“Ele está com sono, né?”
Desde que o Luiz nasceu, há mais de dois anos, esta é uma das frases que mais escuto nas ruas, quando passeio com ele.
Motivo: a pessoa (geralmente desconhecida) brinca com ele, ou manda um beijo para ele, ou diz como ele é lindão, e ele esconde o rosto com a mão, seriíssimo.
Isso quando não são mais diretos:
“Nossa, ele tem a cara fechada!”
“Ele está bravo, hein!”
“Não quer conversa, não!”
E por aí vai.
Quase sempre, eu me dou ao trabalho de responder: “Não está com sono, não.” E acabo caindo na armadilha de completar: “É que ele é tímido.”
Sei que não posso ficar rotulando meu filho assim. Ele é tímido mesmo, mas pra que martelar na testa dele a plaquinha com o adjetivo, que ele provavelmente vai carregar por uns bons anos?
Tenho mudado um pouco a fórmula, quando consigo me lembrar a tempo: “Ele está com vergonha”. Com isso, ele muda do ser para o estar. Estar é transitório, ser é permanente.
Tem vez que minha vontade é ser mais rude: “Ele não quer conversar com você, ele não te conhece, por que ele teria que dar confiança para você? Ele não tem obrigação de te responder, nunca te viu na vida!”
Mas a gente vive em sociedade, etc e tal.
O fato é que nem eu mesma, do alto dos meus quase 33 anos, sei lidar com minha própria timidez; como saberia o que é melhor para fazer a respeito da timidez do meu filho?
“VOCÊ, TÍMIDA?!”. Nossa, quantas vezes já ouvi isso também!
As pessoas confundem meu jeito despachado e risonho de ser com aqueles que eu já conheço/tenho intimidade com ser extrovertida sempre.
Você pode ser extrovertida com seus amigos e ser tímida com desconhecidos. Falar pelos cotovelos com os colegas de escritório e tremer diante de um auditório lotado. Ambas as personalidades coexistem num mesmo complexo ser humano.
(Às vezes acho que sou até um bocado anti-social, mas isso seria tema para outro post…)
Voltando ao meu pequeno: ele tem 2 anos e hoje é, sim, tímido. Mas não é tímido o tempo todo. Ele pode ignorar a pessoa que brinca com ele no supermercado, esconder o rosto, e depois, na hora da despedida, soltar um tchau caloroso, com direito a beijinho.
E pode ser que ele deixe de ser tímido daqui a um ano, ou quando for adolescente. Pode ser que se torne o líder do grêmio estudantil na escola, o vocalista da bandinha, o coach que palestra para milhões. Vai saber.
Ou pode ser que ele seja tímido para sempre, introvertido, caladinho, na dele. E tudo bem também.
Eu só não quero que meu rótulo atrapalhe o percurso natural do temperamento do Luiz.
Foi o que depreendi da reportagem que saiu na revista Canguru deste mês. A pergunta-chave do texto, apurado pela editora Luciana Ackermann, é: “Timidez na primeira infância deve ser motivo de preocupação para os pais?” E minha conclusão depois de ler tudo foi: não, não deve.
Vejam que maravilhosa esta fala da psicanalista e psicóloga Lidia Rosenberg Aratangy, ouvida na reportagem: “Um mundo só de pessoas extrovertidas seria insuportável”.
E o que disse o psicanalista Francisco Daudt: “A introspecção é uma bênção. Nesses tempos de crianças viciadas em companhia, a criança quieta que brinca sozinha tem tudo para se tornar um futuro leitor.”
Portanto, se você também é mãe de uma criança tímida, como eu, não se preocupe. Talvez tenhamos sido, na verdade, abençoadas!
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