A infestação de escorpiões e nossa capacidade de tolerar o intolerável

Escorpião em foto de 2014. Crédito: Hjalmar Turesson / Wikimedia
Escorpião em foto de 2014. Crédito: Hjalmar Turesson / Wikimedia

Quando me mudei para o prédio onde vivo com minha família, ele estava infestado de escorpiões. Além de eu ter horror a este animal peçonhento, tinha um medo real que acontecesse algum acidente com meu filho, que na época tinha só 2 aninhos – e uma picada poderia ser fatal para ele.

Achei que esta era uma preocupação geral no prédio de 44 apartamentos. Qual não foi minha surpresa ao levar o assunto à minha primeira reunião de condomínio e ouvir dos vizinhos:

Ah, sempre foi assim. Aqui sempre teve escorpiões.

Oi?

Não é porque uma coisa “sempre foi assim” que devemos nos acostumar a ela. Pior ainda quando é uma coisa claramente ruim, que faz mal, que é abusiva, tóxica ou tem potencial de matar.

Nesse caso não devemos aceitá-la de jeito nenhum, não podemos ser coniventes com ela. Ser uma situação que já existe há muito tempo não pode ser justificativa.

Isso vale pra tudo. Pela lógica do “sempre foi assim”, as mulheres não poderiam votar até hoje, porque as sufragistas não teriam lutado para que conquistássemos esse direito (no Brasil, só em 1932). Não seríamos hoje 52% do eleitorado.

Vale também para o trabalho. Não é porque “sempre houve” exploração que a gente tem que aceitar situações abusivas dos empregadores ou tóxicas no ambiente de trabalho.

Quando entrei na Globo, as pessoas em cargos de chefia, como eu, tinham que fazer TREZE HORAS de plantão aos sábados. Tínhamos que começar cedo, para pensar no MG1, seguir tarde adentro por causa do MG2 e só podíamos ir embora depois que o Jornal Nacional terminasse. TREZE HORAS DE PLANTÃO, em ritmo frenético – no meu caso, tendo que acumular dois cargos totalmente diferentes, que era a chefia de reportagem da TV com a coordenação do g1 Minas.

No dia seguinte, eu acordava com o corpo todo doendo. Era um fim de semana perdido, eu não conseguia fazer mais nada além de trabalhar. Exaustivo. Mas alguns achavam que não era o caso de reclamar ou propor uma mudança. Afinal, “era assim”. Só que eu reclamei, e muito, e a mudança acabou vindo, com uma escala entre as pessoas em cargo de liderança, pra quebrar esse plantão em duas metades.

Esse é só um exemplo. Em muitas outras situações, o escorpião já estava instalado na empresa, o veneno já tinha sido destilado entre os funcionários, e eu também aceitei, acatei, concordei, me acostumei ou fui conivente.

Noutros casos, não fui nada disso, mas tampouco consegui mudar a engrenagem, mesmo me esforçando muito (aliás, foi o que aconteceu no último jornal onde estive, em que preferi pular fora e me salvar a forçar uma mudança de mentalidade e cultura que a velha guarda não admitia).

Mesmo que nem sempre dê certo, é importante pelo menos ter ciência de que a infestação de escorpião existe e de que ela não faz bem. E que, mesmo que esteja ali instalada há anos ou décadas, sempre é possível combatê-la ou, pelo menos, minimizar os males que ela provoca.

Já vai fazer oito anos que estamos aqui, morando no mesmo prédio. Com muita pesquisa e esforço coletivo, além da contratação de uma empresa especializada, conseguimos resolver o problema dos escorpiões. E, sempre que essa praga ameaça voltar, a gente dobra o esforço para que se mantenha longe. Mas, como diz a música, “é preciso estar atento e forte” – sempre.

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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