No Chile, um exemplo de sucesso dos não ultraliberais

Texto escrito por José de Souza Castro:

Santiago, Chile. Foto: Pixabay

No artigo anterior, ficou mais ou menos claro que os economistas da Escola de Chicago, como Paulo Guedes, tentam se apropriar do que ocorreu no Chile após a derrubada da ditadura do general Augusto Pinochet, em 1990, para construir uma imagem ilusória do acerto da política ultraliberal, a mesma que tentam hoje implantar no Brasil – e na Argentina, onde acabam de sofrer um revés eleitoral.

Tais economistas neoliberais nunca dizem que foi depois da ditadura, sobretudo nos 20 anos dos governos da “concertação” formada por partidos de tendência socialdemocrata, que o PIB chileno de fato cresceu a uma taxa média anual de 7%, na década de 90, e de aproximadamente 4,6% ao ano durante todo o resto do período democrático.

Nesse período de governos de centro-esquerda, a renda média dos chilenos quintuplicou em relação ao início da ditadura, alcançando o patamar atual dos US$ 25 mil, o maior da América Latina. Esses governos promoveram várias reestruturações tributárias que permitiram aumentar o investimento social do Estado, com a criação do seguro-saúde universal, o seguro-desemprego e o Pilar da Solidariedade.

A presença do Estado chileno voltou a crescer. O chamado “milagre chileno” ocorreu nesse período. O desemprego deixado pela ditadura, de 18%, caiu para 6 ou 7 por cento em média. E a população abaixo da linha de pobreza, de 45% para 11%. Na América Latina, o Chile é hoje o país com o mais alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da América Latina e 38º no mundo.

Para tanto, foi criada nova legislação trabalhista, que devolveu parte do poder de negociação aos sindicatos, e foram aumentados significativamente os gastos públicos em saúde. Mas a reversão mais importante ocorreu no campo da educação. O fim da gratuidade do ensino superior, decretada pela ditadura militar no início dos anos 1980, acabou em janeiro de 2018, quando uma lei restabeleceu a gratuidade universal do ensino universitário do país, incluindo todas as universidades, públicas e privadas.

O mais difícil tem sido acabar com a privatização e capitalização da Previdência Social feita durante a ditadura, responsável hoje por ter o Chile uma das maiores taxas de suicídio de idosos no mundo.

A média das aposentadorias chilenas representa hoje 33% do salário recebido pelo trabalhador antes da aposentadoria. Em 2008, no governo Michelle Bachelet, foi criado um complemento estatal, ao qual recorrem 60% dos pensionistas para poder sobreviver. Uma pesquisa recente mostrou que 88% da população chilena quer reverter e mudar o sistema atual de capitalização de Previdência.

Paulo Guedes finge não saber disso. Bolsonaro nem precisa fingir…

Lagos foi o antecessor de Bachelet

Empresários brasileiros que, em março de 2007, participaram de um encontro realizado pela Fundação Dom Cabral puderam debater a experiência chilena com Ricardo Lagos Escobar, que presidiu o país por cinco anos, até março de 2006, quando transmitiu o cargo para Michelle Bachelet, a primeira mulher a se eleger presidente – e que, ao contrário de Dilma Rousseff, não sofreu impeachment por desagradar uma elite ignorante e machista.

Lagos, que era também economista, tinha muito a relatar aos empresários sobre os 12 anos que se seguiram à ditadura, mas muito ainda havia a fazer, tamanhos os estragos ocorridos nos 17 anos de Pinochet. “Creio que efetivamente temos uma tarefa pendente, porque a distribuição da renda não melhorou dos anos 90 até hoje”, admitiu o ex-presidente, que teve uma carreira bem diferente de Luiz Inácio Lula da Silva, que na época do debate no Brasil estava em seu quarto ano como presidente e que encerrou o mandato em 2010 com a mesma frustração: o problema da distribuição de renda só piora…

O que poderia ter feito Lagos diferente de Lula? Ele fez curso na Faculdade de Direito da Universidade do Chile, nos anos 1950. Foi exilado político na Argentina e nos Estados Unidos, onde fez doutorado na Duke University. Lecionou na Universidade do Chile e na Chapel Hill University. E teve papel importante na redemocratização chilena, tornando-se líder dos opositores à ditadura militar. Derrubado Pinochet, foi nomeado ministro da Educação e depois ministro de Obras Públicas, até ser eleito presidente. E assinou tratados de livre comércio com vários países. “Hoje o Chile tem cerca de 30 acordos de livre comércio firmados, dentre outros, com a União Europeia, com países europeus menores, como Suíça e Noruega, com o Canadá, os Estados Unidos e o México”, disse Lagos em 2007. À lista, pode-se acrescente-se hoje, por exemplo, a China.

Lagos conseguiu aumentar os investimentos do governo, não com elevação dos tributos, mas com a redução da sonegação fiscal, de 25% para 18%. Como Lula, governou fazendo coligações e ouvindo empresários e trabalhadores.

Diferente de Lula, ele não está preso. Lagos teve a sorte de ter no seu país uma elite menos odienta e mais bem educada.

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Anúncios

O grande blefe do ministro Guedes

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ministro da Economia do governo Bolsonaro, Paulo Guedes blefa

O ministro da Economia, Paulo Guedes, pediu paciência, durante “um ou dois anos”, para que o Brasil volte a crescer em razão de suas medidas ultraliberais. Terão os brasileiros mais paciência que os chilenos?

Os chilenos, depois de 17 anos submetidos à ditadura Pinochet que ainda orgulha Bolsonaro e Guedes – este, um admirador das reformas defendidas pela Escola de Chicago, que na época era o templo mundial do ultraliberalismo –, perderam a paciência, botaram o general para correr, e voltaram a ser governados pela socialdemocracia.

Para manter os chilenos “pacientes”, a ditadura assassinou 3.200 opositores, prendeu e torturou 38 mil pessoas e 100 mil foram obrigados a se exilar. Durante os primeiros 12 anos da ditadura, os mais brutais, o governo militar impôs “toque de recolher” a todos, de 10 da noite às 6 da manhã.

Esses dados, tirei-os de um artigo, assinado pelo cientista político José Luís Fiori. Tem como título “O ditador, a sua ‘obra’, e o grande blefe do senhor Guedes”. O blefe é apostar que o Chile de Pinochet teve um modelo econômico que deve ser imitado.

Na verdade, um modelo catastrófico, sustenta Fiori, contrapondo-se ao que diz toda a imprensa conservadora e o que expressa o “superministro” de Economia do capitão.

Os economistas da Escola de Chicago imperaram no Chile de 1973, ano do golpe militar, a 1982, quando uma crise catastrófica obrigou Pinochet a estatizar o sistema bancário chileno, demitir o seu superministro da Economia e reverter várias reformas, como a desregulamentação do setor financeiro e da própria política cambial que vinha sendo praticada pelo Banco Central do Chile.

Em 1982, o PIB chileno caiu 13,4%, o desemprego chegou a 19,6% e 30% da população chilena se tornou dependente dos programas de assistência social que foram criados ad hoc, para enfrentar a crise. “E assim mesmo, quatro anos depois, já em 1986, o PIB per capita chileno ainda era de apenas US$ 1.525, inferior ao patamar que havia alcançado em 1973”, diz Fiori.

Quando a ditadura acabou, em 1990, o PIB real per capita médio do Chile havia crescido apenas 1,6% ao ano. A taxa de desemprego estava em 18%. E 45% da população viviam abaixo da linha da pobreza.

Guedes tenta impor ao Brasil, um país de mais de 200 milhões de habitantes e uma indústria relevante, um modelo que fracassou no Chile, que tinha apenas 10 milhões de habitantes em 1973 e uma única indústria importante, a do cobre. É uma indústria estatal que nem mesmo os “Chicago Boys”, em seu auge, ousaram privatizar.

Mas eles, ao longo da ditadura, conseguiram realizar reformas, que se repetiram no mundo, em governos neoliberais: flexibilização ou precarização do mercado de trabalho; privatização do setor produtivo estatal; abertura e desregulação de todos os mercados, e em particular, do mercado financeiro; abertura comercial radical e fim de todo tipo de protecionismo; privatização das políticas sociais de saúde, educação e previdência; e finalmente, privatização inclusive dos serviços públicos mais elementares, tipo água, esgoto, e de fornecimento de energia e gás.

No Brasil de Bolsonaro, elas avançam muito. Bem mais que no de Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer.

Impulsionadas pelo presidente direitista dos Estados Unidos, que nesta semana impôs condições para fechar um acordo comercial com o Brasil. Tais como: proteção à propriedade intelectual americana, redução de barreiras às empresas americanas e restrição do papel das estatais brasileiras.

É um modelo que está levando a Argentina ao fracasso e à derrota eleitoral de seu presidente e que vem se mostrando ineficiente em todos os países que o adotaram. Mas Guedes e seus amigos economistas não desistem. Em suas análises, quando falam do Chile, sempre se esquecem de dizer que esse país só se tornou o que é hoje depois do fim da ditadura e a partir do momento em que voltou a ser governado pela socialdemocracia.

Fazendo lobby pela aprovação de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional), o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, nomeado por Guedes e Bolsonaro, disse na última terça-feira, no Senado, que sem essa aprovação, que autorizaria a União a fazer pagamento de US$ 9 bilhões em indenização à estatal, esta não poderá participar do leilão da cessão onerosa de áreas do pré-sal, previsto para o início de novembro.

Uma boa desculpa para vender tudo às multinacionais do petróleo, como exige Trump, que só quer em seu quintal uma única potência – os Estados Unidos.

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Os 33 sobreviventes e seus 3 elementos vitais

Para ver no cinema: OS 33 (The 33)
Nota 9

33

Todo mundo que acompanhou a história pelo noticiário em 2010 sabe como ela começou e como vai terminar. Não se trata, portanto, de um filme que guarde segredos sobre seu final feliz. Não há spoiler no resgate dos 33 mineiros que foram salvos no Chile, após 69 incríveis dias soterrados, a 700 metros abaixo da terra, num calor de 38 graus, com ar rarefeito, como se estivessem presos em um túmulo.

O filme conta a história de como eles sobreviveram por tanto tempo. Percebemos que, mais difícil que lidar com a fome ou a sede é manter a lucidez, que insiste em esvair por causa do medo e da desesperança. O filme é sobre como 33 homens conseguiram superar a desconfiança, a insegurança, o medo de morrer, a loucura, a ganância, a competição. Unidos.

E também é sobre a importância que a pressão das famílias, da imprensa e da sociedade em geral teve para que o resgate efetivamente acontecesse, inclusive reunindo apoio tecnológico e braçal de outros países, como EUA, Canadá e Brasil. Se dependesse da mineradora que provocou diretamente o acidente, os homens iam ficar por ali mesmo, até morrerem e serem esquecidos.

A interpretação de atores consagrados — como Antonio Banderas, Rodrigo Santoro, Juliette Binoche e Cote de Pablo — foi essencial para a construção de um enredo que se passa, sempre, no mesmo cenário de confinamento e lida principalmente com dramas humanos, personalidades, pequenos momentos de desespero. Chegamos ao fim do filme conhecendo bem a maioria dos 33 homens: Mario Sepúlveda, Don Lucho, O Pastor, Darío, o Boliviano, Álex e Yonni, dentre outros.

Enfim, é uma baita história, do noticiário recente, que foi transformada em um baita filme dirigido pela mexicana Patricia Riggen. Que nos ensina quais são os três elementos que podem salvar vidas, mesmo nas situações mais inconcebíveis de privação: a solidariedade, a esperança e o bom humor. Que sirva de lição para nossas vidas — cheias de ar, espaço, alimento e liberdade. “Gracias a la vida!”

Veja o trailer do filme:

Leia também:

faceblogttblogPague com PagSeguro - é rápido, grátis e seguro!

Os 40 anos de um outro 11 de setembro, o latino-americano

Foto de Pablo Di Boylio. Livros “subversivos” são queimados em plena rua. Chile, 1973.

Foto de Pablo Di Boylio. Livros “subversivos” são queimados em plena rua. Chile, 1973.

Hoje vemos notícias nos jornais falando dos 12 anos do dia em que os Estados Unidos supostamente sofreram um atentado terrorista. Em tempos de Obama buscando desculpas para entrar em guerra com a Síria, prefiro me concentrar em outro 11 de setembro: o golpe financiado pelos mesmos Estados Unidos, há 40 anos, que derrubou Salvador Allende da presidência do Chile (para a qual havia sido eleito democraticamente) e colocou em seu lugar o sanguinário ditador Augusto Pinochet, que ficou no poder de 1973 a 1988. No período, entre 40 mil e 100 mil pessoas morreram no nosso vizinho latino-americano, e 3.225 “desapareceram”. Além disso, como testemunha Clóvis Rossi hoje em artigo na “Folha”, o país teve campos de concentração, queima de livros e soldados que em muito lembravam os nazistas de Hitler.

Reproduzo o texto abaixo, para reavivar nossas memórias, exatos 40 anos depois:

SANGUE AINDA ESCORRIA QUANDO CHEGUEI

“Ainda havia filetes de sangue nas águas rasas do Mapocho, o riozinho que corta Santiago, quando cheguei ao Chile para cobrir o golpe que derrubou o presidente constitucional Salvador Allende Gossens.

Era 21 de setembro de 1973, porque, nos dez dias desde que foi dado o golpe, o Chile ficara fechado por terra, mar e ar para que os militares pudessem provocar o derramamento de sangue que manchou o Mapocho e espalhou-se por todo o Chile, “desde el salar, ardiente y mineral/al bosque austral”, como diz a canção “El pueblo unido jamás será vencido” que o grupo folclórico Quilapayún cantava nos tempos em que o sangue ainda não corria.

Deu tempo também de ver ao vivo o que se tornaria uma foto que ficou famosa no mundo inteiro: a queima de livros que trazia à memória o nazismo alemão.

Via-se então que não apenas o passo de ganso característico dos militares chilenos os aproximava de seus congêneres de outros tempos na Alemanha.

Tornou-se obrigatório deixar um pouco de lado o profissionalismo para oferecer-me como muleta (inútil, logo se veria) a pais de brasileiros exilados no Chile e desaparecidos desde o golpe.

Acompanhava-os ao Estádio Nacional, transformado em campo de concentração e morte, no que acabava sendo uma tortura adicional à falta de notícias sobre os filhos.

Ninguém dava informações à porta do estádio e, na falta delas, os parentes dos presos trocavam os piores presságios e contavam as mais horríveis histórias, que, ao longo dos anos, acabaram se provando verdadeiras, terrivelmente verdadeiras.

Dizia-se, por exemplo, que o cantor e compositor Victor Jara, que era adepto declarado da Unidade Popular, a coligação que o golpe apeou do poder, tivera os dedos quebrados durante a tortura no estádio, para que nunca mais tocasse as canções que embalavam os sonhos da esquerda no poder.

Jara não morreu no Estádio Nacional de Santiago, mas foi torturado até a morte no Estádio Chile, outro campo de concentração.

É fácil para qualquer ser humano com um dedo de sensibilidade sentir o pavor de pais que, primeiro, haviam perdido seus filhos para o exílio, depois do golpe no Brasil, e agora viam fugir a perspectiva de revê-los ainda que massacrados, mas pelo menos vivos.

Havia toque de recolher, primeiro a partir das 18h. Depois, das 20h. Eu me hospedara no então Hotel Carrera Sheraton, atrás do Palácio de la Moneda em que Allende se matou.

As noites eram intermináveis, trancado no quarto.

Olhava pela janela, via os sinais do ataque da Força Aérea ao palácio, uma sombra na praça vazia.

Ninguém na rua.

O semáforo, no entanto, continuava mudando do verde para o amarelo, para o vermelho, para ninguém, salvo um ou outro veículo militar, enquanto ao longe se ouvia o “ratatá” das metralhadoras, porque, dia após dia, noite após noite, “están matando chilenos/ay que haremos/ay que haremos”, como cantavam os Quilapayún.

Ninguém no Chile os ouvia.”