Sociólogo italiano morreu em 9 de setembro de 2023, aos 85 anos. Relembro algumas de suas ideias em uma palestra a que assisti em Belo Horizonte, em 2007.
Texto escrito por José de Souza Castro:
Sábado passado, enquanto passava uns dias de ócio com parte pequena de minha família na chácara, recebi com pesar, pela imprensa, a morte do sociólogo italiano Domenico De Masi, a quem conheci de perto quando eu colaborava com a Fundação Dom Cabral (FDC) na publicação de sua revista, a “DOM”.
Fui ler, já em casa, no domingo, o número 4 da revista, de fevereiro de 2007, cujo destaque na capa tinha como título “O Segredo das Organizações Criativas”. Era uma transcrição editada da palestra feita por Masi para 260 empresários e executivos reunidos no X Encontro Anual da Rede PAEX – Parceiros para a Excelência, promovido pela FDC com grupos de empresas brasileiras de médio porte.
Masi, nascido em Rotello, no Sul da Itália, era famoso pelo livro “O Ócio Criativo“, de 1995, que se tornou um best-seller. O autor começou a escrever sobre sociologia do trabalho aos 19 anos. Mais tarde, foi professor da famosa Universidade de Roma La Sapienza.
Domenico De Masi veio ao Brasil muitas vezes e se tornou amigo de Lula, a quem visitou quando ele estava preso pelo inominável juiz da Lava Jato e que, como lembrou o presidente brasileiro no dia de sua morte, foi visitado por ele na Itália há cerca de três meses. “Sempre foi um defensor das causas sociais”, disse Lula.

Em 2010, Masi recebeu o título de cidadão honorário do Rio de Janeiro.
Em seu livro “O Futuro Chegou”, de 2014, Masi analisou o modelo de sociedade do Brasil, copiado durante séculos dos modelos europeus e estadunidenses, e defendeu que o país, diante da crise enfrentada por eles, tinha a chance de desenvolver seu próprio modelo de sociedade.
Errou feio, com o impeachment de Dilma Rousseff e a chegada de Temer e Bolsonaro.
Os paradoxos nas empresas e no trabalho
Mas, voltando à palestra de Masi que cobri em 2007. Nela o sociólogo compartilhou algumas de suas ideias, que relembro a seguir.
Por mais de dois séculos, até o fim de 2020, a empresa industrial foi uma instituição central em todos os países industrializados. Isso deixou de existir, sobretudo por causa da globalização e pelo fato de que a economia prevalece sobre a política e as finanças sobre a economia.
O segundo motivo é o paradoxo da riqueza. A empresa é capaz de produzir riqueza, mas não tem instrumentos suficientes para distribuí-la. “Investe-se mais em publicidade de rações para cães e gatos do que para distribuir às crianças que morrem de fome”.
As estatísticas de 2007 mostravam que um habitante da Europa consumia mais que 52 habitantes da Índia.
As organizações empresariais enfrentavam ainda outros paradoxos. Por exemplo: a expectativa de vida é cada vez maior, mas o período de tempo que dedicamos ao trabalho é cada vez mais curto. Outros:
- A cada dia diminui a diferença entre os conhecimentos dos chefes e dos subordinados, mas a diferença entre os salários é cada vez maior.
- A população está cada vez mais culta, mas as empresas ainda oferecem trabalho que não requer inteligência.
- Existem todas as condições tecnológicas para introduzir o teletrabalho, que economizaria tempo e dinheiro e reduziria a poluição, mas a empresa cria raízes dentro de suas muralhas e exige a presença ali de todos os trabalhadores.
- Difunde-se cada vez mais o senso estético da vida, mas nas empresas se fazem coisas tediosas. Os próprios ambientes empresariais são assépticos, neutros, cinzentos.
- Queremos que nossos colaboradores sejam pessoas maduras e adultas, porém, estimulamos atitudes e comportamentos serviçais e infantis.
- Invoca-se a importância da emotividade, mas as empresas expulsam emoções e sentimentos.
- As mulheres estudam hoje mais que os homens mas, nas empresas, fazem uma carreira menor, não sobem os degraus.
- Aumenta a liberdade sexual em todas as sociedades industriais, mas as empresas são cada vez mais sexofóbicas.
- Continuamente, invocamos a solidariedade, enquanto as empresas incutem na cabeça dos funcionários a competitividade destrutiva.
Domenico Masi disse que seus estudantes tinham em média 20 anos de idade, e tinha que ensiná-los a viver, enquanto todos os professores falavam sempre de trabalho e ensinavam como trabalhar. Esses jovens teriam em média mais 60 anos de vida – ou 530 mil horas.
“Se conseguir agora um emprego e trabalhar até os 60 anos”, calculou, “esse meu aluno tem à frente 530 mil horas de vida e 80 mil horas de trabalho. Existe uma diferença de 450 mil horas, e o que ele fará nesse tempo?”.
Já deu para perceber, por esse breve relato, a preocupação de Domenico De Masi com o ócio criativo, não é mesmo?
Que suas ideias, já tão revolucionárias em 1995 e ainda instigantes em 2007, continuem trazendo reflexões nas novas configurações de trabalho desta era pós-pandemia.

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Quem quiser ler mais sobre as ideias de Domenico De Masi pode baixar gratuitamente, aqui na Biblioteca do Blog, o livro do meu pai, “A Mosca do Aécio Neves”. Tem muita coisa interessante no livro todo, mas, sobre De Masi e suas ideias, está a partir da página 95: https://kikacastro.files.wordpress.com/2012/02/livro-ac3a9cio.pdf
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