Mineroduto da Anglo American: uma profecia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Foto: Mariela Guimarães / O Tempo

Há cinco anos, num artigo publicado neste blog, quando se discutia no governo Antonio Anastasia a concessão de licenças para funcionamento do mineroduto da Anglo American, que liga Conceição do Mato Dentro ao Porto do Açu, no Rio, eu dizia que nos últimos seis anos a população desse município histórico de Minas lutava contra o projeto desse mineroduto, e perguntava aos responsáveis pela emissão das licenças: “Se até a implantação do projeto já é alvo de tantas e tão graves denúncias, corroboradas por agentes fiscalizadores, me pergunto como será o pleno funcionamento do mineroduto. Será que é o caso de arriscar?”

Pois bem, nesta sexta-feira (27) leio na Folha de S.Paulo as consequências, até agora, de dois rompimentos no mineroduto nos dias 12 e 29 de março. “No total, 1.860 toneladas de minério de ferro vazaram em Santo Antônio do Grama (MG), a 230 km de Belo Horizonte”, diz a reportagem assinada por Carolina Linhares e Nicola Pamplona.

O funcionamento do mineroduto foi suspenso pelo Ibama e pela Secretaria do Meio Ambiente de Minas Gerais após o segundo rompimento e os empregados temem a perda de emprego.

Mas o presidente da Anglo American no Brasil, Ruben Fernandes, prevê o fim breve da suspensão e ainda espera para o ano que vem as licenças para a obra de expansão, que, segundo ele, não será prejudicada. Supõe que a licença de operação deve sair no início de 2019, para elevar a produção de minério de ferro de 16,8 milhões de toneladas para 26,5 milhões de toneladas até 2020”.

“O Minas-Rio produz um minério de qualidade superior e muito competitivo. A conta que o acionista quer saber é a contribuição no fluxo de caixa e o resultado é positivo” disse Fernandes à “Folha de S.Paulo”.

Parece que, para o acionista, a multa de R$ 125,6 milhões aplicada pela Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais e de R$ 72,6 milhões pelo Ibama não muda em nada a expectativa do lucro esperado. Até mesmo porque tais multas não costumam ser pagas, como se vê no caso do rompimento da barragem de rejeitos da Samarco, em Mariana, há três anos.

Em Conceição do Mato Dentro, a 320 km do local do rompimento, a Anglo se reuniu com o sindicato e “já rascunhou uma proposta de suspensão de contratos, mas ainda não há decisão”, verificaram os repórteres. Desde o dia 17 último, 766 dos 1.474 empregados já estão em pausa forçada.

Em São João da Barra, onde fica o ponto final do mineroduto, “a prefeitura estima perda de arrecadação de R$ 1,3 milhão por mês – o equivalente a cerca de 5,5% de sua receita média mensal de 2017”, afirmam os repórteres. Metade dos 240 trabalhadores da Ferroport, joint venture entre a Anglo e a Prumo que opera as atividades no Porto do Açu, entraram em férias coletivas no dia 24 de abril. No Rio, mais 80 trabalhadores da Anglo saem de férias.

Como sempre, o trabalhador é o primeiro a pagar o pato.

Resta saber se o governo de Minas vai se preocupar, desta vez, com a questão da água gasta para o transporte do minério, que tanto preocupa a população de Conceição do Mato Dentro há mais de dez anos. Para os repórteres da Folha, é uma questão que não vem ao caso, por ora.

Um dos repórteres foi citado por mim em dezembro de 2008, em artigo publicado pelo Observatório da Imprensa sobre esse mineroduto que havia sido planejado, inicialmente, pelo Grupo MMX de Eike Batista. Nicola Pamplona, então trabalhando para o “Estadão”, informava sobre a compra de parte do Grupo MMX pela inglesa Anglo American, por R$ 5,5 bilhões. “Procurada pela reportagem, a MMX não quis comentar a operação, na qual os grupos vêm recebendo assessoria dos bancos UBS e Goldman Sachs, pelo lado da Anglo American, e Credit Suisse e Itaú BBA, pelo lado da MMX”, afirmou Pamplona. Na ocasião, eu demonstrava alguma esperança de que o projeto não fosse em frente por causa da crise mundial. Daí o título do artigo: “Crise mundial tem seu lado bom…”.

Crise que foi atribuída, em boa parte, ao Goldman Sachs… A história dirá a quem será atribuída a culpa, quando Conceição do Mato Dentro não tiver mais nem minério de ferro nem água.

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