Aécio pouco conhece a Petrobras

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Texto escrito por José de Souza Castro:

Oportuno e esclarecedor o artigo do ex-diretor geral da Agência Nacional de Petróleo (ANP) Haroldo Lima, que ficou no cargo durante oito anos, até dezembro de 2011, sobre a redução, em 36%, do lucro líquido da Petrobras, em 2012. Oportuno, porque foi divulgado no mesmo dia em que a imprensa deu grande destaque ao discurso do senador Aécio Neves, do PSDB mineiro, da tribuna do Senado, apontando os “13 fracassos” do PT no governo, a quem acusou de colocar “em risco as principais empresas públicas nacionais, como a Petrobras e a Eletrobras”.

Antes de continuar, vamos ver quem é Haroldo Lima. Baiano, nasceu em Caetité em 1939, estudou engenharia elétrica na Universidade Federal da Bahia, ingressou no movimento estudantil e, a partir de 1972, até ser preso quatro anos depois, foi membro da Comissão Executiva do Comitê Central do PCdoB, responsável pela Guerrilha do Araguaia. Solto em 1979, com a anistia política, ajudou a fundar o PMDB baiano, elegendo-se deputado federal em 1982. Em 1985, com a legalização dos partidos de esquerda, voltou ao PCdoB, e reelegeu-se para a Câmara dos Deputados até 2002, quando foi derrotado como candidato ao Senado. No ano seguinte, Lula o nomeou diretor-geral da ANP.

Voltemos à Petrobras, empresa que, segundo a imprensa – e agora Aécio – vem sendo usada pelo governo para conter a inflação e, desse modo, está sendo posta em risco. Os acionistas que têm lucrado muito com a maior estatal brasileira não se conformam com um lucro de apenas R$ 21,18 bilhões em 2012.

Para dar clareza à situação atual, o ex-dirigente da ANP faz um histórico dos balanços da Petrobras. De 1995 a 1999 – portanto, no governo tucano –, o lucro foi em média de R$1,19 bilhão. Nos três anos seguintes, saltou para R$ 6,93 bilhões em média, por ano. A partir de 2003, nos oito anos do governo Lula, ficou em R$ 25,5 bilhões, na média, atingindo um recorde de R$ 35,19 bilhões em 2010. “Nenhuma empresa brasileira teve durante tanto tempo lucros tão excepcionais”, afirma Haroldo Lima. Nos dois primeiros anos do governo Dilma Rousseff, a média de lucros passou a ser de R$ 27,25 bilhões. “Vê-se assim que o lucro de R$ 21,18 bilhões de 2012 está longe de ser um desastre e nada tem a ver com risco de ‘desmonte’ da Petrobras”, completa.

Esclarece Haroldo Lima que o fundamental para os lucros de uma grande petroleira é o preço do petróleo. Só por isso, o lucro da Petrobrás multiplicou-se por seis, entre 2000 e 2002. E aumentou ainda mais nos anos seguintes, com o preço do barril do petróleo chegando a US$134 em meados de 2008. As maiores petroleiras do mundo lutam por garantir seus lucros nos postos de gasolina, “mas sabem que o maior lucro não vem do posto, mas do poço”. Alguns dos fatores que interferem na formação do lucro, como a produção, a demanda de óleo e seus derivados, a rede de distribuição, a exportação, a competência de seus dirigentes, atingem indistintamente as petroleiras.

Por isso, no início do segundo semestre de 2012, acrescenta Lima, “de 20 grandes petroleiras, 11 tiveram prejuízos, sendo que, das dez maiores, apenas uma cresceu, a Exxon. Todas as demais tiveram queda de lucro. E a Exxon cresceu porque vendeu ativos”. Desse modo, o recuo de 36% no lucro da Petrobras não é algo estranho ao mundo dos grandes negócios. Mas é um problema que precisa ser compreendido e corrigido, a começar pela identificação de suas causas.

Para o autor, a imprensa brasileira errou ao identificar, como causa, a decisão do governo de não permitir o aumento do preço da gasolina, já que parte dela era importada a preço maior. Se o motivo fosse esse, não teria ocorrido o salto do lucro da Petrobrás durante praticamente toda a década de 2000, quando o preço da gasolina para o consumidor brasileiro ficou estável. Além disso, não é verdade que os preços tenham ficado congelados nos dois anos seguintes. Em novembro de 2011, os preços da gasolina subiram cerca de 10% e os do diesel, 2%. Em junho de 2012, o governo deixou de cobrar a Cide, o que favoreceu a Petrobras. [Embora tenha prejudicado estados e municípios].

O prejuízo da Petrobras com a importação da gasolina, no segundo trimestre de 2012, foi de R$ 400 milhões e, com o diesel, de R$ 1,9 bilhão. Mas esses prejuízos são relativamente pequenos frente à receita das vendas totais: R$ 69 bilhões, com alta de 3%, comparada ao trimestre anterior.

A causa principal da redução do lucro, conclui Haroldo Lima, foi o prejuízo cambial. “Só no segundo trimestre do ano passado, o dólar saltou de R$ 1,80 para R$ 2,04, e a empresa teve que provisionar perdas de R$ 6,4 bilhões. Simulação de um especialista da ANP mostrou que, mantidas as importações da gasolina e do diesel, e sem aumentar seus preços internos, se não houvesse o prejuízo cambial, a Petrobras teria saído, no segundo trimestre de 2012, de um prejuízo de R$ 1,38 bilhão para um lucro de R$ 5 bilhões”.

Mais algumas causas da redução do lucro: queda da produção, desvalorização de estoques, aumento das importações de gás natural liquefeito (GNL), por causa da entrada em operação das usinas térmicas, entre outras.

O mais importante, nesse artigo de Haroldo Lima, é sua conclusão:

“Uma petroleira estatal como a Petrobras tem como objetivos: ajudar o Estado a desenvolver o país, alavancar a indústria e os serviços, propiciar o surgimento de pequenas e médias empresas setoriais; tem também o dever de se afirmar como grande empresa, aumentando sua produção e modernizando-se. Na convergência dessas finalidades deve garantir ao povo combustível bom e a preços módicos”.


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Por José de Souza Castro

Jornalista mineiro, desde 1972, com passagem – como repórter, redator, editor, chefe de reportagem ou chefe de redação – pelo Jornal do Brasil (16 anos), Estado de Minas (1), O Globo (2), Rádio Alvorada (8) e Hoje em Dia (1). É autor de vários livros e coautor do Blog da Kikacastro, ao lado da filha.

10 comments

  1. Desordem ambiental e populacional

    É muito triste falar isso,mas será preciso.Para alguns isso não vai significar nada,para outros até pode.Entendo também que a maioria das pessoas não sabem o que significa desenvolvimento sustentável,muito menos educação ambiental.
    Hoje fui á zona sul,precisamente em Parelheiros,atender a uma chamada de um possível dano ambiental.Conforme fui entrando pelas ruas,vielas,labirintos,precipício,fui observando cada cena,cada situação desesperadora da população.Cheguei a falar comigo mesmo:até que ponto o ser humano vai destruir a vegetação para construir casas sem engenharia alguma? sim,pode ser resultado do problema político,mas acima de tudo,é social.
    No entanto,havia trecho que ficava clara a invasão humana ao verde e meio ambiente;ficava clara a falta de respeito,a falta de vergonha na cara.Há também a falta da educação na era escolar….mas cá entre nós:para essas pessoas o que importa é agora,o amanhã que se lasque.
    E além do mais,até uma famosa rede de materiais para construção civil foi desativada por invadir uma área pública.Talvez o dono pensou que diante de tanta desordem,ninguém notaria a falta de vergonha e a cara de pau.Coitado deles.Se tratando de barões capitalistas,o governo também quer tirar uma casquinha do bolo poluído. E as pessoas que invadiram também? aí meu querido,cada um se vira como pode,tornam-se meros fantasmas;porque além de não ter moradia,vai ter conscientização? Óbvio que não.

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  2. A crítica mais contundente ao discurso de Aécio Neves no Senado (e que nada tem a ver com a Petrobras) foi feita pelo ex-ministro José Dirceu em seu blog:
    http://www.zedirceu.com.br/index.php?option=com_content&task=view&&id=17495&Itemid=2
    Trechos:
    – Pela voz do senador mineiro, os tucanos acusam o governo de mau exemplo, estímulo à intolerância e ao autoritarismo, de tornar o Congresso homologador de medidas provisórias (MPs), de limitarmos a criação de CPIs… Por falar em MPs, Aécio Neves governou Minas oito anos com leis delegadas (como na ditadura), enquanto em nosso governo as MPs foram regulamentadas segundo proposta da oposição.

    – Justo eles, que tiraram da saúde os recursos da CPMF (R$ 40 bi no ano em que a extinguiram, 2007) na promoção de uma fraude que só favoreceu a sonegação fiscal e a uma minoria da população, a de alta renda que pagava a contribuição. Tiraram bilhões da saúde a partir daquele ano sem indicar uma nova fonte de recursos.

    – Já quanto à liberdade de imprensa, disso o senador e ex-governador de Minas entende. Tanto que lá nas Minas Gerais a imprensa toda o apoia com a farta publicidade oficial que a alimenta. Realmente o cinismo do tucano falante não tem limites! Já sobre ódio e intolerância, dos quais ele também falou, somos as vítimas e os tucanos e sua mídia, os carrascos.

    – E o senador das Minas Gerais conclui sua fala com a acusação de que o governo defende maus feitos e tem complacência com os desvios éticos. Aqui Aécio decididamente se supera. Eu não vi nenhum combate à corrupção nos oito anos em que ele governou Minas, e nem nos oito anos de FHC.

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  3. No jornal Hoje em Dia, sobre a participação de Fernando Henrique Cardoso num evento, na noite desta segunda-feira, em Belo Horizonte, para reforçar a candidatura de Aécio Neves à presidência da República:
    “Fernando Henrique também defendeu a privatização da Petrobras e criticou a redução na tarifa de luz”.
    Bem, se a campanha de Aécio seguir nessa linha…

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  4. “Uma petroleira estatal como a Petrobras tem como objetivos: ajudar o Estado a desenvolver o país, alavancar a indústria e os serviços, propiciar o surgimento de pequenas e médias empresas setoriais; tem também o dever de se afirmar como grande empresa, aumentando sua produção e modernizando-se. Na convergência dessas finalidades deve garantir ao povo combustível bom e a preços módicos”.

    É o que o governo tem feito, em detrimento dos interesses do mercado financeiro internacional, e seu garoto de recados: “a grande mídia”.

    Os grandes veículos me servem atualmente pela capacidade de relatar e transmitir alguns fatos, mas em termos de opinião não servem para nada, alem de um parâmetro de corrupção e falta de profissionalismo. Se for para eleger um especialista em determinado assunto para emitir analises, prefiro eu mesmo escolher um acadêmico ou profissional da área que tenha um blog ou participe de algum fórum.

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    1. Falei sobre esse asco à “grande mídia” (a única que tem recursos para bancar bons profissionais pra fazerem investigação real — algo que os blogueiros ainda não conseguem, sozinhos) em outro post recente, então não vou repetir por aqui.

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      1. Eu li o post, e acho que pragmatismo é o básico para quem realmente quer alcançar algum resultado concreto, assim como o PT negociou e cedeu em vários aspectos no primeiro mandato de governo, tanto para os partidos políticos como para os grupos econômicos dominantes. Mas no terceiro mandato o governo já acumula feitos inimagináveis, impossíveis e no máximo catastróficos de acordo com 99,9% dos especialistas veiculados pela “grande mídia”:

        -Bolsa família.(“esmola, voto de cabresto, populismo”).
        -Licitação do pre-sal(críticas por privilegiar o conteúdo nacional e centralizar o controle pela Petrobras).
        -Manipulação do cambio(pratica usual durante todo o sempre por todos os países capitalistas tratada como absurdo e erro fatal).
        -Baixa do juros (terrorismo da inflação e “fuga de capitais estrangeiros”).
        – Defesa da industrial nacional (terrorismo da inflação, “protecionismo deselegante”, “promoção da ineficiência” e etc).

        Reduzir em “asco” a crítica feita a “grande mídia” é um equívoco igual a resumir a imprensa à “grande mídia”. Já li várias matérias em grandes veículos contrariando a lista acima, mas a proporção demonstra a posição institucional destes veículos.

        Não acho absurdo e fantasioso denunciar a corrupção e manipulação de grandes instituições da imprensa nacional, enquanto o próprio judiciário desse país é um mar de lama, os políticos são bandidos e o setor privado um cúmplice perfeito.

        A popularidade excessiva do governo petista é um fator negativo para uma democracia, e acho saudável uma imprensa que faça esse contraponto, justamente por isso acho benéfico os excessos cometidos pela imprensa contra o governo, no campo político e ético. Na pior da hipóteses é didático criticar e condenar a corrupção desse país, com injustiças ou não.

        Partindo do mesmo princípio, é benéfico para a imprensa nacional, a curto, médio e longo prazo, que movimentos de qualquer natureza, com justiça ou não, critiquem e denunciem a “grande mídia” pelas suas falhas, crimes e abusos, contrapondo seu monopólio e poder absurdo que prejudicam a formação da nossa opinião pública.

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      2. Como eu disse no outro post, acho importante criticar e denunciar falhas e problemas na grande mídia, e acho que todo mundo que a lê e assiste deve exigir um serviço bem-feito, inclusive do ponto de vista de direitos do consumidor.

        Mas acho ruim e autoritário o movimento que está se formando em alguns núcleos políticos, partidários e ideológicos, alguns dos quais ligados ao PT (mas não só), querendo impedir o trabalho feito pelos grandes jornais — que, infelizmente, por enquanto, são os únicos que ainda dispõem de recursos financeiros pra sustentar bons profissionais com técnica e talento para fazerem investigações jornalísticas de relevância.

        Enfim, tudo o que eu tinha a dizer sobre isso eu disse naquele post 🙂

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  5. A impressão que tenho é justamente o contrário, incapacidade dos grandes veículos de gerir recursos financeiros para manter e atrair novos talentos. Mas é apenas uma impressão.

    Seu blog com 0,1% do orçamento dos grandes veículos, produz informações mais relevantes e consistentes, guardadas as devidas proporções. E essa proporção tende a se equiparar com tempo, pelo menos é o que acredito.

    O lado ruim é que você não terá mais tempo para ficar respondendo meus resmungos.

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    1. Eu não consigo me manter com meu blog, a ponto de me dedicar a uma grande investigação, como as que já fiz por meio de jornais que me pagaram salário. Talvez um dia, mas acho que ainda está longe de isso ser possível para qualquer blogueiro.

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