Os médicos e a blogueira — o fator Cuba

Recebi o depoimento, que reproduzo abaixo, de alguém que não pode ser acusado de comunista (nesses tempos de Nova Guerra Fria que vivemos no Brasil): o ex-presidente da Federação das Indústria do Estado de Minas Gerais, Stefan Bogdan Salej.

“Quando tive uma aguda crise de saúde na visita oficial que fiz a Caracas na função de enviado especial da Eslovênia para América Latina e Caribe e Presidente do Grupo para América Latina e Caribe do Conselho da União Européia, levaram-me, em vez de para um hospital, para o Palácio Presidencial Miramar. Lá fui tratado por um médico do Presidente Chávez, um cubano.
Quando voltei para a Europa com uma verdadeira gambiarra no corpo porque não tinha nem isso e nem aquilo no ambulatório chaveta, o médico europeu disse que fui, do ponto de vista clínico, muito bem tratado. E os diplomatas cubanos em Bruxelas me colocaram imediatamente a par de todo o tratamento, felizes de que fui tratado por um conterrâneo deles.
Em dois anos que participei de reuniões da UE sobre a América Latina, e a maioria tratava de Cuba, não houve reunião de que os cubanos não soubessem em tempo real o que havia sido discutido pelos europeus. Em detalhes, o que falava quem. Nenhuma varredura conseguiu descobrir o vazamento. A diplomacia cubana era pertinaz, persistente, educada e inflexível. E apresentava o país como eterna vítima do imperialismo mundial. Mas, mais importante, era o uso com perfeição de sua posição geoestratégica e a mensagem de que a sua independência era importante para todos e em especial para a América Latina.
Os cubanos sabem o que querem e sabem quão importante para a independência deles é o bom relacionamento com o Brasil.
Depois de terem cutucado a onça com vara curta quando forçaram a condecoração de Che Guevara por Jânio Quadros e treinaram os guerrilheiros brasileiros, mudaram o disco e permitiram que uma tabacaria brasileira de origem anglo-americana se tornasse símbolo de resistência ao bloqueio americano, funcionando como brasileira na ilha. Permitiram que empreiteiros brasileiros, com generosos empréstimos, construíssem magníficas obras, e até permitiram a vinda da blogueira oposicionista ao Brasil.
A política externa cubana é coerente e tem objetivo e visão. E tem flexibilidade. Acabou a ajuda militar a Angola, forma-se um exército de dentistas, oculistas e outros médicos e manda-os para o mundo. Aliás, essa abertura, usando mão de obra qualificada para obter divisas, começou com o Marechal Tito, na década de setenta, quando a Alemanha precisou de mão de obra qualificada e a Iugoslávia mandou milhares de emigrantes. Mas não ficaram com as famílias amarradas e a absoluta maioria ficou na Alemanha.
E nesta história de vinda de médicos cubanos, é, do ponto de vista logístico, formidável um país dispor de 4.000 mil profissionais prontos, da noite para o dia, sem que seu sistema de saúde sofra qualquer alteração.”

Para mim, afora a questão do corporativismo médico, defendido pelos CRMs e sindicatos da categoria, e afora uma certa xenofobia e racismo em geral, na recepção dos médicos estrangeiros (como a “jornalista” que disse que as médicas cubanas mais pareciam empregadas domésticas e os jovens vaiando os médicos no Ceará aos gritos de “ESCRAVO! ESCRAVO!”), há, ainda, o fator Cuba.

Sim, porque os médicos cubanos estão sendo muito mais hostilizados do que os espanhóis, portugueses, argentinos e outros que já chegaram por essas paragens, atendendo à proposta (que não é de todo má) do “Mais Médicos”.

Os médicos acham um absurdo o governo criar um programa para alocar pessoas para trabalhar onde não querem (e não querem não só por ser um lugar “sem estrutura”, como alegam, mas também pelo direito, legítimo, que eles têm de quererem ficar perto da família, nos grandes centros, onde há supostamente mais conforto, embora os hospitais também estejam aos cacarecos, como em todo o sistema público e privado de saúde no Brasil). Beleza, têm todo o direito de achar e de protestar contra isso, mas o alvo não deveria ser o governo, em vez dos colegas estrangeiros?

Para mim, uma das razões para toda essa mobilização é o fato de Cuba, ainda hoje, mais de 50 anos após sua revolução, despertar paixões — de amor e de ódio –, em especial nos vizinhos latino-americanos.

Se não fosse isso, o que explicaria mobilização semelhante, mas partindo dos ditos “de esquerda”, contra uma blogueira cubana que apenas tinha vindo ao Brasil para expor, livremente, suas ideias, como espera-se que qualquer pessoa possa fazer num país democrático?

São motivos, propósitos, contextos e grupos diferentes que se mobilizaram no caso de Yoani Sánchez e agora, dos médicos cubanos. Mas os dois casos têm dois fatores em comum: a paixão pró e contra Cuba e a falta de educação, em geral, dos brasileiros, que ainda não se afeiçoaram à ideia de que uma democracia só é real quando as pessoas podem se expressar livremente, mesmo que defendendo uma posição contrária à nossa — e deveríamos lutar, se queremos uma democracia mais forte, justamente pelo direito de os outros gritarem as ideias contrárias às que defendemos.

Sobre isso, um rapaz, que não conheço, postou uma frase maravilhosa, que vai direto ao ponto, e que já foi compartilhada, até o momento em que escrevo, por mais de 73 mil pessoas no Facebook. Fecho este post com ela:

placacuba

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