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‘Coda’: dividida entre dois mundos, numa sociedade com pouco espaço para a inclusão

Vale a pena ver no Amazon Prime Video: NO RITMO DO CORAÇÃO (Coda)

Nota 9

 

Fazia tempo que eu não me emocionava tanto assim com um filme.

Além de ter chorado em vários momentos (de escorrer lágrimas incontroláveis mesmo), eu também fiquei arrepiada, fiquei triste, feliz, com raiva, ri de gargalhar em algumas cenas.

Temos aqui uma família diferente. Um casal de surdos, com o filho mais velho também sem audição, e a caçula é uma “coda”, ou seja, “Child of Deaf Adults”, ou filha de pais surdos. Como todos os codas, ela é bilíngue: consegue ouvir e se comunicar em inglês (no caso do filme) e também na língua de sinais.

E ela passa seus 17 anos agindo como intérprete de seus pais e irmão, pensando que, com isso, consegue protegê-los, por exemplo, de serem roubados na venda dos peixes que eles pescam com ajuda dela.

Eis que ela descobre que tem um grande talento como cantora.

“Adolescentes! Se eu fosse cega, você ia querer ser pintora?”, pergunta sua mãe, sarcasticamente, quando ela compartilha o desejo de estudar música.

A jovem Ruby está literalmente dividida entre dois mundos. Quer seguir sua vida, quer esmerar-se em seu dom, no amor pela música, que a faz feliz, mas também quer ajudar sua família. “Mas não precisamos de ajuda. Não somos indefesos só por sermos surdos”, argumenta seu irmão mais velho, em outra cena de diálogo bastante tenso.

Cena do filme “Coda”, em que a filha Ruby é intérprete para a família.

O filme tem essa riqueza de conversas sem som – mas riquíssimas em expressões corporais –, em diálogos bem amarrados, sensíveis, ágeis, que nos fazem pensar em uma porção de coisas.

O que faríamos se estivéssemos no mesmo dilema em que se encontra, no momento, a adolescente Ruby? Será possível conciliar a família com o sonho, com a carreira, com a vida própria e independente? E será que essa mesma família não consegue se virar sem a caçula coda, como disse o filho mais velho?

É um filme sobre inclusão, exclusão, bullying, acolhimento, sobre família e educação – sim, porque boa parte da história se passa no temível ensino médio, e um dos professores desempenha aquele papel de mentor/mestre que aparece vez ou outra na vida – e nos filmes – e que faz a diferença para muita gente. Ele é interpretado maravilhosamente pelo mexicano Eugenio Derbez.

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Os atores que interpretam a família surda também são todos surdos, o que enriquece demais a narrativa. Um deles, Troy Kotsur, que interpreta o pai, concorre ao Oscar de melhor ator coadjuvante. E tem chances reais de ganhar, porque foi quem levou a melhor na premiação do sindicato de atores.

A atriz Emilia Jones, que faz a “coda” Ruby, única que escuta em uma família de surdos.

Já a protagonista de 20 anos Emilia Jones passou nove meses estudando duas das habilidades que ela mais usa na trama: o canto e a linguagem de sinais. E ela interpreta as duas coisas com muito vigor e emoção, de forma bem visceral, às vezes raivosa, como cabe a todo adolescente que se preze. Não foi indicada ao Oscar, mas já ganhou o respeito de muita gente, tendo levado inclusive 11 prêmios importantes, até agora.

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Depois de ver este filme, muita coisa na sua cabeça vai ganhar perspectiva nova. Inclusive o estranhamento inicial ao ver os personagens conversando com as mãos, que rapidinho vai dar lugar ao hábito, à dita “normalidade”.

Pra melhorar, a história é entremeada com música, e música BOA. Você nunca mais vai ouvir de novo as canções “You’re All I Need to Get By” (famosa com Marvin Gaye) e “Both Sides Now”, da Joni Mitchell, sem se emocionar com o sentido que elas têm.

Quer uma palhinha? Aí vai:

 

Mas como é para um surdo assistir a um show de música? Ver as emoções de todos ao redor sem poder compartilhar delas da mesma forma? Depende: outras duas cenas do filme nos mostram como isso é possível.

Mas também mostram que há ainda um longo caminho pela frente por um mundo mais inclusivo

“Coda”, que ganhou a tradução cafonérrima de “No ritmo do coração”, também concorre ao Oscar por seu roteiro adaptado por Siân Heder e no prêmio mais importante, de melhor filme do ano. Merece estar entre os melhores, sem dúvida.

 

Assista ao trailer do filme:

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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