- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Este é um dos livros mais estranhos que já li na vida. A começar pelo nome, que não sei pronunciar direito (Sátántangó), e que, segundo consta no Google, “é uma palavra húngara que se traduz como ‘Tango de Satã’ ou ‘Tango do Diabo'”.
Ele foi escolhido para o encontro deste mês (hoje!) do melhor clube do livro de BH, na melhor biblioteca de BH, porque logo antes, em 9 de outubro, seu autor, László Krasznahorkai, foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura.
O primeiro impacto que causa estranhamento na gente é a forma da narrativa. Temos um livro dividido em duas partes, cada uma com seis capítulos (de 1 a 6 e, depois, de 6 a 1, estrutura que remete aos passos do tango, segundo li depois). E há apenas um parágrafo em cada capítulo.
Ou seja, temos um livro de 227 páginas com apenas 12 parágrafos! Na prática, estamos falando de blocos de texto enormes, sem nenhum respiro, verdadeiros tijolos densos de palavras, muitas vezes com frases também compridas como serpentes.
O resultado é que a gente precisa de uma concentração cavalar para dar conta da leitura. Não dá nem pra piscar, que a gente acaba perdendo o fio da meada. Foram várias as vezes em que me peguei distraída e tendo que voltar algumas frases para tentar entender o que estava acontecendo. Cansativo.
Por outro lado, algumas partes me pegaram de jeito, como se o autor tivesse jogado um anzol e me fisgado no meio daquele parágrafo de várias páginas de comprimento. Mesmo quando eu já estava caindo de sono (tenho o costume de ler já deitada para dormir), sem entender direito o que se passava naquele momento, quase jogando a toalha de vez, acabava me vendo de repente entretida com os diálogos ou com alguma descrição de alguma cena maluca (tipo a menina tentando matar o gato). E, assim, surgia uma concentração inesperada, que me fazia navegar suavemente por mais dez, quinze páginas.
Ou seja, o autor tem a capacidade de nos prender, de nos puxar para a história, quando menos esperamos. Mas daí, terminado mais um capítulo, tudo começa de novo: o esforço para nos concentrarmos, para tentarmos entender quem é que está ali agora, o que está acontecendo, que história é aquela.
Não por acaso, a capa, contracapa e a orelha do livro editado pela Companhia das Letras (primeiro desse autor húngaro no Brasil) traz as seguintes observações:
“profundamente inquietante”
“um romance monstruoso”
“László Krasznahorkai nos conduz por um lento fluxo de lava modernista, como se entrássemos e saíssemos de becos escuros e impossíveis”
“Um romance implacável e fascinantemente sombrio”
“O mestre húngaro do apocalipse”
“longas e sinuosas frases”
“Não há nada parecido na literatura atual”
Eu não poderia concordar mais com esta última frase (e também com as outras). Nunca li nada parecido. Sombrio, sim, implacável, também, cheio de becos escuros, de personagens perturbados (e perturbadores), de chuva interminável, de miséria, lama, sujeira, teias de aranhas invisíveis, lunáticos, todos regados a MUITO álcool e cigarro.
E sobre o que é essa história, afinal? Para mim, é sobre o duelo entre a desesperança e a esperança, esta última oferecida ou prometida por um messias, um líder, um (suposto) salvador daquela gente. Que, como todo messias, desperta fanatismo crédulo, de um lado, e ceticismo ou ódio, de outro.
(E, quase sempre, é só um trapaceiro mesmo.)
Se me perguntarem se gostei deste livro, não saberei responder de forma muito direta. Tenho uma planilha em que anoto todas as minhas leituras (eu sei, não bato muito bem da cabeça), desde que eu tinha 12 anos de idade. Um dos campos é para colocar o que achei do livro. Quase sempre varia entre ruim, médio, bom, muito bom e ótimo (veja lá embaixo como classifiquei os outros livros do clube do livro). Neste “Sátántangó”, me limitei a escrever “estranho”.
Algumas passagens de seu tijolo ensandecido guardam descrições mágicas, que realmente me fizeram enxergar aquela cena, como se eu estivesse dentro dela. Um tipo de teletransporte que só as grandes literaturas são capazes de conseguir, daqueles que dá vontade de estudar e até imitar. Como neste trecho da página 39:

Alguns diálogos também me prenderam como se eu estivesse vendo um filme, mesmo sendo um punhado de aspas amontoadas sem muita explicação sobre o interlocutor da vez. Isso é proeza para poucos narradores.
O tema também me interessa, porque, desde sempre na história da humanidade, e até hoje, vemos surgir esses messias, menos ou mais picaretas, com suas promessas de um mundo melhor. E é interessante notar o que suas palavras e ideias são capazes de causar nas pessoas. (Acredito que o autor tenha sido chamado de “visionário” muito por isso.)
Mas, apesar de todos esses pontos positivos, não é um livro fácil nem agradável. Terminei a jornada extenuada, como se tivesse eu mesma naquele assentamento grotesco dos infernos, ou dentro daquela casa imunda do médico obeso e obsessivo, e com a certeza de que, se não fosse o clube do livro, talvez eu tivesse pegado o atalho mais fácil já nos primeiros capítulos (ou passos do tango): o da desistência.
(Mas talvez esta seja uma das melhores coisas de um clube do livro. Não desisti. Experimentei. E sobrevivi pra contar como foi.)
Sátántangó
László Krasznahorkai
Ed. Companhia das Letras
227 páginas
R$ 67,64 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)
Leia as resenhas de outros livros já discutidos no clube do livro:
- Dentes, de Domenico Starnone (bom)
- Coelho Maldito, de Bora Chung (muito bom)
- A Fábrica, de Hiroko Oyamada (bom)
- Caderno Proibido, de Alba de Céspedes (ótimo)
- A Contagem dos Sonhos, de Chimamanda Ngozi Adichie (muito bom)
- Setembro Negro, de Sandro Veronesi (bom)
- Velar Por Ela, de Jean-Baptiste Andrea (ótimo)
- Dona Bárbara, de Rómulo Gallegos (muito bom)
Mais autores que ganharam o Prêmio Nobel de Literatura:
- Han Kang, sul-coreana – Nobel de 2024
- Annie Ernaux, francesa – Nobel de 2022
- Olga Tokarczuk, polonesa – Nobel de 2018
- Kazuo Ishiguro, japonês – Nobel de 2017
- Bob Dylan, norte-americano – Nobel de 2016
- Alice Munro, canadense – Nobel de 2013
- Mario Vargas Llosa, peruano – Nobel de 2010
- José Saramago, português – Nobel de 1998
- Wisława Szymborska, polonesa – Nobel de 1996
- Toni Morrison, norte-americana – Nobel de 1993
- Gabriel García Márquez, colombiano – Nobel de 1982
- John Steinbeck, norte-americano – Nobel de 1962
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