O menino passou acabrunhado, com cara de quem estava constrangido ou com vergonha. Isso é meio incomum para crianças de uns 11 anos, então prestei atenção à cena, que acontecia entre mim, sentada na cadeira lendo um livro, e a piscina do clube.
O menino perguntava baixinho para o salva-vidas que estava logo à sua frente:
– É só isso? Preciso fazer mais alguma coisa?
– Não, só isso, pode ir.
O salva-vidas estava sério e, logo depois de liberar o garoto, pegou o walkie-talkie e falou aquelas mensagens cifradas que as pessoas falam em walkies-talkies, e que nunca entendo. Que-xis-pe-ka, algo assim. Parecia estar chamando reforços.
A cena teria logo se apagado da minha memória, se, pouco depois, eu não tivesse visto quando uma menina pulou na piscina e foi logo alertada por outra salva-vidas:
– Esta piscina está interditada, viu? Fizeram cocô dentro dela.
A menina saiu da água num pulo e, com outros dois amigos, foi averiguar onde estava o tal cocô. “Será que ainda dá pra ver?”
Um montinho de gente se juntou ao redor da piscina, espiando para dentro.
– Mamãe! Mamãe! Eu vi um pedaço do cocô! – gritou meu filho, esbaforido, voltando de lá. Em seguida, deu detalhes excessivamente detalhados, que vou poupá-los de conhecer neste relato.
A notícia se espalhou, e o dejeto inconveniente feito em plena piscina, num fim de tarde de janeiro, virou uma verdadeira atração. Toda hora apareciam novas crianças curiosas (sempre elas!) querendo saber:
– Cadê o cocô?
Um grupo de adolescentes também chegou na beira da piscina, falando alto e rindo, e uma jovem acabou empurrada para dentro d’água. A salva-vidas surgiu, impaciente, dizendo que todos deveriam sair dali ou levariam uma ocorrência. Fiquei curiosa para saber como seria lavrada esta infração…
Logo um grupo de funcionários do clube apareceu para uma verdadeira operação de guerra contra o famoso cocô. Munidos de tubos, canos, rodos e um equipamento grande e verde, que depois descobri ser um filtro, ficaram cerca de 40 minutos ocupados na zona de perigo da piscina. Seis funcionários chegaram a ser alocados naquela trincheira.
Além da tarefa árdua de desinfetar a área de lazer, ainda tinham que lidar com os adultos, que passavam brincando:
– Foi ele que fez o cocô!
– Não, foi ele!
Pelo visto, o excremento era um astro da comédia, o rei do pedaço.
Uma pessoa com senso de humor menos refinado preferiu perguntar como era o processo de limpeza da piscina. “Acho que esvaziam a água toda pra esfregar com sabão”, dizia seu filhinho. A funcionária explicou que não, bastava passar aquele rodinho e os dutos de sucção também faziam o trabalho de levar a água suja para dentro do filtro, que depois a devolvia, limpinha e cheirosa.
Ela também deixou escapar que cocôs na piscina são mais comuns do que se pensa. “É fisiológico né, acontece”, deu de ombros. Ao que um colega emendou: “Toda hora chega uma surpresinha dessas pra gente limpar”. E a primeira:
– Vocês é que não ficam sabendo.
Agora é tarde: eu já sei. E você, que leu este texto, também. Olharemos desconfiados antes de entrar em cada piscina. Prestaremos atenção a cada menino tímido procurando um salva-vidas depois de um desarranjo intestinal.
Mas também saberemos agradecer, aliviados, a cada membro da operação de guerra que aparecer para nos livrar, munidos de tubos, rodos e muita paciência, daquele alienígena na água.
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A pior parte é o “é mais comum do que você pensa” kkkk
Ótimo texto, Cris!
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Hahahah, obrigada, Lalá! 😀
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