‘Eu, Tonya’: um lado da história e toda a nossa empatia

Para ver no cinema: EU, TONYA (I, Tonya)
Nota 9

Estou até com medo do Oscar deste ano, porque, de todos os filmes que vi até agora, todos levaram nota 9. Isso não é normal. Onde estão os filmes péssimos que sempre aparecem no Oscar, como o tenebroso Jackie do ano passado?

Pode ser, também, que eu esteja apenas um bocado sem senso crítico quando se trata de cinema, já que o senso crítico está estratosférico no campo da política. Depois de ler notícias como ESTA, que me fizeram ter a certeza de que meu pessimismo de sexta não foi loucura, vejo um filme como I, Tonya e consigo relaxar um pouco.

Mas só um pouco. Porque esse filme é uma verdadeira porrada. Pior ainda por ser biográfico, por ser uma história real, até mesmo com cenas reais. Aqueles filmes que terminam com legendas contando como estão os personagens hoje em dia, sabe? E, apesar de eu nunca ter ouvido falar em Tonya Harding até surgir este filme, terminei de assistir com a impressão de ser sua amiga íntima, e ansiosa para saber se ela estaria bem hoje, aos 47 anos.

Como não sentir empatia por uma menina que nasceu com um dom maravilhoso, de patinar como nunca patinaram antes, mas sem conseguir nunca receber o reconhecimento justo dos juízes porque não tinha dinheiro para comprar um casaco de peles caro ou porque tinha que costurar toscamente a roupa da apresentação? Como não sentir aperto no coração ao saber ainda que essa menina cresceu sem qualquer amor, abandonada pelo pai, maltratada pela mãe, e que depois, como sói acontecer nesses casos, acabou se casando com um abusador que a espancava sem dó?

Para piorar, como não sentir que essa menina foi uma das mais injustiçadas da história do esporte depois de assistir a este filme incrível?

Injustiçada talvez por várias razões que incluem um misto de mídia sensacionalista, público ansioso para odiar facilmente a estrela da vez, elitismo no mundo olímpico e o próprio mundo violento em que cresceu Tonya, tornando-a também uma pessoa casca-grossa, de difícil relacionamento com todos, sempre com um palavrão cabeludo na ponta da língua, num sistema automático de autodefesa. As frases que ela mais diz durante as quebras de quarta parede do filme são “Eu não tive culpa” ou “Não foi minha culpa”. É impossível não compartilhar do ódio indignado e orgulhoso que ela sente por quase todo mundo. Ela só queria ser um pouco amada, fuck it!

Quatro fatores contribuem para esse efeito impressionante de criação de empatia entre espectador e anti-heroína: as atuações excepcionais de Margot Robbie na carne e (muito) sangue de Tonya e de Allison Janney fazendo sua mãe, a edição ágil e inteligente, e o roteiro que consegue dar uma improvável carga de leveza mesmo narrando uma vida de tanto sofrimento. Só as atuações e a edição foram lembradas nas indicações ao Oscar, o roteiro de Steven Rogers ficou injustamente de fora.

Allison arrebenta em papel de mãe gélida.

Allison é minha aposta certa para o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Ela, aliás, já levou um punhado de prêmios pela atuação: Globo de Ouro, Bafta, o prêmio do sindicato dos atores, e mais um monte. Margot foi indicada em todos esses e não levou em nenhum, perdendo sempre para Frances McDormand, de Três Anúncios Para Um Crime, que também é a favorita do Oscar. Vi os dois filmaços, e as duas feras em seus papéis incríveis, e não sei traçar essa comparação. Só aplaudir. Mas sei que Margot ainda está em início de carreira e terá muito para fazer e provar nos próximos anos.

Boa sorte a Allison, que agora será a representante eterna das mães que são incapazes de amar suas filhas.

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

faceblogttblog

Anúncios