Condenação de Lula é ‘desrespeitosa, despropositada, fora da realidade’

Julgamento de recursos da Lava Jato na 8ª Turma do TRF4 – A partir da esquerda, o desembargador Victor Laus, procurador Maurício Gotardo Gerum, desembargador Leandro Paulsen e desembargador João Pedro Gebran Neto – Foto: Sylvio Sirangelo/TRF4

Texto escrito por José de Souza Castro:

Confesso que não tive paciência para ver pela TV, na íntegra, as longas falas dos três juízes do Tribunal Regional Federal de Porto Alegre que não apenas confirmaram a sentença de Sérgio Moro contra Lula, como aumentaram a pena de prisão imposta pelo juiz de Curitiba, para 12 anos e um mês.

Por óbvio, não tenho a pretensão de analisar, neste momento, as mais de 400 páginas do juiz relator, acompanhadas na totalidade pelos outros dois. Seria mais fácil ler “Ulysses” de James Joyce em poucas horas.

Acho, porém, que outros mais capacitados poderão destrinchar o calhamaço, no devido tempo, e fazer as críticas que esses juízes estão a merecer.

Duvido que os jornalistas Mino Carta e Paulo Henrique Amorim tenham tido mais paciência que eu, o que não impediu que os dois saíssem logo com uma análise franca das consequência do ato insano praticado pelos três juízes. Quem se interessar pode assistir aqui.

É uma conversa também longa, de 40 minutos, mas que vale a pena acompanhar. Posso garantir que é muito mais interessante que as análises que você pode ver na GloboNews. Muito mais divertida, sem dúvida.

Rir é preciso, num momento como este que o Brasil está vivendo. Rir desses juízes boçais pode nos livrar da depressão e ressuscitar a esperança num Brasil melhor. Afinal, o povo brasileiro é muito melhor que suas elites. E muitíssimo melhor que esses três juízes que, certamente, serão condenados pela História.

Como a TV Globo, que respondeu com arrogância nota divulgada pela presidente do PT, Gleisi Hoffmann, na qual a senadora afirma: Continuar lendo

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A traição ao trabalhador orquestrada por Temer, Rodrigo Maia e Romero Jucá

Charge da Laerte. Genial.

Texto escrito por José de Souza Castro:

O líder do governo no Senado, Romero Jucá, foi o último a discursar antes de encerrada a votação da lei que estraçalha a CLT, para voltar a prometer que Michel Temer enviaria logo ao Congresso Nacional medida provisória para retirar do texto os maiores absurdos introduzidos pelos deputados e aprovados sem emendas pelos senadores. Quando discursou, todos já tinham votado, sendo 50 a favor e 26 contra. Promessa de mentirinha, discurso de mentirão.

Horas depois, o presidente da Câmara dos Deputados, o farsante Rodrigo Maia (DEM-RJ) que vai suceder Temer (temporariamente ou não), caso este seja afastado por corrupção, anunciou que vai barrar a medida provisória logo que ela chegue ao Congresso Nacional.

O que era ruim com Temer ficará pior com Maia. Ele declarou à “Folha de S.Paulo” na manhã desta quarta-feira, horas depois da votação vergonhosa no Senado: “Não participamos de nenhum acordo. Queremos reformar o Brasil. Chega de mentiras”. E prosseguiu: “A reforma trabalhista é o primeiro momento de grandes mudanças no nosso país. Ainda vêm a Previdência, a tributária, a segurança e a redução da pobreza. Vamos de verdade mudar o país. A Câmara já liderou e vai continuar liderando”.

Segundo Maia, a reforma trabalhista aprovada agora é uma “revolução” e não haverá retrocesso. “Acordos do atraso não estarão na nossa agenda. Queremos um novo Brasil”, afirmou.

Um dos pontos “revolucionários” da lei é permitir o trabalho de gestantes e lactantes em locais insalubres!

Além do discurso de Romero Jucá, Continuar lendo

Mulheres vão perder a presidência do Brasil e da CNA

A senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) fala na Comissão Especial do Impeachment, em julho. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) fala na Comissão Especial do Impeachment, em julho. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Texto escrito por José de Souza Castro:

O dia 4 de agosto não deve ser esquecido. Foi o dia em que a Comissão Especial do Impeachment aprovou o relatório do senador Antonio Anastasia, do PSDB mineiro, para afastar Dilma Rousseff da Presidência da República, passados 648 dias de sua reeleição por 54,5 milhões de votos.

É um golpe contra a democracia desferido por 14 senadores, entre eles, três mulheres: Ana Amélia (PP-RS), Simone Tebet (PMDB-MS) e Lúcia Vânia (PSB-GO). Cinco senadores votaram contra: dois homens (Lindergh Farias, do PT fluminense, e Telmário Mota, do PDT de Rondônia) e três mulheres (Gleisi Hoffmann do PT paranaense, Kátia Abreu, do PMDB de Tocantins, e Vanessa Grazziotin, do PCdoB amazonense).

Três mulheres a favor de demitir a primeira mulher a assumir a Presidência da República no Brasil, e três contra.

Destas, quero destacar Kátia Abreu. Por pertencer ao partido de Michel Temer – o grande beneficiário desse golpe, juntamente com seu partido, o PMDB – e por ser presidente licenciada da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), uma das entidades que apoiou o golpe militar de 1964 e que tem uma triste história de reacionarismo.

O presidente em exercício da CNA, João Martins da Silva Júnior, em entrevista após o voto de Kátia Abreu, disse que a senadora traiu a classe e que ela não reassumirá seu lugar na Confederação. Alguma surpresa? Quem tiver estômago, que ouça a entrevista do usurpador. Ele era o primeiro vice-presidente da CNA desde 2012 e não quer largar o osso, a exemplo de Michel Temer.

É mais gratificante para os ouvidos democráticos ouvir o que disse Kátia Abreu, ao votar:

Interessantes estes destaques selecionados pelo “Diário do Centro do Mundo“:

“Se Temer achava que o governo estava muito ruim, podia ter recusado ser vice novamente. Mas não, ele continuou na chapa e foi eleito, até com a ajuda do meu voto.”

“O presidente Temer, que é meu presidente também, lutou como um louco para ser vice de novo. Quem é aqui que pode falar de corrupção, de ética? Faça-me o favor!”

“Mensalão e Petrolão não são de um partido só. O sistema político está podre e a presidente é uma mulher honesta, digna. Já nos partidos políticos, é difícil salvar um.”

Kátia Abreu foi a primeira mulher eleita para presidir a CNA. Isso aconteceu no final de 2008. Eram 27 eleitores – os presidentes das federações estaduais de agricultura – e ela teve o voto de 26. Já era senadora e primeira a presidir a bancada ruralista no Senado. Tinha sido também a primeira a ser eleita para um sindicato rural e a primeira para uma federação da agricultura no Brasil. Foi reeleita daí a três anos e, em 2014, por mais três.

Mulher de valor, na opinião de seus pares (pelo menos, até ela passar a defender Dilma na Comissão do Impeachment). Em 2008, Kátia foi agraciada com a Grande Medalha da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), entidade que completou 60 anos em 2011, ano em que já havia oito mulheres presidindo sindicatos rurais no Estado. Entre elas, Denise Cássia Garcia, de Campo Belo, que em 2008 fora a primeira mulher eleita (como segunda suplente) para a diretoria da Faemg.

Quando escrevia o livro sobre os 60 anos da Faemg, entrevistei Gilman Viana, que havia presidido a federação, e ele justificou a quase completa ausência de mulheres na entidade: “O espaço da mulher no Brasil não começou pelo meio rural, começou pelo urbano e depois pelo meio político. A velocidade da feminilização da liderança rural é mais baixa do que a ocorrida no meio urbano, não só  porque a cidade concentra maior quantidade de mulheres, como ainda há uma cultura remanescente de que quem dirige a fazenda é o homem, não a mulher.”

Tudo bem. Mas no Brasil há mais mulheres do que homens, e as primeiras a assumirem a presidência da República e da CNA estão sendo afastadas pela minoria masculina…

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As verdades e mentiras do jogo político de Palocci

Com a palavra, Palocci.

Só se fala disso.

Palocci caiu. Fez bem, independente de qualquer coisa.

Gleisi Hoffmann assumiu no lugar. Foi boa escolha de Dilma, é mulher de Paulo Bernardo, é petista em ascensão (li tudo isso) etc.

Dispenso tecer comentários a respeito, porque vocês têm uma fileira de grandes analistas políticos em todos os sites de notícias e veículos jornalísticos à disposição, que dirão coisas muito mais importantes que eu.

Ocuparei este post com uma curiosidade que só vi hoje, por meio do blog do Fernando Rodrigues.

Um “perito em veracidade” (dessas modernidades de que eu nunca tinha ouvido falar) analisou a entrevista que Palocci deu ao Jornal Nacional, na sexta passada, por meio de “tecnologia de análise de voz”.

Ao fazer isso, concluiu que:

  1. “o ministro Antonio Palocci está sendo verdadeiro quando afirma que todo o faturamento foi registrado nos órgãos competentes. No entanto, não está sendo verdadeiro quando afirma que este faturamento está relacionado à emissão de notas fiscais regulares e o recolhimento dos impostos.
  2. o ministro Antonio Palocci está sendo verdadeiro quando afirma que promoveu o encerramento das consultorias em andamento encerrando suas atividades na empresa. Não está sendo verdadeiro quando relaciona estes fatos com o aumento do faturamento no final do ano.
  3. o ministro Antonio Palocci não está sendo verdadeiro quando afirma que a empresa não possui mais nenhuma arrecadação.
  4. o ministro Antonio Palocci não está sendo verdadeiro quando relaciona o aumento do faturamento com o encerramento dos contratos.
  5. o ministro Antonio Palocci está sendo verdadeiro quando afirma que sua empresa nunca atuou em consultorias que envolvessem órgãos públicos e privados. É possível que ele, pessoalmente, eventualmente tenha dado alguma consultoria neste sentido.
  6. o ministro Antonio Palocci está sendo verdadeiro quando afirma que a empresa foi aumentando seu faturamento naturalmente.
  7. o ministro Antonio Palocci está sendo verdadeiro quando afirma que não divulga o nome de seus clientes. Provavelmente sabe que nem todas são idôneas. Não está sendo verdadeiro quando diz que se propõe a dialogar neste conflito político.
  8. o ministro Antonio Palocci está sendo verdadeiro quando afirma que as empresas que o contrataram vivem da iniciativa privada. Provavelmente não está sendo verdadeiro quando afirma que pouco tem a ver com obras públicas.
  9. o ministro Antonio Palocci não está sendo verdadeiro quando afirma que pesou o fato de ter sido ministro da fazenda.
  10. o ministro Antonio Palocci provavelmente não está sendo verdadeiro quando afirma que a diferença está baseada no encerramento dos contratos.
  11. o ministro Antonio Palocci está sendo verdadeiro quando afirma que buscou realizar todos os trâmites legais para o funcionamento da empresa. Não está sendo verdadeiro quando afirma que tudo foi adequado.
  12. o ministro Antonio Palocci provavelmente não está sendo verdadeiro quando afirma que ele e sua empresa não atuam mais em consultorias.
  13. o ministro Antonio Palocci está sendo verdadeiro quando afirma que toda a arrecadação da empresa se deu baseada em contratos e que estas informações permanecerão secretas. Não está sendo verdadeiro quando afirma que todas as informações faltantes serão prestadas a procuradoria geral da república.
  14. o ministro Antonio Palocci está sendo verdadeiro quando afirma que nenhum centavo se refere à política. Possivelmente existe algo relacionado à campanha eleitoral e sua atividade na campanha provavelmente não foi somente política.
  15. o ministro Antonio Palocci está sendo verdadeiro quando afirma que prestou contas do que fez na iniciativa privada, que não fez tráfico de influência e que não atuou junto a empresas públicas.”

A íntegra do documento está AQUI e é importante lê-lo para relacionar as conclusões ao contexto do que foi perguntado e respondido na entrevista.

Destaquei as “mentiras” apontadas pelo perito Mauro Nadvorny, pelas razões óbvias (embora as “verdades” que ele aponta também sejam importantes para a defesa do ministro, especialmente o item 15). Se essa técnica trouxe luz a verdades e mentiras reais, só mesmo Palocci poderia dizer.

Com a palavra, Antônio Palocci (se é que ele ainda tem a palavra).

Ou “com a palavra” Roberto Gurgel, que arquivou um processo em vez de seguir com a apuração dos indícios e verificar as verdades e mentiras implicadas?

Deixo a palavra então a todos nós, que somos seres pensantes e podemos tirar nossas próprias conclusões de todo esse jogo político 😉