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‘Drive my Car’: pouca história para muito tempo

Não vale ir ao cinema para ver: DRIVE MY CAR (Doraibu mai kâ)
Nota 4

 

Kafuku, seu velho carro, e a motorista Watari.

 

Eu só me pergunto por quê, meu-deus-do-céu, por que os filmes andam tão longos. Dos dez filmes com mais indicações nos Oscars deste ano, somente dois (coincidência ou não, os melhores até agora) têm menos de 2 horas de duração. Quatro têm mais de 2 horas e meia – incluindo este exasperante “Drive my car“, que tem TRÊS HORAS DE DURAÇÃO, que poderiam facilmente ter sido duas.

É só cortar, gente! Cortar! Editar! Estão faltando bons editores em Hollywood desde o início da pandemia? Onde foram parar? Ou agora as pessoas acham que quanto mais longo necessariamente melhor? Às vezes tenho a impressão de que alguns diretores acham que os silêncios em excesso, que as cenas paradas ao longo de vários segundos, ajudam a dar profundidade – ou densidade – à trama. Mas não é bem assim.

Ou pelo contrário: o que salva em “Drive my car” são justamente seus poucos diálogos. Diga-se de passagem: os diálogos da história baseada no conto de apenas 40 páginas de Haruki Murakami, e não as incontáveis cenas de releituras da peça “Tio Vânia”, de Tchécov.

As melhores cenas deste filme arrastado acontecem quando seus dois personagens principais quebram a fleuma e simplesmente falam. E aí temos palavras importantes que nos fazem pensar em amor, em luto, em dor.

Mas, até que isso aconteça, já se passaram mais de duas horas de filme (para se ter uma ideia, os créditos são apresentados só depois dos 40 primeiros minutos), em que muito pouca coisa realmente acontece.

O problema não é nem os personagens serem silenciosos. Vivemos isso no belíssimo “Minari“, que concorreu ao Oscar no ano passado. Mas olha o que escrevi sobre ele neste mesmo blog:

“Minari é um filme sobre tanta coisa que nem parece que ele acontece só dentro de 1 hora e 55 minutos, com tão poucos diálogos. Dá vontade de morar lá dentro.”

Ou seja: havia, sim, poucos diálogos, muitos silêncios. Mas muita coisa acontecia e houve uma edição bem feita que nos permitiu mergulhar de cabeça em menos de duas horas e nem notar que o filme corria.

Já vi alguns comparando “Drive my Car” a “Parasita“, outro sucesso do Oscar, mas de 2020. Para mim, tirando o puxadinho dos olhos dos atores, os dois filmes não têm absolutamente NADA em comum. Justamente porque, em suas 2 horas e 12 minutos, o filme sul-coreano nos prende numa intrincada teia de acontecimentos que nos deixa sem fôlego até o finalzinho. E isso simplesmente não ocorre neste filme japonês de agora. Nele temos um plot depois de meia hora de filme, e depois um deserto de acontecimentos nas duas horas seguintes, e mais uma meia hora final que faz uma costura tênue de tudo o que vimos.

E a diferença entre os dois será notada no dia 27 de março: enquanto “Parasita” foi o primeiro filme não falado em inglês a vencer a categoria principal do Oscar há dois anos, “Drive my car” deve levar no máximo o prêmio de melhor filme estrangeiro.

Deixemos os prêmios de melhor filme do ano, direção e roteiro com outros concorrentes…

 

P.S. Nunca li Murakami e este filme não me tirou a vontade de lê-lo; pelo contrário: fiquei curiosa para saber como essa história longuíssima tinha sido originalmente escrita em um conto sucinto de 40 páginas. Os fãs de Murakami que me perdoem, mas este não foi o primeiro nem será o último filme a fazer uma adaptação ruim de um livro bom, supondo que o livro seja bom. (De novo: onde foram parar os bons editores?).

 

Veja o trailer do filme:

 

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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