Para entender a paralisação dos caminhoneiros

Paralisação dos caminhoneiros na Rodovia Presidente Dutra, no Rio de Janeiro. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil – 25.5.2018

Texto escrito por José de Souza Castro:

O governo Temer poderia ter aprendido com o de Dilma Rousseff e evitado essa greve de caminhoneiros, fosse mais bem informado e mais inteligente. Idem, a esquerda e a direita, igualmente ignorantes. Isso ficou claro para mim, após dias de indecisão, ao ler na noite de sábado artigo do último ministro da Justiça no governo petista, Eugênio Aragão.

Ambos os governos se informaram pela Abin, que, no dizer de Aragão, deveria ser conhecida como Abig (Agência Brasileira de Ignorância). Para começar, por ser o único serviço secreto do mundo “cujos agentes são recrutados por concurso público e têm seus nomes arrolados no Diário Oficial da União”.

Quem tem Abin, diz o ex-ministro da Justiça, não precisa da CIA para ser engabelado. A Abin, esclarece Aragão, “não se destina à coleta conspirativa de dados essenciais à tomada de decisões estratégicas, mas a facilitar o serviço de conspiradores contra os interesses estratégicos da sociedade brasileira. Afinal, não se presta nem para recortar jornais de três semanas atrás!”.

Parêntesis: quem precisa de uma Abin, se pode se informar pela TV Globo e pela Globo News em tempo integral? Se a questão é ser engabelado…

O artigo de Aragão tem esse título: “A Esquerda não entende os caminhoneiros!”. Tentemos entendê-los, pois.

Há dois tipos de transportes rodoviários de carga no Brasil, escreve Aragão. Um oferecido por grandes empresários que faturam e pagam suas obrigações com prazos mais largos, têm capital de giro e geralmente diversificam seus investimentos. São capitalistas e amigos dos golpistas.

Aqueles mesmos que, eu suspeito, fecharam o acordo com Temer para pôr fim ao locaute.

Outro tipo de transporte é levado a efeito por pequenos fretistas que se oferecem às indústrias e ao comércio para transportar cargas, recebendo por viagem, assumindo os custos de sua atividade e os riscos inerentes à precariedade de nossa infraestrutura logística. Têm que cobrir o preço do combustível, do pedágio, entre outros, com parte da féria ganha.

“Cumprem itinerários e prazos rígidos que lhes são impostos por contratantes e não dispõem de flexibilidade financeira. O dinheiro que recebem é no mais das vezes de preço fixo e gasto em boa parte no período de descanso obrigatório e inevitável entre um frete e outro, ou no retorno sem carga. Devem horrores às financeiras e vivem na estreita greta de sua (in)viabilidade econômica. Longe de suas famílias, passam dias e noites dirigindo seus caminhões, mantendo-se acordados com uso de rebites e altas doses de cafeína, seja na forma de chimarrão ou de cafezinho requentado em garrafa térmica”, descreve Aragão.

Esses pobres coitados, leio aqui, fizeram em 2015 duas greves. Na primeira, em fevereiro, pediam redução do preço do diesel e do pedágio, tabelamento do frete e mudança na legislação. Depois de duas semanas de paralisação, arrancaram de Dilma a Lei dos Caminhoneiros, que beneficiou mais o primeiro tipo de transporte – o dos grandes grupos.

Em novembro, num movimento convocado via redes sociais, pararam novamente, mas desta vez a principal reivindicação era de se fazer o impeachment da presidente reeleita em 2014.

Taí uma razão para que, agora, a esquerda não entenda os caminhoneiros…

Estes também não se entendem. Não compreendem que “caminhoneiros individuais são uma grande massa de empreendedores proletarizados numa economia de consumo de escala que busca crescente eficiência através da negação dos direitos dos mais vulneráveis da cadeia produtiva”, como percebe Aragão. “Muitos foram expulsos do mercado de trabalho e acreditaram que sobreviveriam num nicho de razoável, ainda que modesto custo-benefício. Enganaram-se redondamente. Com o decréscimo da atividade econômica a partir de 2014, muitos ficaram ao relento, sem frete. Não tinham margem para assumir a desaceleração da demanda”, completa.

E avança:

“Com a redução do frete e a disponibilidade enorme de caminhões ociosos, empresários contratantes resolveram repassar suas perdas para o setor de cargas individuais, mais vulnerável, e reduziram o valor da féria. Era aceitar ou largar. Viagens antes pagas por 8 mil reais, passaram a oferecer apenas 5 ou 6 mil, na cartelização usual da demanda de transporte rodoviário. Só que os custos da atividade transportadora não diminuíram. Pelo contrário. O governo, insensível para com as necessidades do setor, liberou o preço do combustível na refinaria e na bomba, bem como autorizou aumentos é mais aumentos do pedágio rodoviário.”

E deu no que deu!

A esquerda: o ministro que antecedeu Aragão na Justiça, José Eduardo Cardozo, determinou, durante a paralisação de novembro de 2015, a aplicação de multa de R$ 1.915,00 ao caminhoneiro que participasse de bloqueio nas rodovias! A direita: que venham o Exército e o Bolsonaro!

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3 comentários sobre “Para entender a paralisação dos caminhoneiros

  1. A ler este Eugenio Aragão e quem concorde com ele, devo fechar as portas de minha transportadora e demitir meus 40 funcionários.
    Para que arcar com salarios + premios, plano de saude + auxilios se no fim do mês tenho uma pequena fortuna de quase R$ 100.000,00 de ICMS? Pis, cofins, IR CS?
    Responsabilidade na estrada? Vigiar um por um de cada motorista se estão conduzindo os veiculos com segurança para a carga e os demais na estrada?
    Fazer fretes para o Maranhão, Pará e Acre, ficando dias parado por falta de ponte ou excesso de barro?

    Pra um dia ser chamada de participante de quadrilha? Apoiadora de locaute?
    Dá licença, como disse, sou responsável pelo salário de apenas singelos 40 trabalhadores…

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    • Dri, acho que interpretei diferente as colocações do articulista citado pelo meu pai… E o que você está achando da greve? Você parou também? É legal ter alguém representando os transportadores para contar mais um lado dessa história tão complexa! Eu pessoalmente, embora não tenha ainda escrito sobre a greve, estou achando muito temerário o tanto que o reacionarismo de direita está se aproveitando da paralisação, assim como aconteceu em 2013. Me mantenho bem cautelosa e cada dia mais pessimista… Bjos

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  2. Nota assinada por 25 professores de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro:

    “Recentemente, o Conselho de Administração da Petrobras, negligenciando os efeitos danosos da volatilidade no preço do petróleo para a atividade econômica, decidiu manter os preços dos combustíveis alinhados com os preços dos derivados no mercado internacional, independentemente dos custos de produção da companhia. Com essa política, a empresa passou a repassar os riscos econômicos da volatilidade dos preços para os consumidores com o objetivo de aumentar os dividendos de seus acionistas. A crise provocada pela reação dos caminhoneiros a essa política é fruto desse grave equívoco.

    Para superar essa crise, é indispensável rever essa política. No entanto, o governo decidiu preservá-la, propondo um subsídio para o diesel com reajustes mensais no seu preço. O governo estima que essas medidas custarão R$ 13 bilhões aos cofres públicos até o final do ano, dos quais mais de R$ 3 bilhões serão gastos para subsidiar o diesel importado. O ministro Guardia justificou essa medida econômica heterodoxa como necessária para preservar a competitividade do diesel importado.

    O Brasil importou 25,4 milhões de barris de gasolina e 82,2 milhões de barris de diesel no ano passado, porém exportou 328,2 milhões de barris de petróleo bruto. Na prática, esse petróleo foi refinado no exterior para atender o mercado doméstico, deixando nossas refinarias ociosas (31,9%) em março de 2018. Nesse processo, os brasileiros pagaram os custos da ociosidade das refinarias da Petrobras e aproximadamente US$ 730 milhões anuais pelo refino de seu óleo no exterior. Não é racional que o Brasil subsidie diesel importado para absorver a capacidade ociosa de concorrentes comerciais.

    A Petrobras foi criada para garantir o suprimento doméstico de combustíveis com preços racionais. Não é razoável que o presidente da Petrobras declare que o petróleo produzido no Brasil é rentável a US$ 35 dólares/barril e proponha oferta-lo aos brasileiros a US$ 70/barril”.

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