O futuro distópico de um Brasil governado por bolsonaristas e olavistas

– Filho do céu, por que está todo cheio de sangue assim? O que aconteceu? A cara toda inchada, meu filho!

– Foram aqueles caras do grupo de extermínio de novo, mãe.

– Mas o que houve? Você estava com aquele seu amigo gay?

– Não, tenho evitado andar junto com ele, porque, da última vez, eles deixaram meu amigo sem conseguir andar, e pode acabar sobrando pra mim. Prefiro perder um amigo, mas ficar vivo. Ainda mais com todo mundo armado nas ruas o tempo todo. Desta vez foi uma discussão idiota. Você sabe, mãe, não engulo isso de falarem que a Terra é plana. Agora até livro da gente eles estão vasculhando. Eu tava contando a uma amiga o que você me falou sobre conhecimentos científicos, que a gente está aprendendo tudo errado na escola, mostrei seu livro a ela, e os caras viram e partiram pra cima.

– Já falei que não é pra andar com esses livros por aí, filho. Você não levou para o trabalho, né? Já está impossível conseguir um lugar pra trabalhar, se te pegam com um desses, você está fora.

– Uma merda de trabalho daquelas? Se me mandarem embora, já fui tarde!

– Não fale assim, filho. Você sabe que esse trocado que você ganha vai ajudar a pagar sua faculdade. Infelizmente não existe mais faculdade pública no Brasil. Você precisa ver como eram bons os tempos de UFMG, de USP… Mas os caras venderam tudo, as faculdades estão caríssimas, a gente mal consegue ficar empregado, está difícil. Mas faço questão que você estude. Dá sorte de ser homem. Se fosse mulher, tinha aquele tanto de restrição, de curso que não pode fazer, que é só pra homem. Não reclame: nasceu homem, branco e hétero, foi quase como ganhar na loteria.

– Que loteria o quê, mãe. Loteria… E aquilo não é trabalho. Não aguento mais ralar de segunda a segunda, sem folga, sem nada. Como era aquilo que você disse que tinha na sua época?

– (sussurrando) Férias.

– Quê? Férias?

– Férias… Aiai… Vou te explicar de novo, prest’atenção. Tinha um documento chamado carteira de trabalho. Tinha um negócio chamado CLT. Consolidação das Leis de Trabalho. A gente tinha uma porção de direitos… Descanso remunerado todo domingo. Férias remuneradas de 30 dias ao ano.

– Quê?!

– Era tipo uma folga, você ficava 30 dias sem trabalhar nada e ainda ganhava pra isso… Foram acabando com esses direitos um a um, primeiro nas reformas trabalhistas, depois naquela da liberdade econômica, depois numa que chamava MP da desburocratização pelo povo de bem, uma merda qualquer assim. Já foi tanta coisa batizada com cada nome esdrúxulo, que não consigo nem guardar mais. O fato é que foi tudo indo por água abaixo. Hoje você nem sabe o que é carteira de trabalho, né? Nem aprende nada disso na escola! Nem tem jornal pra se informar mais! Não vou nem te falar de novo sobre o que era aposentadoria, porque capaz de você não aguentar, hahahahahahah…

– Do que está rindo? Que droga, mãe, isso é muita injustiça! Eu queria ter nascido na sua época!

– Tou rindo de desespero. Sei lá de quê. Rindo porque eu conheci muita coisa boa, conquistada com suor de décadas, e vi tudo desmoronar, e uma sociedade apática, assistindo a tudo calada, mesmo com os caras falando e fazendo um absurdo atrás do outro, dia após dia.

– Por que não evitaram que isso acontecesse?

– Ah, eu perguntava a mesma coisa sobre o golpe de 1964, filho. Já te contei sobre isso. Você aprende tudo louco na escola, que foi um período áureo do Brasil. Não sei nem pra que existe escola hoje. Mas foi uma ditadura sangrenta e corrupta. E eu ficava me perguntando como deixaram as coisas acontecerem naquela época. Mas é difícil explicar. É muita lavagem cerebral, é muita mentira sendo repetida à exaustão como verdade, é muita ignorância, muito fanatismo, muita manipulação. E assim vai indo, até que uma hora a gente não tem mais qualquer controle sobre nada. Tipo no livro “1984”, que já te dei pra ler. De repente o cara vira o Grande Irmão e você se vê indo pra casa mais cedo, porque tem hora de recolher, e já não tem mais força pra reagir.

– E esses grupos de extermínio? Já existiam na sua época?

– Ah, o Brasil sempre foi muito violento, mas na hora em que você coloca um presidente dizendo que todo mundo que concorda com ele pode atacar livremente os que discordam, que pode fuzilar os que pensam diferente, a coisa muda de figura. Você passa a ter medo do vizinho, do aluno, do guarda da esquina. Todo mundo foi conseguindo mais acesso a armas de fogo, e esses grupos foram se fortalecendo, até hoje virar isso aí que você conhece bem.

– Bom, vou ter que encarar esses caras do bairro de novo, porque já tá na hora da segunda jornada.

– Já?! Nem consegui acabar de limpar suas feridas.

– Não tem jeito, você sabe como é longe, e tenho que fazer tudo a pé…

– Hahahah, você nem sabe o que é ter carro próprio, né, filho! Depois que venderam a Petrobras, babau gasolina acessível. De qualquer forma, o trânsito hoje virou um caos, acabaram com os radares, até com a cadeirinha, as mortes no trânsito explodiram… melhor ficar a pé mesmo.

– Cadeirinha? Do que você tá falando, mãe?

– Nem os bebês se salvaram desses loucos. Bah, deixa pra lá. Mas, filho, ó: cuidado! Não fique batendo boca por causa de ciência. Não vale a pena discutir com esse povo. Se quiser trocar ideia com o pessoal mais cabeça aberta, faça num lugar seguro, não no meio da rua, dando bandeira.

– Eu sei, eu sei, desculpa, mãe. Não tem como ficar vigiando ao redor o tempo todo, tem hora que escapa.

– Ai, se cuida então. Bom trabalho… Ah, FILHO!

– Quê?

– Não se esqueça da máscara. Hoje o ar tá irrespirável lá fora.

– O Brasil tá irrespirável, mãe.

– Sim, você tem razão. O Brasil tá irrespirável há 15 anos. Com máscara ou sem. Vai com Deus, meu filho.

Este slideshow necessita de JavaScript.


P.S. Neste domingo (25) vai haver protesto aqui em Belo Horizonte contra o governo Bolsonaro e as queimadas desenfreadas na Amazônia, assim como já ocorreram em várias cidades do Brasil e do mundo. Vai ser às 10h, na Praça do Papa. Nos veremos lá!

Conto atualizado no dia 7.9.2019

Leia também:

  1. O fanatismo, o fascista corrupto, as fake news e minha desesperança
  2. Brasil, o ex-país do Carnaval
  3. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
  4. Fanatismo é burro, mas perigoso
  5. Para uns, para outros e para mim
  6. Tem certeza absoluta? Que pena
  7. Post especial para quem se acha com o rei na barriga
  8. Reflexão para as pessoas cheias de si
  9. A saudável loucura de cada um de nós
  10. Qual é a sua opinião, cidadão?
  11. Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil contemporâneo
  12. Mais posts sobre fanatismo
  13. Mais posts sobre as eleições
  14. Fanatismo é burro, mas perigoso
  15. O que acontece quando os fanáticos saem da internet para as ruas
  16. Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Anúncios

O grande blefe do ministro Guedes

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ministro da Economia do governo Bolsonaro, Paulo Guedes blefa

O ministro da Economia, Paulo Guedes, pediu paciência, durante “um ou dois anos”, para que o Brasil volte a crescer em razão de suas medidas ultraliberais. Terão os brasileiros mais paciência que os chilenos?

Os chilenos, depois de 17 anos submetidos à ditadura Pinochet que ainda orgulha Bolsonaro e Guedes – este, um admirador das reformas defendidas pela Escola de Chicago, que na época era o templo mundial do ultraliberalismo –, perderam a paciência, botaram o general para correr, e voltaram a ser governados pela socialdemocracia.

Para manter os chilenos “pacientes”, a ditadura assassinou 3.200 opositores, prendeu e torturou 38 mil pessoas e 100 mil foram obrigados a se exilar. Durante os primeiros 12 anos da ditadura, os mais brutais, o governo militar impôs “toque de recolher” a todos, de 10 da noite às 6 da manhã.

Esses dados, tirei-os de um artigo, assinado pelo cientista político José Luís Fiori. Tem como título “O ditador, a sua ‘obra’, e o grande blefe do senhor Guedes”. O blefe é apostar que o Chile de Pinochet teve um modelo econômico que deve ser imitado.

Na verdade, um modelo catastrófico, sustenta Fiori, contrapondo-se ao que diz toda a imprensa conservadora e o que expressa o “superministro” de Economia do capitão.

Os economistas da Escola de Chicago imperaram no Chile de 1973, ano do golpe militar, a 1982, quando uma crise catastrófica obrigou Pinochet a estatizar o sistema bancário chileno, demitir o seu superministro da Economia e reverter várias reformas, como a desregulamentação do setor financeiro e da própria política cambial que vinha sendo praticada pelo Banco Central do Chile.

Em 1982, o PIB chileno caiu 13,4%, o desemprego chegou a 19,6% e 30% da população chilena se tornou dependente dos programas de assistência social que foram criados ad hoc, para enfrentar a crise. “E assim mesmo, quatro anos depois, já em 1986, o PIB per capita chileno ainda era de apenas US$ 1.525, inferior ao patamar que havia alcançado em 1973”, diz Fiori.

Quando a ditadura acabou, em 1990, o PIB real per capita médio do Chile havia crescido apenas 1,6% ao ano. A taxa de desemprego estava em 18%. E 45% da população viviam abaixo da linha da pobreza.

Guedes tenta impor ao Brasil, um país de mais de 200 milhões de habitantes e uma indústria relevante, um modelo que fracassou no Chile, que tinha apenas 10 milhões de habitantes em 1973 e uma única indústria importante, a do cobre. É uma indústria estatal que nem mesmo os “Chicago Boys”, em seu auge, ousaram privatizar.

Mas eles, ao longo da ditadura, conseguiram realizar reformas, que se repetiram no mundo, em governos neoliberais: flexibilização ou precarização do mercado de trabalho; privatização do setor produtivo estatal; abertura e desregulação de todos os mercados, e em particular, do mercado financeiro; abertura comercial radical e fim de todo tipo de protecionismo; privatização das políticas sociais de saúde, educação e previdência; e finalmente, privatização inclusive dos serviços públicos mais elementares, tipo água, esgoto, e de fornecimento de energia e gás.

No Brasil de Bolsonaro, elas avançam muito. Bem mais que no de Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer.

Impulsionadas pelo presidente direitista dos Estados Unidos, que nesta semana impôs condições para fechar um acordo comercial com o Brasil. Tais como: proteção à propriedade intelectual americana, redução de barreiras às empresas americanas e restrição do papel das estatais brasileiras.

É um modelo que está levando a Argentina ao fracasso e à derrota eleitoral de seu presidente e que vem se mostrando ineficiente em todos os países que o adotaram. Mas Guedes e seus amigos economistas não desistem. Em suas análises, quando falam do Chile, sempre se esquecem de dizer que esse país só se tornou o que é hoje depois do fim da ditadura e a partir do momento em que voltou a ser governado pela socialdemocracia.

Fazendo lobby pela aprovação de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional), o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, nomeado por Guedes e Bolsonaro, disse na última terça-feira, no Senado, que sem essa aprovação, que autorizaria a União a fazer pagamento de US$ 9 bilhões em indenização à estatal, esta não poderá participar do leilão da cessão onerosa de áreas do pré-sal, previsto para o início de novembro.

Uma boa desculpa para vender tudo às multinacionais do petróleo, como exige Trump, que só quer em seu quintal uma única potência – os Estados Unidos.

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Pré-sal: quem desdenha quer vender

Rio de Janeiro, 1948. Foto: Walter Bernardes

Rio de Janeiro, 1948. Foto: Walter Bernardes

Texto escrito por José de Souza Castro:

No dia 5 de maio último escrevi neste blog artigo intitulado “O que se pode esperar de Parente na Petrobras”. Passados quase cinco meses, não tenho o que mudar no texto. Como dito ali, ele acaba de confirmar que pretende repassar pedaços do pré-sal à iniciativa privada e, ao invés de valorizar o ativo à venda, cobiçado pelas grandes petroleiras internacionais, desdenha dele.

Pedro Parente é ágil e não se limita a apoiar o projeto de lei do senador tucano José Serra (hoje ministro das Relações Exteriores) em tramitação no Congresso Nacional. Ele quer vender a Petrobras aos pedaços, aparentemente sem qualquer preocupação com o fato de que não é a melhor hora de vender, tendo em vista o momento atual da economia global.

O presidente da Petrobras parece ter ojeriza às termoelétricas (que também pretende vender), talvez porque tenha algum sentimento de culpa em relação a elas. Vale repetir esse trecho de nota da Federação Única dos Petroleiros (FUP), de maio: Continuar lendo