropelada, com meu filho de 4 anos no colo, exatamente na faixa de pedestre, naquele cruzamento da Rua Ceará com Padre Rolim. O “cidadão” passou direto na parada obrigatória e nos atingiu na faixa. Uma quarta-feira às 3 da tarde.

    Tudo que eu conseguia xingar o “cidadão” era falando que eu estava na faixa! Como ele pode me acertar na faixa?

    E sou completamente a favor, inclusive cobro da escola do meu filho, da prática de trânsito nas escolas desde a educação infantil!

    Outra, sou a chata que liga pra Bhtrans denunciando e solicitando fiscalização na porta da escola, porque tem pai e mãe que estaciona o carro na porta da escola. EM CIMA DA FAIXA DE PEDESTRE. QUE CRIANÇAS UTILIZAM.

    Em tempo, tenho lido todo seu arquivo e gostado muito.

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    1. Oi, Dri! Ainda bem que existem “chatas” como você! A cidade está precisando de gente promovendo mais cidadania e, principalmente, políticas públicas básicas. Também já amolei a BHTrans um bocado na minha vida. A última que fiz foi registrar um protocolo oficial na Ouvidoria da Prefeitura pedindo uma faixa de pedestres, lombada, semáforo, enfim, qualquer solução, para uma rua perto da minha casa onde os carros passam a 300 km/h. A BHTrans respondeu dizendo que avaliou, mas achava desnecessário. Bom, há umas duas semanas, muito poucos meses depois do meu protocolo, vi um rapaz atropelado lá, aparentemente em estado grave. E assim vamos seguindo, de protocolo em protocolo e de divulgação em divulgação, né?

      O processo é longo, mas, bem lentamente, tenho visto melhoras no comportamento dos motoristas. E acho que, quanto mais a gente para na faixa, mais outros motoristas vão vendo e achando normal e repetindo, né? Então vamos fazendo nosso trabalho de formiguinha.

      Obrigada pelo comentário, volte sempre com esses bons ventos! bjos

      P.S. Que bom que você e seu filho ficaram bem após o atropelamento, hein.

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