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Mortes, ataques e trabalho de formiguinha: há algo a celebrar no Dia do Jornalista?

Jornalistas trabalhando. Foto: The Climate Reality Project

Hoje é celebrado o Dia do Jornalista no Brasil. Para falar a verdade, embora eu tenha jornalismo na veia há tantos anos, eu não sou muito ligada em datas e quase nunca lembro do dia 7 de abril, até que comecem a chegar os parabéns etc.

Então, quando recebi hoje cedo, no meu celular, o dossiê divulgado pela Fenaj, a Federação Nacional dos Jornalistas, não me toquei de que ele estava sendo divulgado hoje por causa da efeméride.

O relatório diz que, assim como acontece com quase todas as estatísticas ligadas à pandemia da Covid-19, se não todas, o Brasil está em pior posição também no que diz respeito a jornalistas mortos pela doença.

Foram 169 vítimas, “tornando o Brasil o país com maior número de jornalistas mortos por Covid-19 no mundo“, segundo o dossiê.

Eu tinha acabado de ler, na verdade, quando vi o Sindicato dos Jornalistas de Minas divulgando a morte de uma profissional de Uberaba, que morreu aos 48 anos. Ou seja, o número subiu, de uma hora para outra, para 170 jornalistas mortos.

Pode ser “baixo”, comparado ao número de profissionais de saúde na linha de frente vitimados. Mas vale lembrar que muitas Redações do país adotaram o regime de home office (algo impossível de se fazer com médicos e enfermeiros), e muitos jornalistas estão trancafiados em casa há mais de um ano, apurando as informações pela internet e telefone. Mesmo assim, morreram.

Enfim, como eu disse no início do post, é só mais uma das estatísticas em que o Brasil está se superando em ser o pior do mundo.

Em janeiro, a mesma Fenaj já havia divulgado, em outro relatório, que a violência contra jornalistas cresceu 105,77% em 2020, primeiro ano da pandemia, e que foi o presidente Jair Bolsonaro que liderou os ataques.

Ou seja, não basta a gente trabalhar mais do que nunca, levando informação ESSENCIAL para que a população possa se cuidar, se informar, saber como e quando vacinar, possa saber em que pé estão as coisas e quais as perspectivas, não basta a gente estar morrendo mais do que qualquer outra categoria de jornalistas do mundo, não basta estarmos adoecendo psicologicamente com a carga emocional do trabalho, não basta a concorrência desleal das fake news que chegam aos borbotões pelo WhatsApp, a gente ainda é atacado, e o principal fiador desses ataques é o sujeito que chefia o Executivo nacional.

É de doer, né?

Por isso, chego a este “Dia do Jornalista” sem muito o que celebrar. Ainda considero a minha profissão uma das mais importantes do mundo, mais do que nunca neste momento de pandemia, mas é um trabalho de formiguinha. Não tem nada mais doído do que ver até pessoas que me conhecem e conhecem meu trabalho me enviando textos ou vídeos de fontes apócrifas e duvidando das informações que eu apurei, porque “viram outra coisa no zap”. É como se todo o esforço colossal fosse inútil, completamente inócuo.

Fiz algum comentário sobre isso para o meu pai, o jornalista-mestre da família (ou ele adivinhou meu estado de espírito, como faz às vezes), e ele respondeu: “Não está fácil. Mas o Gilmar fez uma homenagem a vocês no dia do jornalista ao concluir o voto contra a abertura dos templos religiosos“.

Eu não tinha visto a tal homenagem. Vou encerrar o post com ela, na falta de algo mais otimista para alegrar os colegas:

“Antes de encerrar, gostaria de aproveitar essa oportunidade, Senhor Presidente, para prestar uma homenagem a todos os profissionais jornalistas pelo seu dia 7 de abril.

Esses profissionais, que exercem função essencial à democracia, têm atuado como os principais fiduciários e divulgadoras das informações estratégicas de combate à pandemia do novo Coronavírus.

É o jornalismo livre, independente e plural que ainda nos permite exercer a nossa cidadania e realizar uma verdadeira accontability da atuação dos gestores públicos neste momento.

Em homenagem a todos esses profissionais, finalizo com as palavras de Gabriel García Márquez:

‘Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte.'”

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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